Animais Noturnos: um filme sobre dor e culpa

“Animais Noturnos” é excelente, porém indigesto. O segundo filme do estilista e diretor norte-americano Tom Ford é um trhiller, carregado de tensão e dramaticidade em igual medida. O longa é baseado no livro “Tony & Susan”, de Austin Wright (1993). O roteiro não é óbvio e a narrativa talvez possa parecer confusa para alguns desavisados e/ou mal acostumados com histórias muito lineares. A montagem ajuda a costurar muito bem essas três frentes que nos são apresentadas.

Tom Ford já abordou temas como solidão, conflitos existenciais e arrependimento em seu filme de estreia, o belo “Direito de Amar” (2009), que rendeu indicação de Melhor Ator no Oscar de 2009 para Colin Firth. Em “Animais Noturnos” esses temas são revisados com um maior grau de culpa, agora disfarçado de suspense. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deu especial atenção à atuação de Michael Shannon (Bobby Andes), indicando-o à categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Seria justa também uma indicação na categoria de Melhor Filme e Melhor Atriz à Amy Adams que passou em brancas nuvens, embora tenha sido excelente tanto nesta obra, quanto em “A Chegada” (2016).

Da esquerda para direita: Bobby Andes (Michael Shannon), Ray (Aaron Johnson) e Tony (Jake Gyllenhaal)

A história tem início com Susan (Amy Adams), uma galerista bem sucedida que recebe um manuscrito do primeiro romance de seu ex-marido, Edward (Jake Gyllenhaal). O pacote vem com uma carta escrita pelo próprio autor, pedindo atenção na leitura, uma vez que o romance (intitulado “Animais Noturnos”) é dedicado justamente a ela. Naquele momento aquela mulher se encontra em crise financeira e conjugal com o segundo marido (Armie Hammer) e o contato de seu ex, o qual não tinha notícias há 19 anos, provoca uma inquietação em sua vida. Ao passo que a leitura vai se desenvolvendo, Susan começa a traçar paralelos entre a história que lê e o que vivenciou em seu primeiro casamento. A ficção literária toma vida em tela e se torna, talvez, a principal narrativa do longa.

Para enfatizar esse jogo entre as narrativas, a montagem se utiliza de rimas visuais. Um exemplo é a cena em que dois corpos entrelaçados no sofá são suavemente passados para a cena em que vemos Samantha (India Menuez), filha de Susan, deitada em uma cama – mesma posição, porém em contextos diferentes. Outro aspecto que podemos considerar é a escalação do elenco. Amy Adams e Isla Fisher (atriz que faz a esposa de Tony no livro) são bastante parecidas fisicamente, assim como Ellie Bamber (filha de Tony) com India Menuez. Não podemos esquecer, é claro, de Jake Gyllenhaal interpretando ambos os personagens, Edward e Tony, o que pode não ter ficado óbvio para todos os que assistiram.

Susan (Amy Adams)

A estética flerta com a publicidade. Algumas cenas podem parecer comercial de perfume, como a transição entre os quadros de Tony e Susan na banheira – outra rima visual! -, quando, por pouco, não ouvimos um ‘J’Adore Dior’ ao final. No entanto, diferentemente de alguns críticos especializados, não considero demérito algum, pelo contrário, funciona muito bem no contexto do filme. Na cena inicial, somos jogados sem aviso prévio na exposição de Susan, repleta de mulheres fora dos padrões. Notoriamente o “grotesco” dessas obras hiperrealistas não dialoga em nada com o figurino e a superficialidade dos convidados ali presentes. Choca, causa incômodo e inquietação, assim como a trama do livro. Em um cenário árido e sujo, sentimos ojeriza e tensão com o desenrolar da história de Tony e sua família.

Tom Ford acertou na escolha de seu elenco, aliás que elenco! Ele conseguiu o feito de fazer até Aaron Johnson (o eterno “Kick-Ass”) atuar bem. Inclusive, por sua interpretação do vilão Ray Marcus, foi agraciado este ano, com o Globo de Ouro (de Melhor Ator Coadjuvante em drama). Falando em coadjuvante, o que é Michael Shannon neste filme? Não que seja novidade ele estar bem, mas como o detetive Bobby Andes ele é certeiro e tornou-se meu predileto na briga pelo Oscar. Concisa, porém necessária, assim eu vejo Laura Linney (a mãe de Susan), em apenas uma aparição, a atriz nos preconiza algo sobre a protagonista, rouba a cena em tela e deixa sua marca. Acredito que Amy Adams faz uma das coisas que mais gosto em um ator no cinema: entregar todas as sensações e emoções em apenas um olhar. Embora tenha saído de mãos vazias em todas as premiações que foi indicada este ano, conseguiu largar o estigma de “Encantada” e passou a ser respeitada por crítica e público.

A narrativa do romance pode ser interpretada de várias formas. Ao meu ver, tudo se trata de uma grande metáfora dentro da mente de Susan. Sendo assim, não importam a veracidade da obra literária ou ainda sua qualidade, mas as reações que ele causa na personagem de Amy Adams. As respostas para os questionamentos que a protagonista traça entre a ficção e sua vida são incógnitas, assim como a ansiosa cena da espera que fecha o filme. E por favor, não façam como um espectador na sessão que assisti, não esperem por cenas após os créditos, não é filme da Marvel. No mais, que filmaço!