Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald – Oh, boy.

Duas semanas inteiras depois de ter saído no cinema – desculpas pela demora – é seguro dizer que quem fez muita questão de assistir Os Crimes de Grindewald, novo filme do universo de Harry Potter, já o fez. E quem está na dúvida entre assistir ou não provavelmente encontrará alguma opção mais interessante no cinema. Ok, talvez no Netflix. Recomendo “A Balada de Buster Scruggs” dos irmãos Cohen.

Pode ser um pouco injusto falar que o filme é simplesmente ruim, mas ao mesmo tempo não dá para falar que o filme é bom. Com vários problemas de roteiro (assinado pela própria J.K Rowling, e se você não reconhece esse nome, por que está lendo isso?) a história é confusa e, embora tenha havido uma melhora no quesito vilão, eu realmente não sei o que o protagonista do filme está fazendo lá. Mas vamos por partes.

O filme começa desfazendo absolutamente tudo o que foi conquistado ao final do filme anterior. Grindewald foi preso? Agora ele está solto! E a caminho de Paris. Credence estava morto! E agora está vivo, e em Paris. Jacob teve sua memória apagada! E agora lembra de tudo e está em Londres, indo para Paris. Newt e Tina estavam juntos? Não mais! Newt está cuidando de seu zoológico particular em Londres e irá para Paris, onde está Tina, procurando… eu quero dizer o Credence? Talvez? Sim, acho que ela quer matá-lo ou salvá-lo, definitivamente um dos dois. Ok, todos, de alguma forma, vão terminar em Paris. Simplesmente esqueça o destino destes personagens que você mal lembra do primeiro filme, porque J. K. Rowling se colocou num beco sem saída e achou melhor desfazer tudo.  Por que Paris? Tudo será explicado dolorosamente no final num monólogo de 10 minutos do inesquecível e fundamental personagem Yusuf Kama. “Quem?!” Exatamente.

Jude Law como Dumbledore e Johnny Depp como Grindewald e o que virá: Traição é traição, romance é romance.

Se existe algo nas regras de roteiro de cinema é que se deve evitar ao máximo o diálogo expositivo – aquele que está ali, só para explicar para o expectador o que está acontecendo e por que é importante. Claro, as vezes é necessário, mas muitas vezes fica enfadonho e chato. O ideal é informar o expectador sutilmente ao longo da trama, de forma orgânica. Mas é normal ter uma ou duas linhas de caráter meramente expositivo. Como regra geral, quanto mais diálogo expositivo, mais forçada é a trama.

Eis o principal sintoma que o roteiro de J.K Rowling capenga. Conforme nos aproximamos do clímax de uma trama confusa e, francamente, sem sentido, Yusuf Kama, um personagem sem qualquer consequência para o grande esquema das coisas, sem qualquer cacife na história do universo, interrompe o filme para explicar por longos minutos o que lé tem a ver com cré. E, pior de tudo: NÃO FAZ NENHUMA DIFERENÇA.

O filme como um todo, um dos mais longos do Universo de Harry Potter, poderia ser resumido simplesmente a uma hora se apenas tudo de mais relevante fosse mantido: Grindewald vai para Paris para iniciar sua revolução e tentar recrutar Credence. Aurores do mundo se juntam para combatê-lo. Fim! No entanto, somos forçados a acompanhar Newt e Tina pela maior parte do filme, sendo que nenhum dos dois tem qualquer impacto significativo no grande esquema das coisas. Se os seus heróis podem ser completamente editados fora do filme sem qualquer impacto para o desfecho da trama, você fez um filme ruim.

O Dragão Chinês no filme, nunca chamado de Dragão, embora chinês.

“Mas Diego”, o hipotético leitor questiona, “você disse que o filme não é simplesmente ruim”. Sim, pois ao longo da trama confusa e mal escrita, salpicam momentos e cenas interessantes. Dezenas de diálogos e pequenas menções irão satisfazer os fãs de Harry Potter, conforme constrói-se mais em cima do universo, com mais detalhes dando vida a situações históricas apenas mencionadas nos livros. As atuações de forma geral são muito boas e Johnny Depp domina bem o papel titular do filme, dando grande esperança para um futuro confronto com Dumbledore (interpretado aqui, mais jovem, por Jude Law). Mas todos os bons momentos são postos a perder quando se coloca muita ênfase sobre personagens e viradas da trama desnecessárias. A sensação a todo o instante é a de que eu deveria ficar impressionado por coisas que não têm qualquer gravidade.

Sim, os efeitos especiais são belíssimos e o desenho das criaturas faz jus ao título da série – especialmente o dragão chinês, que se move e age como um dragão chinês, mas nunca é chamado de dragão, embora chinês. Para ser franco, contudo, os tais animais fantásticos poderiam desaparecer completamente do filme sem qualquer efeito concreto na trama. E isso diz muito sobre o filme.