Preso na Escuridão: Os tempos se confundem

Com o título original Abre los ojos, Preso na escuridão (também intitulado De olhos abertos em Portugal) é um filme hispano-franco-italiano, dirigido por Alejandro Amenábar e lançado em 1997, servindo de inspiração para “O brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) e, mais diretamente, “Vanilla Sky” (2001). Conta a história de César (Eduardo Noriega), um jovem órfão que herdou toda a fortuna dos pais e se tornou milionário. Bonito, sem problemas financeiros nem preocupações, César nunca aceitava ser visto com a mesma mulher mais de uma vez, sendo um exemplo de conquistador, mas essa fama logo desmorona quando ele conhece a doce e sensível Sofía (Penelope Cruz) por meio do seu melhor amigo, Pelayo (Fele Martinez), ficando irremediavelmente apaixonado pela atriz.

Como todo bom romance, havia empecilhos: a ex-namorada do galanteador, Nuria (Najwa Nimri), não se conformava em ter sido abandonada pelo rapaz e, cega de ciúmes e loucura, consegue convencer César para apenas mais uma noite juntos, mas acaba se matando e deixando o rosto do amado completamente desfigurado. O acidente de carro deforma não só o rosto de César, mas também sua mente, fazendo com que tivesse muita dificuldade em diferenciar o que é real e o que está imaginando em sua vida, o que o faz acabar na prisão.

Sofía e César, na mesma noite em que se conheceram.

O trabalho de Amenábar em relação a esse filme foi, sem exageros, incrível. Estamos falando de um roteiro futurista, que geralmente é visto como algo frio, inumano e automático, mas com um forte apelo psicológico, fazendo com que o espectador se coloque no lugar do personagem quando o filme mostra toda a angústia, medo e raiva que César despeja sobre os médicos por não conseguir reaver seu rosto… O cinza ganhando violentas cores de emoção. A futilidade e materialismo envolta da condição social do rapaz se destrói quando o que ele mais deseja na vida é ser amado por Sofía. Infelizmente a sanidade se degenera com os outros elementos e Nuria, mesmo morta, está sempre na mente de César por causa do trauma do acidente. Isso faz com que o rapaz veja o rosto da ex namorada em Sofía e em tudo que é dela, causando desastres irreparáveis.

Nuria, lunática, apaixonada, suicida, assassina e linda

Outro ponto que merece atenção é a máscara de César. Sem poder ter seu rosto de volta, os médicos oferecem uma máscara para que ele use e se incomode menos com sua aparência, mas a cada cicatriz que a máscara escondia, os rasgos de sua mente lacerada eram expostos. O ponto alto dessa dualidade é retratada de maneira genial e melancólica quando o rapaz está em uma boate e, muito embriagado, põe sua máscara na parte de trás da cabeça. As luzes da boate faziam com que apenas a silhueta de César pudesse ser vista, e a câmera, girando lentamente ao redor dele, mostra uma cabeça com dois rostos, um que não passava de uma lembrança e outro que ele tanto rejeitava. O estranho é que a sensação de estarmos vendo algo monstruoso só ocorre quando o rapaz usa a máscara… Sem ela, ele é mais humano.

Uma das cenas mais marcantes do filme

Sendo o roteiro o ponto forte do filme, os demais elementos acabam ficando em segundo plano. As atuações de Penelope Cruz e Eduardo Noriega são boas sim, mas pode-se perceber cenas um tanto teatrais, como algumas em que o protagonista demonstra sua ira, na risada de Penelope e também quando a personagem de Najwa Nimri está convencendo César a entrar no carro, mas essa pode ser uma característica do cinema nos anos 90. A direção de fotografia fez um bom trabalho, como se pode ver a partir da comentada cena de César com duas faces, da cidade vazia no começo do filme, do leve e doce erotismo da personagem de Penelope nua e dos enfoques assustadores à máscara de César, mas poderiam ter pensado em algo mais elaborado em relação às cenas em que César está no topo do prédio, como ter deixado o céu com mais cores, por exemplo. Era uma cena profunda e complexa, o ambiente em que se encontravam poderia refletir isso.

Feito para se assistir mais de uma vez, Preso na escuridão é repleto de mensagens de valores em suas entrelinhas e cheio de reviravoltas que prendem o espectador ao filme, sendo também duramente intimista. Ao assisti-lo, nos perguntamos sobre a importância das pessoas ao nosso redor e ao tempo que dedicamos a elas, além de criar reflexões a respeito do que devemos fazer com a nossa vida e quais valores devemos cultivar. Um filme que mostra o quão reais são lembranças, mesmo sem serem físicas.

César em busca da verdade

Compartilhe

Clara Monteiro
Estudante de Enfermagem que se mete em letras, músicas e desenhos. Segue a filosofia de que a vida é muito curta para gastá-la com preocupações. Dificilmente algo conseguirá surpreendê-la. Lê tudo, assiste tudo, vê o lado bom de tudo. É editora deste site.
Picture of Clara Monteiro

Clara Monteiro

Estudante de Enfermagem que se mete em letras, músicas e desenhos. Segue a filosofia de que a vida é muito curta para gastá-la com preocupações. Dificilmente algo conseguirá surpreendê-la. Lê tudo, assiste tudo, vê o lado bom de tudo. É editora deste site.

Postagens Relacionadas

f4819caa3eebf26f8534e1f4d7e196bc-scaled
"Imperdoável" tem atuações marcantes e impacta com plot twist
Se um dia Sandra Bullock já ganhou o Framboesa de Ouro, após “Imperdoável” (Netflix, 2021),...
1_4XtOpvPpxcMjIoKGkUsOIA
Cobra Kai: nostalgia ao cinema dos anos 80
A saga Karatê Kid se tornou um marco memorável aos cinemas durante os anos 80. A série de filmes conta...

Deixe uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Pagu
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.