No sábado (26) o Cine Cult Natal promoveu um evento especial com a presença de Ghilherme Lobo, Tess Amorim e Fábio Audi, atores do Filme “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, do diretor Daniel Ribeiro. Depois do grande sucesso internacional, o filme, que estreou no Brasil no dia 10 de abril, acumula hoje um total com mais de 100 mil espectadores. Em Natal, só nas 4 primeiras sessões promovidas pelo Cine Cult, mais de 700 pessoas foram até o cinema ver essa obra com gosto de “quero mais”, assim como o curta que a inspirou.

O evento foi dividido em duas partes: uma sessão do filme com a presença dos atores e uma festa de comemoração, realizada também com a presença dos atores no Casa Nova Eco Bar. O clima da sessão não poderia ser melhor, todos ali querendo a mesma coisa: Ghilherme, Tess e Fábio. Por um compromisso já marcado na cidade de Fortaleza, Fábio Audi não pode comparecer à sessão, porém se apresentaria na festa. Mas a emoção do público, em quase toda sua totalidade formada por adolescentes, não era menor.

Ghilherme e Tess, sendo recebidos com uma forte salva de palmas, conversaram antes e depois da exibição do filme com o público. Questionados por uma garota da plateia que perguntou como eles se sentiam ao serem porta-vozes dessa nova geração mais aberta a discussão sobre sexualidade, deficiência e adolescência, ambos os atores só puderam agradecer a cada pessoa que se sentiu emocionada e saiu diferente após assistirem o filme, pois o propósito deles era esse: discutir esses assuntos com naturalidade, pondo, acima de qualquer ignorância, o amor.

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Ghilherme Lobo e Tess Amorim

Nós conversamos com os atores Ghilherme Lobo e Tess Amorim sobre seus personagens, críticas abordadas no filme, dificuldades e experiências. Confira a entrevista:

O CHAPLIN: Vocês interpretaram os personagens Leonardo e Geovana  no curta em 2010 e agora voltaram ao papel. Como foi reencontrá-los quase 4 anos depois? Quais foram as novas descobertas?

Tess – É visível no filme o quanto a personagem Geovana cresceu muito e por ser um projeto mais longo, é possível explorar o personagem e descobrir suas sutilezas, coisa que no curta não dá pelo próprio formato de filmagem. E sobre como foi reencontrá-los, é isso, nós envelhecemos 4 anos e nesse meio tempo muita coisa aconteceu na minha vida, como o meu início na faculdade de artes cênicas. Então do curta pro longa eu acho que desenvolvi um olhar mais técnico do meu trabalho.

Ghilherme – Mesmo no roteiro os personagens receberam uma profundidade maior. No curta era muito simples, eram três personagens, praticamente. No longa já tinham pai, mãe, avó, o bullying… Não eram mais uma coisa só dos três. São descobertas mesmo dos personagens que, ou a gente acompanhava, ou ficaria tudo sem graça. Eu acho que as descobertas vieram daí. E assim como a Tess falou, pelo formato do filme ser maior, por termos feito outros trabalhos nesse meio tempo e ganhado experiência, a gente acabou vendo tudo de uma maneira diferente.

Tess Amorim

Tess Amorim

O CHAPLIN: Desde o curta vocês e o diretor vêm tendo uma relação bem próxima com o público. Houve alguma troca de experiências nessa relação para a construção do filme e, se sim, como foi?

Guilherme – Na formação do filme, sim. Mas isso dependia do Daniel, claro. A gente não tinha muito poder de alterar coisas no roteiro, mas tínhamos uma liberdade, que já era muita comparada à relação ator-diretor, de sugestionar algumas falas e gírias. Mas sobre essa influência do público, o Daniel analisava muito o que as pessoas pediam nas redes sociais. Tinha gente que pedia “ah, tem que ter sexo nesse filme” e gente que dizia “não, não tem que ter sexo. Tem que manter a sutileza”. Então ele ia vendo o que as pessoas queriam ao mesmo tempo em que equilibrava com o que ele próprio queria colocar no filme, deixando tudo na balança até chegar ao ponto em que ele achou ideal.

Tess – E esse filme era muito esperando, tinha muitas expectativas. Então para o Daniel como roteirista era bem complicado tudo isso: elaborar um texto dele e que atendesse também às pessoas que já estavam há 3 anos esperando o filme.

O CHAPLIN: Qual a importância do personagem Leonardo para a discussão sobre os deficientes?

Ghilherme – Eu acho que vai além disso. A parte da deficiência do Léo vem pra trazer duas coisas: a questão da superproteção dos pais, que envolve todas as pessoas com deficiência e até pessoas que não tem nenhum tipo de deficiência, mas que também sofrem com essa proteção em excesso. E também a descoberta da homossexualidade, do “de onde vem?”, porque assim, a gente está muito acostumado a traçar a linha do desejo pela visão. Se eu te perguntar como foi a primeira vez que você se sentiu atraído por alguém, você provavelmente dirá que foi ao ver a pessoa e nunca ao sentir o cheiro dela, ao ouvir a voz ou ao tocá-la. Eu acho que o Léo traz esses debates.

Roberto Nunes, coordenador do projeto Cine Cult

Roberto Nunes, coordenador do projeto Cine Cult

O CHAPLIN: Você interpretou a Geovana primeiramente no curta aos 16 anos e a sua personagem está em pleno processo de formação de identidade, ainda mais intensificado com a adolescência. O que a Tess adolescente se assemelhava a personagem?  

Tess – Olha, eu era bem traquina, que nem ela. (risos) Mas eu ainda sou uma pessoa muito extrovertida, muito sarcástica que nem a Geovana e eu tenho também um pouco desse humor irônico dela.

O CHAPLIN: A mesma pergunta vale para o Ghilherme.

Ghilherme – Ah, eu sou o mais novo do trio. Tenho 19 anos, acabei de deixar a adolescência, se é que eu deixei. (risos) Posso dizer o que não me assemelho. A minha vida é muito diferente da vida do Léo, isso da superproteção é uma das coisas mais diferentes, pois eu sou o segundo filho da minha mãe e nunca foi um problema eu sair para novos lugares. Não que isso seja falta de cuidado dela, mas sim confiança. Minha mãe sabe que não está criando um filho pra ela, está criando um filho para que ele viva a sua própria vida e que entre no mundo.

O CHAPLIN: Quais foram as maiores dificuldades nas gravações?

Ghilherme – Pra mim foi a luminosidade das cenas externas ou até mesmo as internas, quando tinha o rebatedor de luz, pois eu tinha que ficar com o olho aberto e parado, sem esboçar reações de que está sentindo a luz. E as cenas de banho, tanto no acampamento quanto aquela em ele beija o box eram complicadas de fazer por manter o olho aberto. O olhar no geral foi a maior dificuldade, de longe o maior desafio. Contracenar com outros sem olhar nos olhos era uma coisa muito difícil, mas eu não estava sozinho, então eu contava com a ajuda de todos pra mandar e receber emoção sem esboçar esses sentimentos no olhar.

Ghilherme Lobo

Ghilherme Lobo

O CHAPLIN: O filme foi exibido e ganhou diversos prêmios em três festivais internacionais antes de estrear aqui no Brasil. Como foi a recepção do público em Berlim, Cartagena e Guadalajara?

Ghilherme – Cartagena a gente não foi, só o Daniel pode ir. Pelo que ele nos falou, a recepção do filme lá foi muito boa, mas pelo que eu saiba não chegou ao nível de êxtase de Berlim. Já Guadalajara ficou em segundo lugar, só atrás do Brasil em termos de reação. E não só em gostar, mas de demostrar isso. O que aconteceu hoje aqui em Natal, por exemplo, de entrar na sala de cinema e a galera gritar foi incrível! Essa intensidade, essas palmas, são realmente coisas nossas de brasileiros. É muito bom ter o seu trabalho reconhecido no seu próprio país.

O CHAPLIN: Depois de quase 4 anos do curta, com o público pedindo por um longa, vocês esperavam todo essa popularidade aqui no Brasil?

Tess – Tínhamos um público já cativo desde o curta, tínhamos consciência de que essas pessoas iriam atrás do filme, mas o legal é que a obra está atingindo outros públicos. Pessoas de mais idade, adultos, pessoas que gostam de cinema e de artes estão se aproximando. Por exemplo, nos primeiros dias do filme era muito comum ver quase só adolescentes tirando fotos com a gente, e agora não. Outro dia mesmo eu fui num cinema e um pai, a mãe e filhinhos me pararam no meio do caminho para tirar uma foto. Esse era um público que, à primeira vista, não seria atingido pelo filme e agora vejo que isso está mudando.

Ghilherme – Os festivais trouxeram muito essa visibilidade. A página do filme no Face tinha, acho eu, que umas 45 mil curtidas antes de Berlim e depois subimos para mais de 100 mil. Essa visibilidade lá fora acabou nos proporcionando uma visibilidade aqui muito grande e depois do lançamento o boca a boca, nossa, foi maravilhoso! Muitas coisas proporcionaram esse sucesso, mas o fato de postar fotos dos bastidores e vídeos das filmagens na fanpage, colocando o público perto da produção, fazendo eles se sentirem parte da obra foi muito bom. No final das contas tudo isso é uma equação que gera essa sensação gratificante em mim.

A dupla em momento de discussão com o público na sessão de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho"

A dupla em momento de discussão com o público na sessão de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”

O CHAPLIN: E pra terminar, vocês já estão preparados para novos desafios? Já têm novos planos?

Ghilherme Lobo – Planos sempre existem, mas eu sempre tomo cuidado em falar deles, pois os comparo a uma gravidez de cinco meses, que você não fala a ninguém pois nada é certo nesse meio tempo. E sim, não estou só preparado para novos desafios como ansioso para experimentar coisas novas.

Tess – Eu adoro esse filme, sou muito honrada de fazer parte disso. Eu acho que é um filme pra quebrar barreiras, trazer discussões sobre temas importantes de forma natural, como realmente é. O filme se mantém por si só e nós como atores devemos seguir adiante. Planos também há, mas nada é certo ainda.

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