Sobre as Kengas e o único dia do ano em que ser diferente é permitido

No último domingo de Carnaval tive a grata satisfação de acompanhar pela primeira vez o Desfile das Kengas, no Centro Histórico de Natal. O evento foi precedido por show contagiante da talentosa Larissa Costa e seguido de apresentação épica do “padrinho” das Kengas, Sidney Magal.

Sem discursos políticos e com protagonismo das Kengas, o evento é regado a alegria, brilho e irreverência marcantes. Quase cinquenta Kengas desfilaram sob a narração impecável das clássicas Jarita Night And Day e Divina Shakira. No palco, não apenas drag queens e homens gays travestidos, mas mulheres transsexuais e alguns homens aparentemente heterossexuais que entram na brincadeira e se tornam Kengas, em uma homenagem anual à diversidade e à alegria de ser quem se quer ser. Fora dos palcos, também é comum ver homens vestidos de mulheres, corroborando para a homenagem.

Em meio àquela icônica demonstração de respeito às diferenças, em dado momento senti-me como em uma distopia. Minha mente começou a buscar referências que explicassem de forma mais racional o momento, e lembrei-me de um filme de pouca qualidade cinematográfica, mas de roteiro curioso, ao qual tive a oportunidade de conferir na Netflix há uns bons anos. Chama-se “The Purge”, em tradução ruim para o público brasileiro, “Uma Noite de Crime”.

O filme narra um cenário de uma sociedade perfeita e regrada, com baixa taxa de criminalidade, mas que, para atingir o feito, precisou “expiar” todas as suas falhas em uma única noite no ano, na qual, durante 12 horas, todos podem fazem o que querem, inclusive cometer os mais perversos crimes contra com quem quer que seja. Nem mesmo autoridades estão imunes aos acontecimentos da “noite da expiação”. Irônico que, para muitos, esse é o momento do ano mais esperado, em que podem fazer tudo o que sempre quiseram e pelo que passaram todo o ano aguardando, sob a máscara de bons cidadãos.

Não é justo comparar “The Purge” com a noite do Bloco das Kengas, visto que, enquanto uma concentra toda a ruindade acumulada pelos “cidadãos de bem”, a outra agrega a alegria, a tolerância e o respeito às diferenças, em demonstrações que, apenas uma vez no ano, são aceitas como normais e até mesmo aplaudidas efusivamente. A vaga semelhança está no fato de que, por uma noite apenas, as pessoas são livres para serem o que são, sem julgamentos, perante o consentimento de toda sociedade.

Em conversa com uma amiga mais carnavalesca há alguns meses, indaguei a ela qual a razão para tamanho gosto pela festa do Carnaval. Ela respondeu-se, de pronto: “Ninguém te julga nesses dias, você pode usar o que quiser, fazer o que quiser, as pessoas não te olham estranho”. Desde essa resposta, o Carnaval fez mais sentido para mim, não como demonstração cultural, como pregam as cartilhas educativas, mas como expressão da individualidade e do que ainda não é socialmente aceito.

Pergunto-me, pois, o que acontece, passado o período festivo do Carnaval, quando uma Kenga tenta frequentar um shopping, um restaurante, um supermercado, ou mesmo as ruas. A impressão é de que a receptividade não seja a mesma. Fica a reflexão para que o exercício de alegria e ausência de julgamentos que desenvolvemos no Carnaval perdure por todo o ano e possamos olhar com gentileza e sem preconceitos para todas as diferentças, todos os dias.


Obs: Tomei a liberdade de usar uma das belas imagens de Canindé Soares para ilustrar esse texto. Para conferir o álbum completo do fotógrafo, visite a sua página.

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Andressa Carvalho
Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).
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Andressa Carvalho

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).

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