Conheci a poesia muito cedo, na forma do sarau. Demorei a ler um livro de poemas inteiro. Comecei com ”O amor é um cão dos diabos”, de Bukowski, numa edição da L&PM. Foi pesado. Tinha 12 anos e grande parte do meu vocabulário sujo foi descoberto em uma única noite, perplexa enquanto passava cuidadosamente as páginas do meu tesouro recém descoberto.

Depois, vieram livros de Natal e região. Carito Cavalcanti, Ruy Rocha, Daniel Minchoni, Sinhá e Lucílio, todos publicados pela editora Jovens Escribas. Foi aí que percebi que a poesia aparecia de formas diferentes: às vezes em formato curto, às vezes longuíssima e com muitas letras maiúsculas e uma distribuição esquisita pela página. Foi aí que descobri que podia escrever poesia usando letras minúsculas, e acho que foi por isso que decidi escrever poesia – porque detestava letras maiúsculas.

Depois de um tempo e de muitos livros de poesia lidos – além de, claro, muitos poemas aleatórios – frequentemente sou questionada sobre o porquê de gostar tanto de poesia. A resposta, claro, pode ser simplesmente: todos os livros que li. Os bons, os ruins. Anoto em quase todos. Os bons carregam anotações – e os piores mais ainda. Leio poesia como se estivesse conversando com o livro: fazendo comentários, rabiscando, sublinhando coisas que acho muito interessantes.

Os livros listados abaixo são apenas uma parte dos meus preferidos na área de poesia. São de estilos de poema diferentes, mas todos têm um único requisito que me faz gostar do texto: eles provocam algo. Com alguns eu rio muito, com outros eu preciso fechar os olhos e suspirar um pouco. Os poemas do Pedro Rocha, inclusive, podem provocar uma paixão extrema e imediata, porque é inacreditável que um poema possa ser tão certeiro.

amor_tudo_que_n_s_dissemos_que_n_o_era1. Amor é tudo que nós dissemos que não era – Charles Bukowski (Ed. 7 Letras)

Como já disse, comecei com um livro de poemas de Bukowski. Depois de ler livros de contos, textos autobiográficos e romances, fui atrás de algo mais e encontrei o maravilhoso tradutor Fernando Koproski, que nos presenteia com essa incrível seleção de poemas do Buk.

2. Toda poesia – Paulo Leminski (Ed. Companhia das Letras)

O imenso sucesso não é surpresa. No primeiro dia nas prateleiras, lembro da correria que havia nas livrarias. Todos queriam resgatar o Leminski total, numa edição bem organizada, extensa e bonita. Leminski é mestre – de trocadilho, do poema preciso, do equilíbrio entre o trágico e o engraçado. Todo mundo tem que ler.

3. LSD Nô – Ademir Assunção (Ed. Patuá e Demônio Negro)

Ademir Assunção é jornalista, além de poeta. Venceu o Jabuti em 2013. Esse livro que indico aqui é incrível. Conta com vários poemas extremamente experimentais, mas também com textos simplérrimos – que de forma alguma perdem o encanto.

4. Chão inquieto – Pedro Rocha (Ed. 7 Letras)chao_inquieto_

O que diferencia o Pedro Rocha dos outros poetas é que o cara é o bicho. Ouso dizer que meu poeta preferido. Leio todos seus poemas em voz alta sempre que pego no livro e nunca me canso. O baque nunca vai embora e é sempre forte. Um destaque especial para os poemas ”engrenagem organismo”, ”ao passo”’ (dedicado ao Chacal) e ”deitada”. O meu preferido, mesmo, é ”sobre não saber do que se trata um sarau de poesia hoje”, que leio sempre em saraus. Risos. Lanço um desafio ao leitor: achar um poema ruim nesse livro.

5. Livre-me – Caio Carmacho (Ed. Patuá)

Aqui tem de tudo. Amor, felicidade, amargura. E não é disso mesmo que a poesia trata: de tudo?! Caio é um presente. Um livro leve, mas não se engane, como alerta o poema ”este lado para cima”:

”não se deixe enganar caro leitor,
para ler este poema é necessário
CUIDADO
muito cuidado.
(…)”

chacal_belvedere6. Belvedere – Chacal (Ed. 7 Letras)

Na verdade, você precisa ler tudo do Chacal. Porque ele é maravilhoso. Os poemas dele são sobre tudo que se imagina. O Belvedere é a reunião de sua obra entre os anos de 1971 e 2007. Recomendo ir atrás do CEP 20.000, ouvir o Chacal lendo poesia, etc. É por textos como os dele que as crianças se interessam por poesia. Porque é simples, é divertido e sempre tem algo que no haikai chamamos haimi – que é uma espécie de tcham, de alma, algo que faz o haikai valer a pena. Em todos os poemas que li de Chacal, isso está presente. Não sei como chamar, no caso da poesia, mas arrisco dizer que tem vida. E respira.

7. Caravana – Carina Castro (Ed. Patuá)

Quando ouço alguém falar da natureza de tal tipo de poesia, penso que a natureza da Carina é a própria natureza. Ela escreve sobre coisas do chão, sobre memórias familiares e afetivas. É um livro de extrema sensibilidade e nem um pingo de pecado. Nada é grandioso. Tudo está à mão, próximo. Daí o resultado incrível. É um livro incrível, pra viajar.

joquei8. Na veste dos peixes as palavras de ontem – Sinhá

Sinhá, que estreou com o também maravilhoso ”Devolva meu lado de dentro”, apresenta aqui um poema longo dividido em três partes. Suas imagens são muito bonitas. Natalense, ela cita muito o sertão, mas também transparece os tons de São Paulo.

9. Jóquei – Matilde Campilho (Ed. Tinta da China)

Matilde é portuguesa e vive entre o Rio e Portugal. Sua poesia é algo de outro mundo, com imagens muito simples e  claras. Conheci seu livro no Festival Internacional de Poesia de Recife, quando ela leu seus poemas no microfone, e por ser tão maravilhoso que também indico que assistam também seus videopoemas.

10. Mastodontes na sala de espera – Bruno Brum (Ed. Crisálida)

Leitura não obrigatória. E com isso quero dizer que é um livro divertido. Risos. É uma aula da poesia feita por quem sabe onde pisa, por quem escreve porque o poema vem.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.