Apontem-se as adagas, cancelem as assinaturas, chamem os psiquiatras se assim desejarem, mas minha consideração final sobre W.E. é: Madonna botou para descer!

Madonna e a atriz Andrea Riseborough, responsável por seu alter-ego cinematográfico

Confesso que fui assistir cheia de preconceitos. Ora, eu gosto de Madonna. Ela é uma diva, talentosa e todo o resto. Mas ela é uma diva da música. E cá para nós, eu tenho problemas de adaptação quando um cineasta quer virar escritor, um escritor quer virar diretor, ou um músico, mundialmente famoso por sua música, quer inventar de carregar um filme nas costas, como Madonna. Por isso fui cheia de alfinetadas na ponta da língua, pronta para escorrer o veneno por todos os 139 minutos de filme. Mas confesso que o filme soube me cativar e tudo o que consegui criticar foi um sangue mal feito em determinada cena, umas viagens de Madonna meio desconexas, algumas poucas atuações secundárias, e uma espécie de chapéu HI-LÁ-RIO (com chifres, minha gente…) que a protagonista usa por alguns segundos. Vou tentar falar um pouco de W.E. colocando alguns pontos que me chamaram atenção e sem dar spoiler (isso é bastante difícil para mim… mas vou me esforçar).

Primeiro gostaria dizer que chamo o filme “de Madonna” porque, mesmo que ela provavelmente tenha tido dois quilômetros de apoio técnico lhe auxiliando para que um segundo trabalho tenha saído tão bom, ela não só dirigiu o filme, como assinou o roteiro, produção e acompanhou todo o processo de criação por ser “obcecada” pela história do filme desde há muito tempo. Então, W.E. não é aquele filme em que o diretor estuda por alguns meses, se concentra nele, dá seu máximo, e depois parte para outra. Na verdade, é o que podemos chamar, olhando pelo referencial da rainha do pop, “o filme da vida dela”. Aquele que você tem como um filho e quer acompanhar cada detalhe, desde a escolha do figurino e dos mínimos ângulos até cada fade da edição. E isso é tão, mas tão perceptível, que é como se sentíssemos a presença de Madonna pairando em cada cena. Isto, é claro, só é notável para aqueles que conhecem um tanto da história, raízes e trabalho dela.

Cena do filme W.E., com os personagens Wallis Simpson e Rei Edward

O filme é provocante, tem sacadas sutis de humor e ironia, aposta numa visão intimista e sensível, tem cortes bem feitos, embora algumas vezes seja perceptível a forçação de barra para que haja uma constante relação entre as duas protagonistas, Wally Winthrop – uma complexada e insossa dona-de-casa do século XXI interpretada por Abbie Cornish – e Wallis Simpson – uma mulher forte, moderna e segura de si, responsável por carregar o peso da renúncia de um rei na Inglaterra dos anos 30 do século passado.

Cá para nós, Wallis Simpson pareceu um alter-ego de Madonna. A entonação da voz, a postura, a forma de olhar e até um constante “bico” lembrava a sua diretora. O que eu, particularmente, gostei. E não sou fã de Madonna. A atriz, Andrea Riseborough, para mim, foi a grande estrela da película, desenvolveu seu papel com maestria e fez uma Wallis sedutora, carismática e afiada, responsável por vários diálogos interessantes no decorrer do filme.

Madonna também apostou em ângulos e captações de imagens pouco convencionais. Uma das cenas que mais que chamou atenção, me remetendo à belíssima produção francesa, Os Guarda-Chuvas do Amor, com uma talentosa e jovem Catherine Deneuve, é a passagem em que vários guardas-chuvas iguais estão abertos, como que criando uma barreira entre o céu e o chão. A câmera caminha por todos eles, pegando a cena do alto, até chegar ao último guarda-chuva, que é fechado e revela Wally Winthrop. E convém prestar atenção nas várias captações de imagens do alto durante o filme. Eu gostei, deu um ar elegante e peculiar à narrativa.

Os chifres… ‘-‘

Também me agradaram a trilha sonora (ora, ao menos isso tinha que sair legal, certo? Ou coitada da pobre Madonna), o figurino (recheado de estilo, elegância, e sem exageros, com exceção dos chifres que decididamente não me entraram) e a escolha do elenco. Adorei ver (ainda que pouco) Natalie Dormer (a Ana Bolena da premiada série The Tudors) como a esposa do Rei George, que sucede o irmão após a sua renúncia. Contudo, o rei gago, interpretado por Laurence Fox, foi representado como um tolo submisso e incapaz, o que é uma afronta para quem assistiu ao vencedor do Oscar de 2011, O Discurso do Rei.

Por fim, entre uma ideia interessante, um roteiro agradável, bastante recurso e um elenco quase totalmente competente, além do toque de Madonna que, para mim, foi explícito e bastante conveniente, W.E. não é o terror que dizem por aí. Possui sim, algumas falhas, mas assistam aos primeiros filmes de seus diretores favoritos e verão que ninguém começa perfeito. Saí da sessão surpreendida e satisfeita.

6 Responses

  1. Henrique

    Dona Moça, pois a senhora me convenceu a ver o filme. Ponto.

    Podexá que ficarei atento à cena dos guarda-chuvas e as captações aéreas. Quero ver como se encaixam…

    Texto ÓTIMO, gostoso de ler. Dorei foi tudo aí hehe

    BJO

    P.S.:Quando eu ver venho aqui comentar novamente

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  2. J. BRUNO

    Ainda quero poder vê-lo e tirar as minhas próprias conclusões… eu não nego a importância da Madonna para a música pop, mas não vejo nela a genialidade que todos atribuem a ela, acho que ela foi mais um produto bem moldado pelo mercado do que uma artista do tipo que carrega sozinha a glória pela sua obra…

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  3. ANTONIO NAHUD JÚNIOR

    CAMPANHA: NOSSO FOCO É O CINEMA

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