A dor do holocausto dissecada em Memórias Secretas
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Sejam em escalas pessoais ou sociais, o homem precisa lidar com traumas. Muitos deles ferem de forma tão profunda que é impossível esquecê-los. É desenvolvendo o da Segunda Guerra Mundial que o egípcio Atom Egoyan dirige seu mais recente trabalho, onde disseca em ambas escalas uma das dores mais implacáveis da humanidade: o nazismo.

Memórias Secretas (Remember, 2015) acompanha Zev Guttman (Christopher Plummer), judeu sobrevivente de Auschwitz que, aos 90 anos de idade, vive numa casa de repouso devido a algum tipo de demência. Após a morte de sua esposa, decide cumprir a promessa feita ao também judeu e amigo Max Rosenbaum (Martin Landau) de se vingar do nazista responsável por matar suas famílias.

Escrito por Benjamin August, o roteiro consegue se destacar bem, mesmo contendo escolhas questionáveis. Algumas situações se mostram forçadas, como a dificuldade em rastrear Zev, mesmo que este entre e saia de cidades pelos E.U.A. (onde existe um controle para esse tipo de fluxo) e realize compras em seu cartão de crédito. Quando sua localização não é mais um mistério, fica a sensação de informação perdida na montagem.

Já positivamente, o texto consegue criar momentos que trabalham o peso do passado castigado pela Guerra. A cena no hospital onde acontece um diálogo com um paciente é muito tocante. Além disso, a demência sofrida pelo protagonista é um artifício muito bem utilizado por Plummer.

Aos 86 anos, o ator se entrega ao papel de forma convincente e carismática, dando total credibilidade às ações e reviravoltas. Sua postura é essencial para carregar todo o teor psicológico que a trama pede, como quando usa de uma necessidade física para demonstrar o medo por reviver seu trauma de forma tão concreta.

Christopher Plummer entrega mais uma atuação tocante

Christopher Plummer entrega mais uma atuação tocante

Ao lado do ator canadense, Egoyan é destaque dessa película que seria bem menos atrativa sem sua atuação. Costumeiramente com a mão pesada para o drama, o diretor aqui dosa as passagens mais emotivas, mas não as abandona. Sua linguagem fílmica em determinada sequência evoca todo o pavor do holocausto através de elementos mais subjetivos como o latido feroz de um cachorro, sons de dinamites explodindo numa obra próxima e sirenes que tocam para determinar o fim do expediente na construção.

O requinte técnico é mais uma vez evidenciado ao término da produção. Se em dois terços da projeção a fotografia usa tons mais neutros e, sutilmente, sem brilho, o clímax acontece, não por acaso, no local mais aconchegante dentre os vistos em tela. A presença de luz numa linda construção em madeira, num ambiente rodeado de árvores, entrega uma tranquilizante atmosfera de lar, harmonioso e agradável. Justamente ali temos nosso momento mais tenso e nervoso.

Memórias Secretas é mais um daqueles filmes pequenos cujas qualidades sobressaem às falhas e nos tocam de forma honesta e humana. Consegue tratar de um assunto tão dolorido em escalas pessoais e sociais, mesmo priorizando a primeira. Prova que talento e competência são capazes de produzir filmes bons, mesmo não sendo perfeito.

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