Caro leitor. Tudo bom? Suponhamos que eu o convide para integrar a equipe de um filme. Não vamos pensar grande no momento, um curta. Ainda no campo das suposições, digamos que eu o(a) chame para ocupar o cargo de Platô. O que você diria? Eu respondo: você diria “o que diabos faz um platô? Aliás, o que é um platô?”.

Eu explico: o platô é o sujeito responsável pelo bom andamento de parte de um set de filmagens, é ele quem isola as ruas para que as pessoas não passem e atrapalhem as gravações; quem pede silêncio aos moradores, por conta da sensível captação dos microfones; quem visita estabelecimentos para avisar do trabalho da equipe, etc. Em produções de baixo(íssimo) orçamento, o platô é meio que o coringa do set, e acumula funções que em produções maiores não seriam de sua alçada. Resumindo, em filmes com pouco dinheiro o platô é o “faz tudo”.

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O curta Platô!, do cineasta paraibano Kleyton Canuto, explora de forma muitíssimo bem humorada o ofício desta função e sua importância para a realização de um filme. A história centra-se na figura de Pablo Giorgio (que interpreta ele mesmo), um estudante de comunicação que nas horas vagas faz bicos como platô em produções cinematográficas. Usando uma estética que mistura documentário e ficção, o filme mescla depoimentos de profissionais da área de cinema, como diretores, produtores, fotógrafos e diretores de áudio, com situações fictícias – que não por isso quer dizer que sejam de mentira – vividas pelo protagonista. Há também a fala de ex-platores que ditam as agruras sofridas por quem exerce essa profissão.

As situações cômicas são diversas, e vão sendo narradas por Pablito (como é conhecido Pablo). Em um caso, ele é esquecido pela equipe, que vai embora em uma van e o deixa para trás; em outro, é perseguido por animais ferozes; ainda discute com moradores enfurecidos e toma várias broncas de outros membros “mais importantes”. São passagens que arrancam gargalhadas e ao mesmo tempo demonstram o quão ingrato pode ser o posto do platô.

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Pablo “Pablito” Giorgio, o Platô

A ideia de criar o curta surgiu quando o próprio Kleyton atuava na função em um curta-metragem, ainda em 2009. “Diante das queixas da equipe e toda a tensão e uma série de situações inusitadas, veio à cabeça de criar um curta que registrasse esse outro lado do cinema, esse lado de muita luta e sem glamour, que é a porta de entrada de muitos profissionais da área, como se fosse um batismo de sangue. É uma carga emocional muito grande desempenhar uma função como essa, requer maturidade, ‘ginga’, jogo de cintura, e a gente sofre muito. Daí quis valorizar, dar o seu devido valor. Mas não poderia fazer isso sem explicar o que é a função. Então a opção foi criar uma dinâmica de apresentação e didatismo. Mas fiquei com medo de ficar chato, daí optei por inserir situações cômicas simuladas”, discorre o diretor.

Davis Josino recentemente foi diretor de platores em uma grande produção, a gravação de um longa-metragem que ocorreu na Paraíba. Ele narra como foi a experiência em um grande set. “A função do platô numa grande produção se torna um trabalho bem complexo e desgastante. Mas, nem por isso, menos prazeroso que as demais funções. É como se fosse uma orquestra sinfônica, se um músico erra uma nota, o conjunto da obra não sai com a qualidade esperada.”. Ele ainda dá dicas de como um platô deve proceder, “A priori, uma equipe bem antenada e com um número suficiente de pessoas para cobrir as mais diversas atribuições e equipamentos necessários. Sempre tratar os moradores e transeuntes com muita educação e cordialidade para que os mesmos possam contribuir, e não, atrapalhar. Esses são os desafios a serem vencidos”, completou.

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O Platô Davis protege duas figurantes do forte sol, durante intervalo.

No entanto, nem só de amargura vivem os coitados. Um outro viés bastante interessante do filme de Canuto é que ele mostra o lado “negativo” de ser platô, mas também mostra a importância do posto para o cinema. A certa altura há um questionamento “Afinal, o platô faz cinema?”, e os entrevistados vão elencando que sim, o platô de fato faz cinema e é imprescindível para a realização de um filme.

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O diretor Kleyton Canuto

A comédia sobre a dura vida dos platores foi bem aceita nos festivais pelos quais passou, tendo arrastado diversos prêmios. “Para um primeiro trabalho enquanto diretor de curta, a recepção foi muito positiva. Ganhamos 16 prêmios em diversas categorias em quatro estados diferentes e participamos de diversos festivais. Alcançamos um bom público, e esse público se divertiu bastante”, disse o diretor do filme.

Pablo Giorgio reconhece a importância do filme para a sua carreira, foi o seu primeiro trabalho como ator, tendo ganhado até prêmio por isso. Pra mim foi vital ter o primeiro papel no cinema atuando em um personagem que eu vivi. Várias histórias do filme eu presenciei ao vivo”, contou rindo. E ainda brincou, “Platô melhorou minha compreensão do cinema e abriu portas pra mim, até pra ser platô de novo em outros filmes (risos)”.

Entre realizadores, Kleyton Canuto e Pablo Giorgio com seus prêmios, durante Festival de Cinema de Patos – PB

Platô é um curta que fala sobre um lado não muito conhecido do cinema, e trás isso para uma linguagem e entendimento muito popular, utilizando a comédia. Há também uma forte carga metalinguística. É um filme que fala de outros filmes, e ao mesmo tempo é real e ficcional.  Só assistindo pra saber, o que eu indico.

Platô está disponível no Youtube. Vê lá e depois me responde se aceitaria o meu convite.

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