Animação japonesa, A viagem de Chihiro foi lançada em 2001 e dirigida por Hayao Miyazaki e Ryunosuke Kamiki, chegando a ultrapassar a bilheteria de Titanic nos cinemas japoneses, além de ganhar o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim e o Oscar de melhor animação.

O filme conta a história de Chihiro e seus pais que acabam de mudar de cidade, o que deixa a garota muito aborrecida, pois não queria mudar de vida tão radicalmente. Indo para a nova casa, o pai da menina decide ir por um atalho que não os leva à nova casa, mas sim a uma entrada vermelha e envelhecida que é guardada por uma estranha estátua coberta de musgo. Mesmo com o receio da filha, os pais decidem atravessar esse túnel e se dão conta que estão em um lindo parque temático, mas agora melancólico por estar aparentemente deserto… Famintos, os pais decidem comer as enormes e suculentas refeições que estavam em um dos restaurantes do parque mesmo sem encontrarem sequer o dono do estabelecimento, enquanto Chihiro decide explorar o ambiente. A menina encontra um garoto chamado Haku que imediatamente a  manda sair do parque o mais rápido possível. A essa altura, os pais da menina foram transformados em porcos e o parque se revela ser um antro de seres fantásticos e espíritos, colocando Chihiro numa aventura onde humanos não são bem vindos.

Os pais entrando no parque e Chihiro surtando

Esses japoneses, sempre nos surpreendendo… Mantendo traços dos tão famosos animes, ainda que de maneira mais delicada, A viagem de Chihiro é um filme fantasioso, mas também belo, misterioso, estranho e divertido. É interessante ver que os humanos são seres inaceitáveis em um lugar, que são ralé, inúteis, preguiçosos e possuem um cheiro repugnante, mas mais interessante ainda é ver que quem nos despreza é uma população que vai de fantasmas, passando por seres fantasiosos e chegando a animais que falam, o que pode ser associado à relação da natureza e o homem, tão destrutiva nos dias de hoje.

Merece atenção também a transformação da personalidade da personagem principal do longa. Chihiro entra no parque nos lembrando uma criança birrenta e irritante, mas ao perceber que duas das pessoas mais importantes de sua vida foram transformadas em enormes porcos que corriam o risco de a qualquer momento virarem bacon, não hesita: ouve os conselhos de Haku, consegue emprego na casa de banhos do parque, trabalha duro para conquistar a confiança da feiticeira que transformou seus pais, faz amigos que reconhecem as intenções e bondade da garota, se arrisca para salvar Haku e encontra um grande amor. Foi muito legal ver que a transformação de Chihiro não passou pelo clichê de mudar a fisionomia dela, mas apenas a personalidade, seu interior. O que é uma garota mimada passa a ser a mesma garota, mas madura e com muita fibra pra lutar pelo que quer.

Chihiro, já com o uniforme da casa de banhos  e desvendando os segredos do parque

Um detalhe bem curioso é que, mesmo com motivos para isso, Chihiro não tem medo de nenhuma das criaturas que ela conhece ao longo da trama, buscando sempre encontrar o lado bom em todo mundo que conhece. Um dos seres que mais chamam atenção é No-face, uma criatura cuja forma é variável como a água e que usa uma máscara. Chihiro o conhece quando ele está do lado de fora da casa de banhos e permite que ele entre, pois pensa que é um cliente. No-face entende o gesto como um ato de bondade e fica cativado, passando a procurar a menina, e então, se tornam amigos. Nessa busca, acaba revelando que também pode ser um monstro perigosíssimo, sendo domado apenas quando Chihiro o encontra, mas mais tarde, se despede da garota para se dedicar a outra pessoa, uma clara alusão à pessoas que estão desenvolvendo sua personalidade, e buscam alguém ou um grupo social que se pareçam com elas, mas tentam conquistar isso fornecendo conforto material e acabam cometendo deslizes catastróficos.

No-face tendo o paraíso que muita gente procura
Chihiro e No-face, já calmo

A viagem de Chihiro também foge do lugar comum por não ter um humano mudando o mundo que encontra, mas estando nesse mundo apenas para pegar o que te foi tomado e fugindo o mais rápido possível dali, conceito bem mais real que contrasta com o filme que está inserido, pois trata-se uma animação bastante fantasiosa. É um filme com um roteiro interessante, misturando comédia com temor, fantasia com rotina e que nos faz ver o mundo sob outra perspectiva, merecedor de todos os prêmios recebidos.

Chihiro e Haku, o romance relembrado

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