A auspiciosa representatividade de Pantera Negra

Há tempos escrevi aqui para o site sobre intolerância no universo nerd, e naquele texto pude discorrer alguns exemplos sobre o que estava acontecendo na época, em âmbitos como o cinema e nos quadrinhos. E um ano e seis meses após esse texto, o cenário da comunidade nerd/geek teve seus altos e baixos em questão de aceitação de representatividades de minorias, e não foi nada diferente com o mais novo longa da Marvel, Pantera Negra.

O filme se passa logo após os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil. Após a morte do então rei de Wakanda, T’Chaka (John Kani), seu filho T’Challa (Chadwick Boseman) retorna à sua terra natal para o ritual de passagem e então assumir o trono. Logo quando assume a posição de rei de Wakanda, T’Challa precisa lidar com um antigo inimigo da nação, Ulysses Klaue (Andy Serkis) que continua foragido após roubar vibranium, o metal mais resistente do planeta.

Pantera Negra foi concebido a partir de ideologias, e é por isso que logo criamos empatia com o verdadeiro vilão do filme, Killmonger (Michael B. Jordan). Apesar de ser moralmente errado para alguns defender o vilão de um filme, dessa vez ficar do lado oposto pode até ser oportuno para quem tem uma visão mais extremista sobre tecnologias avançadas e armamentos, atributos esses que Wakanda possui aos montes, o que é claramente uma referência ao movimento negro em meados da década de 60, quando o conflito ideológico de Martin Luther King confrontava Malcom X. Recheado de alegorias políticas e cenas de ação bem executadas, temos em mãos o filme mais completo já produzido pela Marvel Studios, com tons de humor bem pontuados, trilha sonora e fotografia bem construídas, que transformam o roteiro numa película completa e bem aproveitada.

E é exatamente por esses pequenos detalhes que a metamorfose fílmica acontece no longa. O quesito técnico que chama mais atenção é a trilha sonora executada por Ludwig Göransson, também responsável por outras grandes trilhas como a de Creed: Nascido para Lutar (2015) e Corra! (2017). O espectador consegue sentir a percussão bem marcada em muitas passagens do longa, gerando diversas emoções, além de passagens de músicas de rap contando com nomes como Kendrick Lamar e The Weeknd, e que já estão disponíveis para escutar no Spotify.

Logo na cena de abertura do filme somos apresentados à cultura dos wakandianos e das tribos que compõem o país, além dos mitos que envolvem a figura do próprio Pantera Negra. Outra riqueza de detalhes com que a produção do filme se preocupou foi o dialeto próprio do lugar, além do fato dos atores vez ou outra falarem a língua local. As atuações do elenco principal e dos coadjuvantes que vão surgindo durante a trama também é de deixar cair o queixo, mas fica aqui a minha atenção para a personagem Okoye (Danai Gurira), comandante da guarda real, as Dora Milaje.

As Dora Milaje

Pantera Negra é um longa mais do que importante em tempos de crise política mundial e falta de representatividade negra em muitos espaços, pois qual personagem negro dentro do universo cinematográfico da Marvel teve seu devido espaço a ponto de uma criança se sentir representado em tela? É verdade que existem poucos heróis negros, e que também existem tantos outros que tiveram seus desenhos animados no passado, mas pensando no presente, o que nós temos? Falcão? Nick Fury? Luke Cage? Nenhum deles se compara à grandiosidade do que está sendo Pantera Negra.

Portanto, a Marvel acerta mais uma vez num momento mais que oportuno, trazendo um filme completo tanto em quesitos técnicos quanto de narrativa. Tratando de temas delicados com irreverência e respeitando os limites do próprio personagem, é uma história que leva em conta também um cenário pertinente nos EUA, significando que Pantera Negra chega para salvar e representar cada negro e negra de todas as partes da Terra. A obra é poderosa, e que outras histórias sejam contadas com o mesmo poder que esta. Uma dica: ver o filme legendado garante a possibilidade de conferir o trabalho de localização de sotaque de inglês africano, vale muito a pena! WAKANDA FOREVER!

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Vinícius Cerqueira
Jornalista em formação, fluente em baianês e musicalmente conduzido no dia a dia
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