A arte, para alguns, é mera contemplação estética. Para outros, pode substituir o papel de fortaleza espiritual que, para muitos, é ocupado pela religião. Essa é a teoria defendida por um dos personagens do documentário “A vida não basta”, uma produção independente encantadora dirigida por Caio Tozzi e Pedro Ferrarini, com concepção e criação da Dois Ventos e produção da Vila Filmes.

O título pode parecer familiar para aqueles que têm afinidade com a obra do poeta Ferreira Gullar, cujo nome frequentemente é associado à sábia máxima “A arte existe porque a vida não basta”. Em “A Vida não Basta”, os diretores decompõem artistas reconhecidos em suas áreas de atuação. São entrevistados na obra a atriz Denise Fraga, o escritor Milton Hatoum, o estilista Ronaldo Fraga, o cantor e compositor Toquinho, a cineasta Laís Bodanzky, o dramaturgo Leonardo Moreira e os quadrinistas Gabriel Bá e Fábio Moon – além da participação indispensável do próprio Ferreira Gullar, que se torna personagem do filme inspirado por sua obra.

Denise Fraga é uma das artistas entrevistadas para o longa

A atriz Denise Fraga é uma das artistas entrevistadas para o longa

O que seria a arte se não uma forma de ver a vida? Sempre acreditei que a arte fosse a capacidade de ver além. Ou talvez, antes. Mas, indiscutivelmente, ver diferente. A arte é uma forma de vida cujo objetivo é inquietar-se. Ser artista é incomodar-se e, e permitir-se ser alfinetado. E se você for um pouco mais desassossegado, pode até chegar a inquietar outros no processo.

Cartaz de divulgação de "A Vida Não Basta"

Cartaz de divulgação de “A Vida Não Basta”

Há um pouco de Eduardo Coutinho na forma de fazer cinema de Tozzi e Ferrarini. Admito que esse foi o primeiro contato com a obra da dupla, mas fui surpreendida positivamente. É raro um filme do gênero documentário que tenha um ritmo envolvente e que provoque interesse no público espectador tão acostumado aos filmes que têm espaço nas salas comerciais brasileiras, ainda mais quando se tratam de assuntos tão subjetivos, como é o caso de “A vida não basta”. Mas os diretores aliaram à competência, sensibilidade e excelentes escolhas: desde os personagens selecionados – abrangendo diversas áreas artísticas, até mesmo as que mais sofrem preconceito, como o caso dos quadrinhos, representados pelos irmãos Bá e Moon – até a seleção de cenas para a montagem e a organização das imagens. Um trabalho de percepção cinematográfica admirável.

Apenas um aspecto do filme me incomodou negativamente. Ao contrário do método de Coutinho, os diretores de “A vida não basta” pareceram seguir um mesmo roteiro de perguntas para todos os entrevistados, o que é bom – até certo momento. Em alguns instantes, fica a impressão de que o personagem não tinha muito a contribuir para uma temática específica. Mas isso foi uma impressão particular e que, no conjunto da obra, em nada interfere na qualidade do produto final – um filme honesto, simples, com muito mais conteúdo que aparato técnico, é verdade, mas belo em sua essência. “A vida não basta” é uma daquelas obras que nos faz sair da sessão mudados. Ou, no mínimo, instigados à mudança. E não seria esse mesmo o papel da arte?

As exibições têm sido realizadas nos circuitos alternativos de diferentes cidades do Brasil. Em Natal, o filme foi exibido em julho pelo Cineclube Natal, ocasião na qual tive acesso a “A vida não basta”. Se você mora no Rio de Janeiro (estado aonde o documentário ainda será exibido) e ficou curioso pelo filme, vale a pena conferir o calendário de exibições no blog do projeto.

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