“A Vida Privada das Árvores”, de Alejandro Zambra: sobre relacionamentos e plantas

Em A Vida Privada das Árvores(Cosac Naify, 2013), o chileno Alejandro Zambra, provável jovem escritor mais elogiado da América Latina, retorna metodicamente à fórmula de Bonsai, seu livro anterior.

A narrativa objetiva, utilizando de metalinguagem, numa história breve(93 páginas). E, claro, o título das obras não são coincidência. Há de novo a metáfora da literatura como uma planta a ser cultivada e podada com zelo e paciência. Uma pequena, porém bela, planta.

O chileno Alejandro Zambra

Na trama, Julián espera, na companhia da enteada criança, o retorno da esposa Verónica, por toda a noite. Porém, o narrador avisa, “Quando ela voltar, o romance acaba. Mas enquanto não volta o livro continua. O livro segue em frente até ela voltar ou até Julián ter certeza de que ela não voltará mais“.

É um romance essencialmente notívago. Enquanto espera, recusando o sono, Julián revisita memórias turbulentas, devaneia longe sobre o futuro e dialoga com o leitor sobre o romance. O estilo de Zambra é bastante peculiar, e talvez se encaixe no rótulo de escritor de escritores, por construir uma prosa sobre a literatura em si, mas até aqui pode se afirmar que vem solidificando uma carreira bem coerente, na palavra que deseja passar.

"A Vida Privada das Árvores"

Seria preciso redigir muitos parágrafos, talvez um livro inteiro, para explicar por que Julián não passou aquele tempo na casa dos pais. Basta dizer, por ora, que na época Julián brincava que não tinha família“. Aqui uma amostra da metalinguagem enxuta do escritor.

Mas, além disso, também temos no livro uma trama sobre relacionamentos. Reflexões sobre, nos devaneios que adentram a madrugada e lembranças de um passado melancólico, “apartamentos exíguos, meias-verdades, frases de amor automáticas, covardias, fanatismos, ilusões perdidas e depois recuperadas – as bruscas mudanças de destino dos que sobem e descem e não partem nem ficam“.

Confesso que comprei o livro depois de tanto ler e ouvir elogios ao autor. É, de fato, um bom romance. Mas não é de agradar qualquer leitor o estilo de Alejandro Zambra. Exige a atenção aos detalhes como quem cuida de um Bonsai, como que numa metáfora de quem constrói um relacionamento aos poucos, como um escritor que escreve livros sobre plantas e relacionamentos.