A Luneta do Tempo e o mito de Lampião nas telas
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Durante minha infância, perdi as contas de quantas vezes meu pai trouxe Baile Perfumado (1996) da locadora. Assim como a maioria dos conterrâneos pernambucanos, ele nutre um fascínio pelo mito criado em torno da figura de lampião e do cangaço.  Não me entenda mal, o mito no estilo Robin Hood de cangaceiro justiceiro valente que rouba dos ricos e dá aos pobres é cultivado em todos os estados do Nordeste brasileiro, porém com especial zelo no estado de nascimento de Lampião. E foi essa história que Alceu Valença usou como base para A luneta do tempo.

Nas primeiras cenas o sertão é mostrado em um efeito de película, remetendo a filme antigo para, assim, marcar os anos 30. A história inicialmente destaca a perseguição do Tenente Antero, interpretado por Servílio de Holanda (Abril Despedaçado, Sangue Azul), ao bando de cangaceiros de Lampião, interpretado  por Irandhir Santos (Tatuagem, A febre do Rato) e Hermila Guedes (Céu de Suely) no papel de Maria Bonita. Todos os diálogos do filme são construídos em cima de rima, estilo comum na literatura de Cordel que empresta à produção o seu tom.

O enredo começa a dar suas reviravoltas quando os caminhos do bando de cangaceiros se cruzam com os caminhos de um pequeno circo e, assim, este passa a ser o foco explorado, principalmente as relações entre a mulher do Tenente e o estrangeiro Nagib Mazola (Ceceu Valença, filho de Alceu). Assim como em Baile Perfumado, algumas cenas procuram mostrar o cotidiano dos cangaceiros, porém no filme dirigido por Alceu, essa rotina contrasta com a beleza do ambiente misturado ao romance, muito presente nas relações de vida e morte dentro do bando de Lampião.

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Dona Dodô (Ana Claudia Wanguestel), Mulher do Tenente e Nagib Mazola (Ceceu Valença) em cena dirigidos por Alceu Valença.

O segundo recorte temporal do filme começa cerca de 20 anos depois da morte de Lampião e foca em dois personagens diferentes: o primeiro é o “filho” do tenente (Charles Theony), criado com ideais hostis à menção do nome de Lampião, e o segundo é Severino Castilho (Tito Lívio), poeta de cordel fascinado pela história do “rei do cangaço” que bebe e devaneia sobre como seria a estadia de Lampião e Maria Bonita no Paraíso. A fotografia agora é um pouco diferente e mais clara do que a anterior, pontuando bem a separação de tempo entre os dois “atos”. Alceu Valença também aparece no filme como o personagem Velho Quiabo, já na fase decadente do circo Mazola.

O terceiro ato, que seria o “cordel” que Severino escreveu sobre Lampião no Paraíso, é solucionado com um pouco de eco nas vozes das personagens e uma imagem quase solar em volta das cenas, quase como um halo. É sem dúvida uma das partes mais interessantes do filme.

Luneta do Tempo tem muitos bons momentos em se tratando de resgate cultural e de fotografia e é uma estreia muito bem sucedida de Alceu Valença no mundo do cinema como diretor e roteirista. No entanto, alguns problemas podem deixar o filme com uma cara de sequência de videoclipes. Para começar, podemos apontar o excesso de músicas, que seriam mais enfáticas se viessem mais pontuais e não em sequência. Além disso, as músicas, junto com os fins de cena com longos fade outs, oferecem ao espectador a mesma impressão de uma playlist. Apesar disso, a qualidade musical do filme não é duvidosa, muito pelo contrário. Outro aspecto importante de destacar é a confusão que a profusão de personagens, sequências temporais e apego aos detalhes pode causar em quem assiste a obra; por isso é recomendado ter extrema atenção às cenas.

O filme está marcado para estrear dia 24 (quinta-feira) em Natal, exclusivamente no Cinépolis Natal Shopping.

Cantora Khrystal fala com O Chaplin sobre sua participação em “A Luneta do Tempo”

Os cangaceiros Nair (Khrystal) e Severino Brilhante (Evair Bahia)

Os cangaceiros Nair (Khrystal) e Severino Brilhante (Evair Bahia)

Temos também um destaque potiguar no elenco do filme. A cantora Khrystal interpreta Nair, a esposa de Severino Brilhante, braço direito de Lampião no bando de cangaceiros. É o primeiro trabalho da cantora como atriz. Ela conta que foi convencida por Alceu Valença a aceitar o papel pela sua performance nos palcos como cantora. Para esse desafio, Khrystal atuou junto com o preparador de elenco do filme Bruno Santos (Felizes para sempre?), que a ajudou a acessar a carga emocional necessária para a construção do personagem, essencial para o desenrolar da trama. “Tinha horas que eu estava muito cansada e não conseguia mais chorar, lá ia eu aprender novos recursos de como trazer essa emoção de volta, servir pro que Alceu tava precisando ali. Nunca imaginava que ia rolar uma parada assim tão linda na minha vida. E cinema é uma arte que eu consumo, que eu gosto muito e agora me sentir inserida dentro deste universo, é um negócio que é muito louco, é muito massa!”, conta.

O CHAPLIN – Pretende seguir carreira de atriz?

“Eu acho que meu negócio é cantar…é…”

O CHAPLIN – Você é Nordestina e fez parte de um filme completamente nordestino e que exalta o Nordeste. O que você sente, o que foi que você sentiu com essa representatividade?

“Ah, eu sinto muita vontade de chorar, eu fico muito emocionada porque a estética do Nordeste sempre foi muito mal vista, né? Pros próprios potiguares assumirem seus sotaques é uma coisa que gera risadinha, piadinha e todos os “inhas” não bem vindos. Acho F*da, acho necessário, acho que tem a ver. A gente se assumir, a gente ser o que a gente é, vamos deixar de ‘ser afetado’, mermão! Vamos gostar de ser nordestino, gostar do nosso jeito. Oxente, que viagem é essa que toda hora você tem que tá ‘mamando na teta alheia’ que é linda, mas que não é minha teta?! Então, eu acho que é esse o grito que A Luneta do Tempo dá. Vamos aceitar, vamos sacar que a nossa história passa por aqui, que existem muitos de nós que compõem a nação brasileira, que são nordestinos, muitos deles que ajudaram a levantar esse país! Eu sou só orgulho dessa parada (risos).”

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