A luta de Karl Ove Knausgård: confissões literárias

Minha relação com a literatura oscila. Não poderia ser diferente com alguém que trabalha com a mesma, mas este oscilar vai de extremos; de um polo em que me encanto ao pensar que tudo o que importa está nos livros, “o resto é barulho”, a um outro polo em que fico me perguntando “de que vale tudo isso?”.

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Recentemente, pendi ao primeiro polo citado, o da literatura como significado de todas as coisas – ou um condensado, seria o termo mais apropriado. E o culpado por isto é o norueguês Karl Ove Knausgård, com sua série de seis livros, polêmica e provocadoramente denominada “Minha Luta”. Sim, como a autobiografia de Adolf Hitler.

Então, quando meu pai erguia a marreta acima da cabeça e a deixava cair sobre a rocha naquele entardecer de primavera da metade da década de 1970, fazia isso num mundo que conhecia bem e que lhe inspirava confiança. Somente ao atingir aquela mesma idade eu fui entender que é preciso pagar um preço por isso. Quando sua perspectiva de mundo se amplia, não mitiga apenas a dor que acarreta, mas também o sentido dessa dor. Compreender o mundo requer que se mantenha uma certa distância dele.

13088_ggOs dois primeiros volumes da série já foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras – “A Morte do Pai” e “Um Outro Amor” (2013 e 2014, respectivamente), – e o terceiro deve estar nas livrarias do país em 2015. Trata-se de uma autobiografia dividida em seis partes. A polêmica já começa aí, quando Knausgård, sem pudor algum, esmiuça intimidades não só suas, mas também de parentes e próximos.

A genialidade de Knausgård e de sua empreitada é provavelmente a resposta para a pergunta que o leitor no momento está se perguntando. Como eu, um sul-americano dos trópicos, me identificaria e acharia interessante uma mega biografia de um norueguês de meia-idade, pai de família (casado e com três filhos), dono de uma vida ordinária?

Minha Luta” é uma ode à existência. Uma obra de extração de significado em qualquer mínimo acontecimento que seja, e que prende o leitor página à página. O desafio é exatamente este, fazer boa ficção (autoficção, no caso) tendo como matéria-prima uma vida aparentemente trivial. Não só boa literatura como dar brilhantismo a esta trivialidade. Como cita o próprio autor: “o meu mundo, em toda sua insuportável banalidade, brilhava.”

Tema atual, tendo em vista a quantidade de livros contemporâneos publicados de autoficção. Só no Brasil, ótimos escritores como Ricardo Lísias, Cristovão Tezza, Michel Laub, Miguel Sanches Neto. Lá fora, Alejandro Zambra, Jonathan Safran Foer (“Tudo se Ilumina”) e a trilogia Infância-Juventude-Verão, do mestre J.M. Coetzee. E, dentre os clássicos, claro, a referência maior com a qual “Minha Luta” tem sido comparada: “Em busca do tempo perdido“, de Marcel Proust.

Karl Ove KnausgardO primeiro volume, “A Morte do Pai”, de título bastante autoexplicativo, trata, primeiramente, da relação do escritor-protagonista com a figura opressora e ao mesmo tempo ausente do pai – além de elementos típicos de um romance sobre um jovem em formação; os primeiros porres de álcool, as tentativas falhas de formar uma boa banda de rock, desilusões românticas da adolescência, a obsessão por futebol (tanto por jogar quanto por torcer), a falta de perspectiva para o futuro; – e, numa segunda metade, a forma como se lida, junto de seu irmão, com a morte de seu pai, que viveu seus últimos anos de modo decadente e alcóolatra morando na casa da mãe.

Ao se depararem com o cenário desolador em que seu pai vivia, após a notícia de sua morte, Karl Ove e seu irmão Yngve, precisam limpar uma casa, reencontrar-se com um passado e memórias que evitam, e lidar também com uma avó que começa a dar sinais de demência. Enfrentar os fantasmas do passado para poder dar andamento ao presente.

“O atrito do tecido com meus olhos marejados, dispersando as lágrimas sem propriamente enxugá-las, fez com que os contornos e as cores do quarto ficassem borrados, como se eu tivesse subitamente afundado na água e agora estivesse submerso, e essa sensação era tão vívida que fui até a escrivaninha dando braçadas pelo ar.”

um-outro-amorUm enredo simples. O primeiro livro já demonstra os dizeres de Knausgård, de que a forma deve estar acima de todos os outros elementos literários. E em meio ao enriquecimento de sua prosa – não se engane, o enredo também nos prende -, não são raras as páginas que se delongam em reflexões sobre a literatura e a arte (a pintura de forma bem específica).

Em poucas palavras, uma aula de literatura. Não resisti e quis escrever um texto sobre a série antes mesmo de terminar o segundo livro, mas este que até onde li, já supera o primeiro – abordando temas como namoros, matrimônio, paternidade, e o conciliar de tais acontecimentos com as ambições literárias do escritor-personagem. E mais um parêntese pessoal aqui, me parece simbólico demais para não ser mencionado, é que minhas pazes feitas com a literatura tenha ocorrido com o primeiro livro que li num leitor digital. Gostei bastante.

Já empolgado pelas próximas edições deste projeto, que vão ocupar certamente minhas leituras nos próximos anos. E você, dê uma chance.


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