220 Volts: um choque de comédia e crítica

No último sábado, 7, fomos conferir a peça 220 Volts, do ator Paulo Gustavo. O espetáculo teve três sessões no Teatro Riachuelo, uma no sábado e outras duas no domingo, 8. Dividido em 6 atos, a peça apresenta diferentes mulheres nesse universo moderno, cada uma com suas feições, mas todas com o mesmo discurso de valor sobre esse sexo que cansou de ser chamado de frágil e que hoje abre a boca não só pra gritar seus direitos, mas para beijar e não sentir vergonha disso. Que beija um, dois, três (ou mais) e não deve ser tachada de vadia por se sentir livre. A personagem bonitinha da balada é esta mulher que sai na noite e vive intensamente, que descobre seu corpo e quer sentir desejo, prazer e conforto.

Fotos: Diego Marcel

Fotos: Diego Marcel

As mulheres que habitam em Paulo Gustavo são variadas, cada uma com seus trejeitos, ideias e cabelos ao vento… Muitos cabelos ao vento! A personagem Diva é exuberante e de uma autoestima que dá inveja a qualquer um(a). Ah, e nem invente em compará-la a Beyoncé, pois é a norte-americana que “imita” nossa estrela brasileira. Toda dourada, Diva é uma mistura de Claudia Leite, Ivete Sangalo e Jennifer Lopez, mulheres bem sucedidas e absolutamente populares. Qual a mensagem que transmitem? Nada. São, em tudo, uma repetição infinita de frases desconexas ou de efeito.

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Para as donas de casa, Paulo dedica a personagem Apresentadora de TV, que, diferente da Ana Maria Braga, apresenta um choque de realidade que constantemente é maquiado pelas grandes corporações de comunicação e pelas empresas publicitárias. Exemplo disso é a cena do “merchan”, onde as taças de vidro são vendidas como acrílico, pois na TV tudo tem que ser da “melhor” qualidade e as donas de casa, sem instrução suficiente, acabam caindo nessas armadilhas manipulatórias. O autor, sem falar diretamente, grita pra você “Acorda, menina! Não se engane”.

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As três sessões de 220Volts tiveram casa cheia no Teatro Riachuelo

A personagem que o público mais gostou naquela noite, por incrível que pareça, reflete uma das piores características humanas: o preconceito. A personagem Senhora dos Absurdos é essa madame dondoca “rica, hétero e branca” – como a mesma não cansa em repetir –, que só aceita o pobre como seu empregado e repudia a homossexualidade. Mas por trás estava lá, bem estampada e verdadeira, a crítica inteligente e assídua de Paulo contra uma classe que se enxerga hegemônica até hoje.

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Porém, o discurso mais trabalho naquela peça e que pouca gente presta realmente a devida atenção é o discurso de gênero. Pois é, se você parar pra pensar, o ator se veste de corpo e alma com o estilo feminino. E o mesmo já declarou várias vezes que personagens masculinos são limitados, mas os femininos, esses sim, são sempre profundos. Então de saia, cílios e salto 15, Paulo Gustavo samba na cara da sociedade.

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