Adiós Terça Insana!

“Uma obra de arte só é autentica quando a pessoa que aprecia não pode imaginar outra coisa a não ser aquilo que aprecia”

Leon Tolstoi

Durante a apresentação do Terça Insana, na última sexta-feira, 28, no Teatro Riachuelo, eu pensei nas minhas contas, no dinheiro que ando devendo a minha mãe, nos trabalhos que tenho pra fazer, e o pior, na bagunça que deixei em cima da cama quando me arrumava pra chegar a tempo no espetáculo. É horrível me expressar assim abertamente, mas foi o que aconteceu.

Investir tantas expectativas nesse espetáculo do qual saí triste, me sentindo um traidor por ter saído no meio da peça. Mas eu precisava. Sei me retirar quando minha presença não se adapta ao ambiente. Por ter visto tantas vezes os vídeos no YouTube, não sobrou graça, o humor era conhecido, eu já conhecia as piadas. Será que foi isso?

Uma breve introdução sobre o começo sou eu me endireitando na cadeira para receber o espetáculo da melhor forma, me preparando para gargalhar e voltar para casa com a barriga doendo de tanto abdominal cômico. As luzes se acenderam, o ator apareceu representando a presidente Dilma, sorri todo o tempo em que ele permaneceu em cena e depois o riso sumiu. Fui ficando apavorado, me questionando se eu estava bem, se tudo estava em seu devido lugar. Daí me veio a fatura do cartão do mês que vem; os trabalhos que preciso entregar; o que eu ia comer quando chegasse em casa; a toalha que deixei molhada em cima da cama…

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Ator que passa anos representando um mesmo personagem precisa manter o trabalho que existia desde o inicio quando tudo era apenas uma ideia. Criar, reinventar a mesma coisa, experimentar outras formas de dizer o mesmo texto todas as noites, dar vida à cena. Fiquei com a impressão de que os atores não sabiam mais como dar vida ao humor do texto. Além daquelas clássicas sacadas de satirizar os lugares da cidade ou os políticos do Estado, tudo era muito estereotipado, engessado. Lembrei do programa A Praça É Nossa do SBT. Já deu o que tinha que dar.

Admiro e sempre vou admirar o trabalho do Terça Insana, mas seu bom humor de uma época incrível anos atrás ficou registrado em vídeos. Época que infelizmente eu não pude presenciar de perto e me deleitar com quando os personagens possuíam uma energia extraordinária. O grupo possui anos de estrada e continuar no mesmo processo de repetição já não é saudável quando não existe irreverência. Talvez seja por isso que próximo ano, eles vão fechar pra balanço e se balançar por dentro, experimentando novas formas. Assim como fico pensando se os atores estavam bem. Isso também pode influenciar na energia do espetáculo.

Quando me levantei para ir embora, mais pessoas se levantaram também, amaldiçoei cada uma. Estavam só esperando alguém tomar coragem. Não sou desses que se ausentam nem para ir ao banheiro, mas a sensação de não ter estabelecido algum contato com o trabalho foi horrível. Enquanto uns riam de morrer, eu morria de vergonha de mim.

Deixo um recado para meus parceiros de profissão que entendem melhor do que eu o oficio de ser ator nesse país. Primeiramente, peço desculpas por ter ido embora, sinto o peso da falta de respeito dessa atitude. Admiro vocês, sou fã, mas não consegui transformar minha sexta-feira-black-friday em uma terça insana propícia ao trabalho de vocês.

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