Culturalmente, é extremamente atrativo acompanhar o dia-a-dia de pessoas que admiramos. Nos tempos atuais, é possível fazer isso através das redes sociais. Mas como poderíamos ter acesso ao mais íntimo das pessoas de épocas anteriores?

Há uma possibilidade muito interessante a ser explorada: ler a correspondência dessas pessoas – desde pessoas comuns até grandes artistas, cientistas, gente que fez e faz história.

Um livro chamado Cartas extraordinárias, há pouco tempo lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, reúne cartas que fazem jus ao título. São correspondências de nomes como Einstein, Fidel Castro, Mick Jagger, Oscar Wilde, Virginia Woolf, Louis Armstrong e Dostoiévski.

É possível se deslumbrar e ficar estupefato com cartas como a de uma garotinha ao editor do Sun, questionando uma reportagem que afirmava que Papai Noel não existe, o bilhete suicida de Virginia Woolf  e tantas mais.

Abaixo, transcrevemos trechos importantes de algumas dessas cartas, junto a seus respectivos contextos. Todas as cartas se encontram, na íntegra, no livro acima citado.

1. E. B. White para Sr. Nadeau

E. B. White, autor de clássicos como Stuart Little e A teia de Charlotte, escreveu esta carta em resposta a um fã identificado como Sr. Nadeau, que lhe escrevera indagando sua opinião acerca de um ”futuro sombrio da humanidade”.

“Enquanto houver um homem íntegro, enquanto houver uma mulher compassiva, o contágio pode se alastrar e a perspectiva não é desoladora. Esperança é o que nos resta em tempos difíceis. Vou me levantar no domingo de manhã e dar corda no relógio, contribuindo para a ordem e a estabilidade. 

Os marinheiros têm uma expressão para definir o tempo: dizem que o tempo é um grande blefista. Acho que isso também é verdade em relação à nossa sociedade — tudo parece sombrio, e então as nuvens se abrem, e tudo muda, às vezes de repente. É óbvio que a humanidade transformou num caos a vida neste planeta. Mas, como povo, provavelmente trazemos em nós sementes do bem que desde muito esperam condições adequadas para brotar. A curiosidade, a inventividade, a engenhosidade do homem o levaram a sérias dificuldades. Só podemos esperar que o ajudem a sair delas. (…)”

2. Jackie Robinson para o presidente dos Estados Unidos Dwight Eissnhowe

Jackie Robinson foi um talentoso jogador de beisebol que, em 1947, derrubou uma tradição do esporte que proibia atletas negros de ingressarem em times profissionais de primeira ou segunda divisão.

“Assisti à Reunião de Cúpula dos Líderes Negros ontem, e ouvi o senhor falar que precisamos ter paciência. Tive vontade de me levantar e dizer: “Ah, não! De novo!”
Com todo o respeito, lembro-lhe que temos sido o povo mais paciente do mundo. Quando o senhor falou que devemos ter amor-próprio, perguntei a mim mesmo como haveríamos de ter amor-próprio e continuar sendo pacientes diante do tratamento que temos recebido ao longo dos anos.
Dezessete milhões de negros não podem esperar que o coração dos homens mude. (…) Só conseguiremos isso perseguindo agressivamente objetivos que todos os americanos alcançaram há 150 anos.
(…)”

3. Nick Cave para a MTV

O álbum ”Murder Ballads” de Nick Cave foi profundamente elogiado e contribuiu para que a MTV indicasse Cave nick-cave-tom-oldhamcomo Melhor Artista Masculino, o que o levou a escrever esta delicada carta de recusa.

“(…) Minha relação com minha musa é delicada até mesmo nos melhores momentos e eu me sinto na obrigação de protegê-la de influências que possam afetar sua frágil natureza. 

Ela vem a mim com a dádiva da canção e em troca eu a trato com o respeito que ela merece – nesse caso isso significa não submetê-la à indignidade do julgamento e da competição. Minha musa não é um cavalo e eu não estou em nenhum páreo. E, se ela fosse um cavalo, eu não a atrelaria a essa carreta da guilhotina – essa carrreta ensanguentada com sua carga de cabeças cortadas e prêmios reluzentes . Minha musa poderia se assustar! Poderia me abandonar! (…)”

4. Richard Feynman para Arline Feynman

Ricard Feynman, um dos físicos mais importantes da sua geração escreve essa carta, em 1946, após um ano da morte de sua namorada desde a época da escola, Arline, vítima de tuberculose.

“(…) Tenho dificuldade para entender o que significa amar você depois de morta – mas ainda quero confortar você e cuidar de você – e quero que você me ame e cuide de mim.

(…) Você morta é muito melhor do que qualquer uma viva.

Eu sei que você vai me dizer que sou bobo e que você quer que eu seja muito feliz e não quer me impedir de encontrar a felicidade. Aposto que se surpreende por terem se passado dois anos e eu ainda não ter nem mesmo uma namorada (além de você, meu amor). Mas você não pode fazer nada em relação a isso, minha querida; nem eu – eu não entendo, porque conheci muitas moças interessantes e não quero ficar sozinho -, mas depois de dois ou três encontros elas parecem inconsistentes. Só você está comigo. Você é real. (…)

Eu amo minha mulher. Minha mulher está morta. (…)”

Aldous_Huxley

Aldous Huxley, autor de “A ilha” e “Admirável mundo novo”

5. Laura Huxley para Julian e Juliette Huxley

Laura Huxley, esposa de Aldous Huxley, autor de “Admirável mundo novo” e “A ilha”, escreve esta carta em 1963 para a família de Aldous, que morreu de câncer na laringe, sobre seus últimos dias de vida.

“(…) Depois, não sei bem a que horas, ele pediu o bloco de anotações e escreveu: “Experimente LSD 100 intramuscular”. (…) O médico perguntou se eu queria que ele aplicasse a injeção – talvez porque viu que minhas mãos estavam tremendo. A pergunta me fez dar conta desse tremor e respondi: “Não, eu tenho de fazer isso”. Eu me acalmei e quando apliquei a injeção minhas mãos estavam bem firmes. Então sentimos um grande alívio. (…) 

Agora seu rosto assumia uma expressão muito parecida com a que a droga libertadora suscitava, uma expressão de perfeita felicidade e amor absoluto. (…) Agora ele estava muito quieto; estava muito quieto e as pernas começavam a ficar mais frias; mais pra cima percebi manchas roxas de cinose. Então me pus a falar: “Leve e livre”. Repeti algumas coisas que naquelas últimas semanas eu lhe tinha dito na hora de dormir e agora falei de modo mais convincente, com maior intensidade – “vá, vá, solte-se, querido; para a frente e para cima. Você está indo para a frente e para cima; você está indo para a luz. Contente e consciente você está indo, contente e consciente, e está indo lindamente; está indo lindamente –  está indo para a luz. (…) Você está indo para um amor maior do que qualquer amor que já conheceu. (…)”

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