À Espera dos Bárbaros, de J.M. Coetzee: quem são os bárbaros?

Primeiro eu consigo mentiras, entende – é isso que acontece -, primeiro mentiras, depois pressão, depois mais mentiras, depois mais pressão, depois a quebra, depois mais pressão, depois a verdade. É assim que se consegue a verdade.
A dor é a verdade; tudo o mais está sujeito a dúvida. É isso que concluo de minha conversa com o coronel Joll.

Em À Espera dos Bárbaros (título que remonta ao poema “Waiting for the barbarians”, de Konstantino Kaváfis) um administrador de uma cidadela, o “Magistrado”, leva uma vida quase pacata nas fronteiras de um Império não nomeado, até que uma expedição militar liderada por um Coronel Joll vem da capital deste Império para averiguar as possíveis investidas armadas dos nativos bárbaros na região da fronteira.

J.M. Coetze
J.M. Coetzee, autor de “À Espera dos Bárbaros”

Escrito pelo sul-africano J.M. Coetzee, ganhador do Nobel, À Espera dos Bárbaros toca principalmente em temas como a tortura e a neurose de guerra que acarreta ações desumanas. Apesar de se passar nesse Império fictício, com ares de Kafka, o romance é, como outros de Coetzee, uma crítica à situação do apartheid social e racial que a África do Sul vivia. A maestria do escritor faz com que seja um livro atemporal e que se aplique a várias situações que vemos.

barbarians coverNuma época em que impera o silêncio, incluindo o de escritores, quanto a situação de desumanidade na Faixa de Gaza, não penso num livro que melhor ofereça uma reflexão sobre tal crise do que À Espera dos Bárbaros, publicado originalmente em 1980.

Há o retrato de uma sociedade militarizada estabelecida numa região que possui seus habitantes nativos, chamados de “bárbaros”, que a cada faísca de possível movimentação destes gera-se o medo generalizado de um levante para expulsar o Império ali estabelecido. E diante desse medo generalizado, o horror da guerra brota. E esse ciclo de medo e guerra na fronteira não possui uma perspectiva de fim.

À Espera dos Bárbaros é um dos melhores romances de Coetzee, que tendo usado o apartheid sul-africano de sua época, oferece um cenário que é aparentemente inerente à condição humana. E na falta de um romance atual sobre esse tema da Faixa de Gaza, pode-se recorrer a um mais antigo, ainda atual e escrito pelo provável maior mestre vivo da prosa.