O Anjo Malvado: Precisamos pensar sobre a maldade

“Maldade é um título que atribuímos quando desistimos de entender alguém”

 

Em meio a tantas atitudes drásticas, muitas das quais até inimagináveis para a maioria de nós, devemos nos propor a pensar o seguinte paradigma: devemos culpar o determinismo e responsabilizar o meio, a raça e o momento para as atitudes ruins de uma pessoa ou somos ingênuos em buscar uma solução para a pura maldade?

O Anjo Malvado (The Good Son, Joseph Ruben, 1993) é um filme intrigante, do tipo que precisa de coragem para ser feito, e que, infelizmente, anda cada vez mais em falta. A preocupação do cinema contemporâneo tem sido cada vez mais explicar as atitudes humanas, muitas vezes abdicando de mostrá-las como verdadeiramente são, sem amenidades. Em “O Anjo Malvado” ocorre o inverso. Um jovem e talentoso Macaulay Culkin interpreta Henry Evans, um garoto que todos julgam ser um tanto encapetado, mas nada absurdo para uma criança da sua idade. Henry é bastante educado, respeitoso e, de quebra, ainda tem o rosto do Macaulay Culkin, aquela expressão dúbia, que nunca conseguimos definir se é de anjo ou diabinho.

O outro protagonista do filme é Mark Evans, primo de Henry, interpretado por Elijah Wood, também jovem, e menos talentoso que Culkin, mas ainda assim, já tinha o seu carisma em cena. Mark perdera a mãe há pouco tempo e teve que ficar com os tios (pais de Henry) e os primos (Henry e a irmã caçula) enquanto o pai viajava a negócios para o Japão. De início, a visita parece agradável, Henry e Mark logo se tornam amigos e saem para brincar, já que têm a mesma idade. Contudo, a partir do terceiro dia de convivência, Mark começa a perceber indícios de desvios de caráter na personalidade de Henry e tem como missão defender os tios e a prima do que Henry poderia fazer contra eles. As atitudes de Mark são entendidas como estranhas para a família, que começa a preocupar-se com a sanidade do garoto, sem desconfiar de que o sereno e calmo Henry era quem estava, verdadeiramente, agindo de forma incoerente.

“A maldade tem muitas faces”

O desenrolar do filme é um espetáculo a parte que, infelizmente, para não cair no pecado do spoiler, não poderei comentar nessa postagem. Mas recomendo ardentemente, quantas vezes forem necessárias: vejam! Mencionei anteriormente a coragem do roteirista Ian McEwan com essa proposta e aqui dou dois argumentos para isso: a maldade em si já é um assunto delicado e um tanto movediço; quando unimos a isso uma figura infantil, a qual geralmente atribuímos a pureza, esperança e os bons valores, nos deparamos com um produto que pode parecer impróprio ou ofensivo para as mentes mais fechadas. A ideia de que a morte pode partir da mente fria de uma criança de doze anos é quase inaceitável, e talvez, por isso, embora bem aceito pela crítica, o filme não tenha recebido toda a atenção de público que merecia. O roteiro é tão intrigante e envolvente que não abre muita possibilidade para atentarmos aos aspectos técnicos. Mas, ainda assim, eu tentei.

Trata-se de uma produção pequena, o elenco é reduzido e, por alguns motivos, me lembrou bastante, salvas as proporções, a obra de Stanley Kubrick, O Iluminado. Enumero algumas características que me permitem a comparação: ambos os filmes têm cenas de tensão, embora O Iluminado mais que O Anjo Malvado, e se passam num contexto familiar; os dois se tornam um pouco claustrofóbicos, pois o desenrolar acontece em um local isolado, em que os protagonistas estão, de certa forma, presos e sem possibilidade de escapatória (novamente, esse elemento é mais intensificado na obra de Kubrick que na de Ruben); a trilha sonora para pontuar os momentos de suspense também assemelha-se nos dois filmes; mas, talvez, a característica que mais se aproxima é a insanidade dos dois protagonistas (reafirmo, salvas as proporções), a ponto de fazer-lhes cometer atrocidades contra os membros das suas famílias.

O desfecho do filme é sensacional, colocando em cheque valores, escolhas, sentimentos e situações que envolvem muito mais que a ficção, mas que fazem indagar a nós mesmo o que faríamos na mesma situação. Apesar de curto (menos de 1h30 de duração), O Anjo Malvado é uma obra espetacular, que merece atenção, análise, e quanta reflexão for possível. É daqueles filmes que retratam a realidade que recusamos a acreditar que existe, e que sempre existirá, e isso é o que faz dele, em seu aniversário de duas décadas, parecer ainda tão atual.

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Andressa Carvalho
Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).
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Andressa Carvalho

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).

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Respostas de 4

  1. Boa crítica, bom filme, temática diferente e polêmica… Mas achei o desfecho no penhasco um pouco absurdo, a não ser que aquela personagem tivesse os poderes do Homem-Aranha… Nesse ponto podiam ter feito a coisa um pouco mais realista. É de se lamentar o péssimo título nacional. Muitos pais devem ter alugado a fita para os filhos, pensando tratar-se de um filme para crianças (desconfio que essa era a intenção da distribuidora). Malvado é um termo bastante infantil.
    P.S.: Pode acreditar, já passou na sessão da tarde.

    1. Olá, leitor!
      Também achei o título brasileiro deveras ruim. Mas convenhamos que alguns títulos em português, se traduzidos ao pé da letra, também não pegam bem. É o caso de “O Bom Filho”, mesmo sem gostar de “O Anjo Malvado”, ainda prefiro esse. Quanto ao desfecho, eu realmente gostei, mas confesso que de fato a escalada da mãe do Kevin é um pouco absurda, tanto que a câmera mostra ela lá embaixo e logo em seguida já tá lá em cima, porque não tinha mesmo muitas possibilidades de escalar aquele penhasco sozinha rs Fora isso, gostei do todo.

  2. É estranho dizer que é um bom filme, já que fala da maldade, mas é um bom filme. Eu vi no cinema e ficou somente 1 semana, se não tivesse ido ver no inicio, não veria mais. Parece que quando perceberam do que se tratava o filme retiraram de circulação. Como você disse, muita coragem terem feito tal filme, ainda bem que tiveram. Tenho memória ruim e este filme não esqueço. A história é tão boa que se o final tinha algum absurdo na filmagem, esses não conseguem nem ser vistos dada tensão do momento. Tu abriria que mão?

  3. Detalhe, quem achar a história do filme um absurdo e só lembrar dos últimos eventos em SP, daquele garoto que matou a família. Será que ele viu o filme?

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