“Uma garota à porta”: um retrato do ascendente cinema coreano

Além de ser admirada por seu rápido desenvolvimento econômico e social, a Coreia do Sul também está adquirindo respeito na comunidade cinematográfica e está até inspirando Hollywood. O exemplo mais recente é o filme norte-americano “Old Boy”, dirigido em 2013 por Spike Lee, que nada mais é do que um remake da produção homônima sul-coreana lançada dez anos antes. No entanto, esse reconhecimento ainda não chegou aqui na maior parte do Brasil, exceto no Rio de Janeiro, primeira cidade brasileira que recebeu o filme “Uma Garota à Porta” (July Jung, 2014), nas primeiras semanas de 2015.

Dohee (Sae-ron Kim)

Dohee (Sae-ron Kim)

Como o filme retrata de alguma forma a homossexualidade, “Uma Garota à Porta” teve uma exibição concorrida em outubro do ano passado, durante o Festival do Rio. Junto com outras 44 produções, “Uma Garota à Porta” concorreu ao Prêmio Felix – criado para substituir a mostra LGBT, extinta por causa da quantidade recorde de filmes com essa temática. Mas quem espera por uma produção que trata exclusivamente sobre questões gays, acaba encontrando um filme muito mais polêmico, que reúne outros temas como alcoolismo, abuso sexual e violência doméstica em sua história.

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A delegada Yong-Nam (Bae Doo-Na)

“Uma Garota à Porta” tem duas protagonistas, de idades e histórias completamente diferentes, mas igualmente oprimidas pelo ambiente social a sua volta: a delegada Yong-Nam (Bae Doo-Na), transferida recentemente para a pequena cidade onde vive Dohee (Sae-ron Kim), uma jovem que sofre bullying dos colegas e é maltratada pelo pai e pela avó. Quando não está cumprindo seu dever, a policial tem comportamento cabisbaixo, demonstrado por meio do físico arqueado e olhar cabisbaixo que a atriz Bae Doo-Na, numa boa atuação, imprime à sua personagem. Seu modo de agir reflete arrependimento de alguma coisa no passado que provocou sua transferência para a pequena localidade.

"Uma garota à porta": filme que retrata a rápida aproximação entre delegada e adolescente problemática

“Uma garota à porta”: filme que retrata a rápida aproximação entre delegada e adolescente problemática

Já Do-Hee (Kim Sae-Ron) é uma menina tímida de 14 anos que sofre violência doméstica de seu padrasto desde que sua mãe abandonou o lar. Ao se dar conta dos maus tratos, Nam se oferece para tutelar a jovem, e as duas se tornam muito próximas. Após acolhê-la em sua casa, a delegada, no entanto, percebe que a garota não é tão inocente quanto parece, pois Do-Hee – tentando agradar sua nova responsável – desperta algum desejo carnal na policial e, junto com seu passado, põe em risco carreira e a vida de Nam. Apesar da tenra idade, Do-Hee é uma personagem muito complexa, cujas intenções podem ser avaliadas pelo espectador como inesperadas ou como prospecção não resolvida, fruto do seu caráter de garota, ainda em formação.

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Cartaz do filme em inglês. Além do Festival do Rio, a produção também foi exibida em Cannes

O roteiro de “Uma garota à porta” é cheio de tramas e tem um final não usual, mas verossímil, dadas personagens principais tão multifacetadas. Junto com a poética direção de July, o filme torna-se uma singular produção. No entanto, July esqueceu de uma regra fundamental na comunicação: que o menos é mais. A grande quantidade de temas polêmicos na história impede que cada um seja bem explorado. Portanto, não há aprofundamento nas questões levantadas. Mesmo assim, vale a pena conferir para perceber que os povos orientais só estão distantes da gente, ocidentais, geograficamente. Afinal, as mesmas discussões feitas no Ocidente são válidas (e viram excelentes filmes) para eles também.

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