5 bons livros da literatura brasileira contemporânea

Muita gente fala, muita gente elogia, mas nem todo mundo é introduzido na tal da “Nova Literatura Brasileira”. Sim, bons livros e escritores já temos, a pergunta que paira questiona onde diabos está o leitor.

Ilustração de Fabrice Backés
Ilustração de Fabrice Backés

Então, se você quer dicas de livros pelos quais começar a ler os contemporâneos e conterrâneos desta geração que vem sendo elogiada, elaborei uma lista de cinco obras que certamente deixam o leitor mais curioso sobre o que está a se produzir por aqui. Mas antes, a dica fundamental é: não deixe de ler qualquer um destes.

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Habitante Irreal (Alfaguara, 2011), de Paulo Scott.

Um livro um tanto profético em alguns aspectos. A desilusão com o PT após chegar ao governo, as recentes manifestações… Mas a questão que é mais cara ao livro é a reflexão sobre a situação indígena no país. Não vêm em forma de denúncia social mastigada. As reflexões do leitor se dão por uma análise das relações humanas na trama, que varia de época e personagem quanto ao ponto de vista. Paulo Scott usa de uma linguagem simples, poética, e cheia de referências à cultura pop. Habitante Irreal também é visto como o livro que abriu os olhos da crítica para essa nova geração de escritores que estava se formando. Sobre o enredo, complexo, prefiro dizer que se inicia com as consequências do encontro de um estudante de Direito de classe média, em seu carro, com uma índia solitária deitada em beira de estrada, coberta por jornais num dia de tempestade.

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Mãos de Cavalo (Companhia das Letras, 2006), de Daniel Galera.

Que Barba Ensopada de Sangue que nada. O grande livro de Daniel Galera chama-se Mãos de Cavalo. Embora eu ache “Barba” um grande livro também, e talvez a questão aqui é que Mãos de Cavalo seja a introdução temática perfeita para o livro mais recente do escritor. Não é o romance de formação perfeito porque está longe de ser politicamente correto, e é esta sua maior qualidade. A forma como se lida com a violência, os relacionamentos, a imperfeição de nossas cidades. Um livro sobre o quanto é preciso se fazer para provar a si mesmo que se é homem, aos dez, aos quinze, ou aos trinta anos de idade. (Talvez o ideal aqui seja, depois, emendar a leitura com Barba Ensopada de Sangue.)

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A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves (Companhia das Letras, 2013), de Joca Reiners Terron.

Difícil definir o estilo desse livro. Sobre a história, acontecimentos macabros no bairro do Bom Retiro, vistos por uma multiplicidade de personagens tão macabros quanto. Terron usa do fantástico e do horror para escrever uma metonímia da cidade de São Paulo, no microcosmo do bairro do Bom Retiro, que recebeu várias levas de imigrantes diferentes, de diferentes nacionalidades. É significativo o fato do maior observador dos eventos ser um insone, condição em que mal se diferencia se está desperto ou sonhando quando à noite, pois na noite de São Paulo tanto pode se acontecer que você pode acabar se perguntando se aquilo é a linguagem da literatura fantástica mesmo ou a constatação do real.

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Chove sobre minha infância (Record, 2000), de Miguel Sanches Neto.

Esta “ficção autobiográfica” talvez se destaque, ainda mais, entre aqueles que escrevem ou pretendem tornar-se escritores. A história da formação da criança e do jovem que busca refúgio na introspecção e torna-se escritor, num lugar hostil a que isto ocorra, uma cidade rural do norte do Paraná, faz com que muitos se identifiquem com que é narrado por Miguel Sanches Neto, com muito estilo e sensibilidade. A ficção autobiográfica e o tema central fazem lembrar um pouco de Infância (Boyhood), do J.M. Coetzee.

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Diário da Queda (Companhia das Letras, 2011), de Michel Laub.

Tido por muitos como o melhor livro brasileiro dessa nova safra, este é um romance corajoso. Sobre enfrentamento, trauma, perda. Mas sem choradeira. Aqui também temos uma ficção autobiográfica, em que o escritor entrelaça três gerações; ele próprio, o pai (com quem tem uma relação conflituosa), e o avô (sobrevivente do holocausto). A narrativa poderosa de Laub une as três histórias levando o leitor a conseguir juntar todos os pedaços em um só fio, no ponto decisivo do livro, mesmo o que pareça improvável.

Boa leitura.