2º dia do Festival Dosol teve black music, suor e muita música

Ingressos, bebidas e comidas mais caras em relação ao ano passado, bandas que já haviam tocado no dia anterior – por conta em parte do cancelamento do show de O Terno porque um dos integrantes estava doente – o próprio cansaço da sexta (…). Vários podem ser os motivos que levaram o sábado de Dosol a não ser tão fervilhante como de costume. O evento oficial do festival no Facebook mostrou várias pessoas reclamando da segurança, se queixando de furtos e brigas, frustração de alguns por não poderem entrar e sair da Rua Chile quando quisessem, além dos usuais problemas de áudio, pontos que podem ser avaliados pela produção do evento. Por outro lado, uma ambulância estava a postos para qualquer necessidade, uma evolução! E a pontualidade se manteve pra alegria de quem chegou cedo e ainda queria ver a lambada quente na madrugada, além de várias boas surpresas por parte das bandas. Eis agora os destaques do dia:

Aláfia
Aláfia

Em estúdio, Carne Doce não se destaca tanto quanto ao vivo. Gravadas, as canções soltam um experimentalismo que, mesmo possuindo vários elementos interessantes, em geral suas misturas não são nítidas ou imprevisíveis e acaba por não prender tanto o ouvinte. Nos shows essa dinâmica muda: A vocalista Salma Jô faz do palco seu quarto e da música, sua oração. Fecha os olhos, grita, dança, sua, ri, cria uma atmosfera de entrega em torno da banda e da música que canta, e é essa a energia que falta em estúdio. O público é tímido nas primeiras horas de Dosol, mas foi irresistível pra alguns não acompanhar a banda.

Carne doce
Carne doce

Com as palavras de Emilly Lacerda, “AlaMoana, como toda banda hypada por comentários na página do Spotted UFRN (assim como o Plutão já foi planeta), tem integrantes jovens e bonitinhos dentro do padrão social estabelecido, coisa que não foi pensada quanto a escolha do nome nasalado que é título da banda. Após (infelizmente) pegar a última música do show do explosivo Letto no palco do Galpão 29, seguimos para o palco Deezer, onde estava a vocalista da AlaMoana começando o show da banda, cover oficial de Emma do filme ‘Azul é a cor mais quente’, de camisa jeans, cantando com uma voz muito boa uma música apenas passável. O erro foi talvez passar o microfone para o outro vocalista também bonitinho, mas que com caras e bocas estragava toda a sua beleza visual no restante das canções do repertório, com raps no estilo Detonautas meets Jota Quest. Perfeito pra quem queria uma desculpa para sair do abafado palco Deezer”.

A venda de materiais das bandas que tocam no evento continua uma tradição firme e forte
A venda de materiais das bandas que tocam no evento continua uma tradição firme e forte

Quando Plutão já Foi Planeta ainda estava fazendo a passagem de som e cuidando dos instrumentos, já havia uma legião de fãs frenéticos à beira do palco gritando de alegria com qualquer sinal de movimento. Por mais que eu não entenda o fascínio em torno dessa banda, é inquestionável o poder que ela tem de carregar multidões aos seus shows, sendo um dos públicos mais calorosos do dia com direito a coro de música, mãozinha no ar e tudo.

Plutão já foi planeta
Natália Noronha, da Plutão já foi planeta

Aláfia, sem dúvidas, foi não só a melhor surpresa como também a melhor banda do dia. O swing de seu funk se misturava ao soul, rap e a elementos da música africana, todos os ritmos intensos, marcantes e de raízes desprezadas. Suas canções, intercaladas por maravilhosos solos de gaita, falam de amor, do poder da ignorância e de várias questões que não recebem a atenção da sociedade brasileira, como a desigualdade social, preconceito aos negros e às religiões afro-brasileiras. Cheia de músicos fortes e distintos, vale destacar a presença da fascinante vocalista Xênia França, que em qualquer lugar que estava, roubava a atenção de todos; dona de uma voz impecável e elegante, ela enaltecia sua música e sua mensagem através da sua imagem, olhares matadores e danças ritmadas, fortes e sutis.

Em palco, Jairo Pereira faz não só da sua voz instrumento, mas todo o seu corpo. O que começou como um acompanhamento aos gestos de Xênia tornou-se, aos poucos, uma entrega quase furiosa ao que ele cantava: os gestos bruscos contrastando com momentos de pura imobilidade, as expressões que beiravam o desespero e a intensidade de sua voz era uma resposta inconsciente aos momentos de rap e crença na sua mensagem. Eduardo Brechó dividia o vocal com a guitarra, e dos três, era o mais cadenciado, mas não menos intenso. No fim do show, metade da banda tava seminua por causa do calor e o público, em êxtase.

Aláfia
Aláfia

Com as palavras de Emilly Lacerda, “sobre o show de Thiago Pethit: Dosol lotado e uma empolgação enorme do público que não conseguia aguentar nem o povo ajustando o som. Pethit dança muito e cantou todo o repertório do seu disco ‘Rock’n’roll Sugar Darling’ (2014). As letras, que misturam português e inglês, eram entoadas pela multidão suada quase como versículos da bíblia são entoados em igrejas. Entre os destaques musicais estão a versão mais rock de ‘Nightwalker’ do álbum ‘Berlim, Texas’ (2010), o sampler de ‘Sir Mix-a-Lot – Baby Got Back’ (também presente em ‘Anaconda’ de Nicky Minaj) e o cover de ‘Blue Jeans’ de Lana del Rey mesclado à faixa ‘Devil in me’ do álbum ‘Estrela decadente’ (2010). Um show pulsante e marcante, com direito a um ardente beijo na boca entre Pethit e um garoto da plateia em cima do palco e um stage diving onde segurei a perna direita do cantor”.

Thiago Pethit
Thiago Pethit

Vencedora de três categorias (banda do ano, CD do ano e clipe do ano) no Prêmio Hangar de Música, saindo em lista da Rolling Stone Brasil, em turnê pelo nordeste e sudeste, Mahmed trouxe a energia única de uma semana dourada para uma das atrações mais aguardadas do sábado. “Sobre a vida em comunidade” fez muita gente mudar de opinião quanto à música instrumental, pois é um disco expressivo, pulsante, orgânico e intimista, e essas características ficam ainda mais evidenciadas quando a banda está ao vivo. Como era de se esperar, casa lotada e show impecável, com o baterista Ian Medeiros comandando a platéia com maestria.

Figueroas
Figueroas

Figueroas estava marcado para começar às três da madrugada, mas às onze da noite já tinha gente fazendo trenzinho de lambada no meio da Rua Chile. Saias e vestidos foram resgatados, braços descruzados, cansaço e cara de roqueiro do mal foram desfeitas e todos se curvaram diante da malemolência e sedução do corpo e danças invejáveis de Gilvy Simons, personalidade que inclusive deveria virar referência de moda. Um jeito lindo de terminar um dia cheio de altos e baixos musicais.

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