“Não Aceitamos Devoluções” e o pedantismo da crítica especializada

Há uns meses, no Cinépolis Natal Shopping, cinema que geralmente frequento, vi um trailer que me chamou atenção. Nenhuma produtora famosa era divulgada. Os atores escalados também não me pareciam populares. E não foi preciso muito tempo para identificar que se tratava de um filme bilíngue, falado em espanhol e inglês. De cara, interessei-me. Um filme que caminhava na contramão das grandes produções hollywoodianas e que também não levava o rótulo da Globo Filmes, conseguindo espaço nas salas comerciais brasileiras, merecia no mínimo a minha curiosidade.

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“Não aceitamos devoluções” é dirigido por Eugenio Derbez, que também atua no filme

Infelizmente, quando a produção mexicana “Não Aceitamos Devoluções”, dirigida por Eugenio Derbez, aportou em apenas uma das mais de vinte salas de cinema de Natal por duas semanas, nenhum dos horários sugeridos me foi propício para conferir o filme.  Na segunda semana, apenas uma sessão diária, no meio da tarde, era oferecida. Perdi a esperança de assistir à obra na telona, mas a curiosidade insistiu. Apenas recentemente consegui ter acesso ao filme. A única decepção foi a de não tê-lo conseguido assistir antes na telona.

no_se_aceptan_devoluciones_653Não nutro o hábito de procurar críticas antes ou mesmo depois de ver um filme. Tenho o pressentimento de que o meu texto perderá parte de sua honestidade se antes de escrevê-lo eu tiver contato com as opiniões e observações de outros. Mas nesse caso em específico fiquei interessada em saber como havia sido a recepção do filme mexicano mundo afora – se havia realmente obtido a mesma repercussão que eu julgava merecida.

Vamos primeiro aos méritos comerciais: o filme que marca a estreia de Derbez na direção de um longa-metragem para cinema contou com um orçamento simplório de cinco milhões de dólares. Apesar disso, foi visto por mais de 18 milhões de pessoas apenas no México, e se tornou o filme falado em espanhol (embora não totalmente) mais visto nos cinemas americanos. A comédia chegou muito perto de arrebatar a marca dos 100 milhões de dólares de arrecadação.  Apesar disso, lendo críticas, encontro adjetivos como “melodramático”, “pastelão” e “indefinido” para definir a obra. A crítica mais carregada de preconceitos a que tive acesso veio da consagrada Folha de S. Paulo. Reproduzo um trecho abaixo:

A globalização do cinema é uma realidade. Agora, qualquer um, em qualquer lugar, pode fazer filmes tão ruins quanto os de Hollywood. Veja o caso de “Não Aceitamos Devoluções”, comédia dirigida e interpretada por Eugenio Derbez: é uma produção mexicana, mas tem a mesma falta de graça, piadas recicladas e clichês cômicos de dezenas de filmes dos EUA. (André Barcinski)

Houve também quem relacionasse o filme a uma das obras de Charlie Chaplin, e, acreditem, a crítica não foi positiva. Dito isto, me pergunto se o próprio Chaplin teria o mesmo prestígio se vivesse nos dias de hoje e fosse alvo da crítica especializada (e mal-amada) contemporânea.

A pequena Loreto Peralta é o grande destaque do filme
A pequena Loreto Peralta é o grande destaque do filme

No frigir dos ovos, acredito que há um preconceito geral do corpo crítico com as comédias, que as reloca para um patamar de “sub-cinema” ao passo que apenas dramas intensos e filmes intrigantes podem ser considerados verdadeiras obras de arte. Eu sou da trupe que acredita no valor da risada e que, quando em boa forma, os filmes que as provocam podem ser tão marcantes quanto as mais intensas películas neo-realistas. Vide “A Vida é Bela”, que rendeu a Roberto Benigni sete indicações e três vitórias na premiação do Oscar de 1999.

Obviamente não se pode dizer que “Não Aceitamos Devoluções” seja um filme tipicamente latino-americano. A começar pelo idioma. O inglês predomina em grande parte do tempo e a maioria das cenas remetem a um cenário norte-americano. É perceptível o esforço para tornar o filme uma produção sincrética, que dialogue com o público mundial – seguindo certos padrões impostos por Hollywood – a exemplo das produções brasileiras à la Globo Filmes pensadas enquanto produto para gringo ver. A diferença no filme de Derbez é que existe uma certa sensibilidade que cativa e causa identificação. E – atirem-me pedras, xiitas puritanos! – seria mesmo assim tão impossível unir uma visão comercial a uma produção sensível, de bom gosto e que cumpra a sua função enquanto cinema? Para mim, “Não Aceitamos Devoluções” é a prova de que não.

Eugenio e Loreto em imagem de divulgação do filme
Eugenio e Loreto em imagem de divulgação do filme

Acredito que a boa recepção do filme pelo público surpreendeu até mesmo os envolvidos no projeto. Afinal, não é todo diretor estreante, com uma atriz mirim inexperiente, um roteiro de comédia simplório e orçamento apertado que consegue os méritos alcançados por “Não Aceitamos Devoluções”. Contudo, o versado Eugenio Derbez mostrou-se cuidadoso em sua direção, aplicando um ritmo agradável ao roteiro do filme. O humor predomina – e é bem verdade que em certo momentos exagera – mas é possível perceber doses de sensibilidade que contrastam e corroboram na medida certa para o desenrolar da obra.

Loreto e a atriz Jessica Lindsay (Julie)
Loreto e a atriz Jessica Lindsey (Julie)

Cito como destaque a atuação irretocável de Loreto Peralta. A garota mostrou presença e competência em seu primeiro trabalho como atriz, após ter chegado ao diretor devido a um “tweet” publicado por ele em sua rede social em 2012, antes do início das gravações do filme. Loreto também causa empatia, como não se render aos olhos brilhantes e ao sorriso iluminado do jovem talento de 10 anos? Escolha certeira que, unida à química com o protagonista Eugenio Derbez, garantiu o sucesso do filme.

A forma como o desfecho da obra é conduzido pode ser considerada genial e imprevisível, ou óbvia e exagerada – depende do estado de espírito do espectador e do quanto ele se permite envolver com a história de Valentin e Maggie, pai e filha que precisam aprender a conviver um com o outro, de forma inesperada, quando a mãe da menina a abandona, ainda bebê, na casa de Valentin, no México.

Jessica Lindsey (Julie) e Alessandra Rossado (Renée) compõem parte do elenco coadjuvante
Jessica Lindsey (Julie) e Alessandra Rossado (Renée) compõem parte do elenco coadjuvante

Obviamente, a obra não é perfeita e tem seus problemas (nada que alguns milhões a mais no orçamento não pudessem dar jeito). Derbez e Peralta carregam o filme nas costas e não são muito auxiliados por coadjuvantes pouco carismáticos. A atriz Jessica Lindsey, que interpreta Julie (mãe de Maggie), é um exemplo de apatia e pouca identificação com o público. É verdade também que alguns personagens são caricatos e desmoderados, mas essa foi uma característica que, particularmente, não me incomodou no contexto do filme, uma vez que não se mostrou excessiva.

“Não Aceitamos Devoluções” é um filme singelo. Sua grande vitória foi ter superado expectativas e conseguido respirar em um circuito que pouco dá chance para produções que fogem da hegemonia norte-americana. Um entretenimento que toca e emociona, cuja qualidade supera, em muito, boa parte das produções massivas que costumam lotar as salas de cinema dos circuitos comerciais. Cabe à crítica especializada estimular esses méritos em vez de desencorajá-los. Sobretudo quando sabemos que a mesma crítica faz questão de exaltar produções menos qualitativas e com mais “culhões”.