No próximo dia 12, será lançando em Campina Grande, às 20h no Virtrola, o segundo livro de Bartolomeu Pereira – Caderno de planos e voos (2014). Já em Ruas de Sal (2013), sua poesia me fisgou pela experimentação e pela simplicidade. Nesse novo volume, a admiração só se consolidou. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual da Paraíba, Bartolomeu, filho de Malta, Sertão da Paraíba, é jovem e escreve uma poesia contemporânea, uma poesia sem certezas. Ele se debruça sobre seu mundo, não com o ranço regionalista e provinciano que ainda marca boa parte de nossa produção cultural, mas observando seu próprio cotidiano, as coisas simples, a passagem do tempo e a mistura de ‘tempos’, que forma um mundo não uniforme, em que presente e passado caminham juntos.

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Assim, a figura do avô e do sagui coxo Poucaperna aparecem como reminiscências de um passado que faz parte do presente como memória boa, memória gostosa de ser lembrada. Como bem disse o também poeta Astier Basílio, na apresentação do livro, o olhar de Bartolomeu se volta para as suas miudezas e sua poesia é construída a partir disso; a partir da trivialidade da vida:

Bem, foi assim, quando era moleque tinha um sagui coxo, Poucaperna. Poucaperna me acompanhava nas brincadeiras quando não ficava dependurado, Coqueiro Goiabeira, Goiabeira Coqueiro. Um dia Poucaerna morreu. Os pirralhos decretaram luto e por tempo indefinido cancelaram os torneios de futebol de botão. Minha mãe disse que ele foi pra terra dos saguis coxos. O silêncio do meu avô Barros desdizia.

Bartolomeu Pereira

Bartolomeu Pereira

Os versos do primeiro poema também reforçam a simplicidade e beleza de sua escrita: Os seres do alto duram o tempo exato/de suas plumas. Talvez, os seres do alto se cansem; as “asas cansadas” podem simplesmente não mais saber o que fazer, perdidas em possibilidades de um mundo, que oscila entre o passado e o presente.

Em um segundo momento do livro, o poeta volta seu olhar para si. Não que trate de si mesmo em suas composições, mas foca nas aspirações, nas impossibilidades de uma subjetividade de coluna partida, como diz Bartolomeu. Essa imagem remete diretamente ao quadro de Frida Kahlo, ‘La columna rota’. Essa subjetividade é um “peixinho de pedra solto na terra”, deslocada e perdida, em um mundo pós-moderno, em que saber onde se vai, ter certeza, é coisa do passado. Nesse contexto, como lembra Rafaella Teotônio, a literatura pode representar saúde, pode curar o tédio. E, assim, dotar a asa cansada novamente da possibilidade do voo, transformando a janela para a lua em serventia da casa, como disse o poeta.

Enfatizo, ainda, que a poesia de Bartolomeu se associa a uma tradição literária. É impossível lê-lo e não perceber conexões com a poesia de Carlos Drummond de Andrade, com Oswald de Andrade, com Fernando Pessoa. Desse modo, seu “Caderno de planos e voos” ecoa o melhor da poesia em língua portuguesa.

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