Aniquilação (2018): filmes inteligentes respiram

Estreou um filme esta semana na Netflix que comprova a eficiência do meio (streaming) e mostra o seu ponto mais forte, ao mesmo tempo em que me enche de tristeza por constatar sua maior limitação. O nome deste filme é Aniquilação (Annihilation, 2018). Se você estiver a fim de assistir um filme intrigante, belo, assustador e inteligente sob qualquer medida, caro leitor, não vá ao cinema. Apague as luzes e assista este filme na maior tela possível.

O leitor talvez ainda se lembre de filmes inteligentes. Não digo filmes em que em determinado momento surge a voz do Morgan Freeman ou do Michael Caine explicando à audiência o que aconteceu. Mas sim filmes intrigantes, repletos de ambiguidade; filmes em que o vilão e seus motivos não são imediatamente reconhecíveis e que o herói ou anti-herói não sabe o certo a ser feito; filmes que fazem os expectadores refletirem por horas a fio sobre o tema e que não encontram eco no grande público.

Aniquilação é um filme inteligente até o ponto em que chega a ser um problema de marketing. Ao mesmo tempo em que não é quase impenetrável como Primer (2004) ou Upstream Color (2013), ele não chega a ser tão acessível como Ex-Machina (2014) ou A Chegada (2016). Ele habita uma zona intermediária, a mesma zona de filmes como 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), O Homem Duplicado (2013) ou Donnie Darko (2001).

E se você está chocado por eu ter listado 2001 junto com Donnie Darko, saiba que meu ponto não é necessariamente sobre a qualidade do filme, mas sua complexidade. Hoje reconhecemos 2001 como uma obra prima, mas a recepção inicial foi negativa e várias pessoas deixavam a sala completamente confusas e detestando o filme. Muitos têm a mesma reação até hoje.

Com doses de horror e beleza, Aniquilação foge do óbvio e força a reflexão.

Aniquilação, assim como 2001, Donnie Darko ou O Homem Duplicado (mantendo nossa lista sucinta) não dará aos expectadores a satisfação de um enredo pronto e de fácil compreensão. Ele irá fazer uma provocação, estabelecer um tema, encantar com visuais, fazer você acompanhar o destino dos personagens e fazer você refletir por muito tempo acerca destes elementos. É fácil odiar um filme assim. Chamá-lo de insuficiente, acusar de ser extremamente pretensioso, ou chamar o roteirista de preguiçoso.

A realidade, e o que precisa ser aceito, é que convidar o expectador a pensar pode ser parte do encantamento de um filme inteligente e é o que o separa da esmagadora maioria dos filmes atuais. Em Aniquilação, o expectador faz parte da produção de sentido. Ele ajuda a completar a obra, de certa forma tornando o conteúdo original para cada indivíduo. Por isso prevejo muitas pessoas dando play no filme sem qualquer precaução e abandonando pela metade, ou, ao menos, terminando o filme e detestando as perguntas que ficam no ar.

Vejo este erro acontecendo porque a premissa do filme é extremamente sedutora: um grupo de cientistas precisa penetrar no Brilho, uma espécie de campo de força que se origina em um Farol onde três anos antes caiu um meteoro. Sabemos apenas que ele se expande, que nenhuma comunicação flui de dentro para fora deste campo e que apenas uma pessoa conseguiu escapar de lá com vida. Lá dentro, esta “tchurminha” irá viver grandes aventuras com uma galera muito louca, enfrentando altos perigos para sobreviver.

Uma tchurminha muito louca pronta para enfrentar altas aventuras.

Mas é claro,  nada é tão simples assim.

A missão do grupo de cientistas não é destruir o que está lá dentro, salvar o mundo ou resgatar pessoas. Seria muito fácil reduzir o filme a isso, estabelecendo uma corrida contra o tempo ou coisa parecida. Mas não. A missão é muito simplesmente coletar dados, entender o fenômeno, tentar descobrir o que acontece lá dentro e tentar voltar com vida.

Se você assistir ao filme com base nos monstros que habitam o Brilho (e no trailer do filme), saiba que sim, eles estão lá, e são muito mais perturbadores do que se imagina, mas eles são uma fração mínima de tudo o que há para se explorado neste universo. O terror e a beleza são fatores que se equilibram dentro do Brilho. Embora em certo momento seja ofertada à audiência uma explicação, ela não te dá nada em termos de motivação. O Brilho é um fenômeno, nem positivo ou negativo. O Brilho é.

O grupo de cientistas entram no Brilho: competência feminina tratada com naturalidade (como deve ser).

Outra coisa que precisa ser destacada é o papel predominante das mulheres no filme e como isso é tratado com naturalidade. Ao contrário do que vimos em Mulher Maravilha (2017) ou Caça Fantasmas (2016) nem um pingo da publicidade apelou para o fato de que o grupo de cientistas, veja só, é composto unicamente de mulheres, em muito de sua diversidade. Sim, há este reconhecimento durante o filme, mas isso é imediatamente colocado em segundo plano para o fato de que são cientistas, capacitadas e que têm uma missão a cumprir. Não há um chefe dizendo que elas não podem, não existe um marido duvidando da capacidade, nem um ato de rebeldia. Estas são as responsáveis pela missão e fim de papo.

E é preciso acrescentar: este não é o grupo de cientistas normal que habitam os filmes de ficção atuais. Estas são pessoas inteligentes, tomando decisões inteligentes em face aos problemas, até o momento em que os próprios mistérios do Brilho as levam a questionar sua própria sanidade – assim como fizeram com os fuzileiros navais que as precederam, diga-se de passagem.

Aniquilação é tão um filme sobre esta força misteriosa quanto é um filme sobre autodestruição, sobre nossas escolhas feitas contra o melhor juízo e que levam nossas estruturas ao chão. Este tema, que não é entregue de forma sutil, é acompanhado principalmente na figura da bióloga Dra. Lena (Natalie Portman, em atuação abaixo de suas capacidades) e de seu marido Kane (Oscar Isaac, sempre muito bom), este último o único ser vivo a escapar do Brilho. Mas também acompanhamos isto no comportamento das demais cientistas, a psicóloga Dra. Ventress (Jennifer Jason Leigh, com sono o filme inteiro), a física Dra. Radek (Tessa Thompson, em atuação mais sutil do que nunca), a antropóloga Dra. Sheppard (Tuva Novotny) e a paramédica Thorensen (Gina Rodriguez, de “Jane a Virgem”, mostrando muita competência); todas com motivos particulares que as levam a se voluntariar em uma missão sem volta.

Caos: beleza e terror compõe o visual do filme.

Existem muitos outros méritos aqui a serem distribuídos; mesmo com orçamento aparentemente limitado para efeitos, o filme é extremamente interessante visualmente e usa isso como seu ponto forte. A música também acrescenta muito à atmosfera de mistério e fica ecoando em sua cabeça conforme refletimos sobre a história. Mas isso não equivale a dizer que o filme seja perfeito. Algumas atuações poderiam ser melhor extraídas considerando o nível de talento do elenco. E como um todo, a estrutura do filme colocada, talvez, para ajudar a tornar mais palatável (ouvimos a história do ponto de vista de uma sobrevivente), poderia ser repensada em uma história mais direta e ainda menos mastigada (à la 2001, por exemplo, mas nem todos são Stanley Kubrick).

Agora nos resta discutir a distribuição via Netflix.

Ao mesmo tempo em que fiquei feliz por ter acesso ao filme logo, fico triste de não ter tido a oportunidade de assisti-lo na maior tela possível. Este é o lado bom e ruim da plataforma vivendo lado a lado: toda a praticidade de filmes dentro de casa, mas sem o charme e o encantamento do cinema, o preenchimento de sentidos e a imersão visual. Aniquilação merecia este tratamento.

Alex Garland, diretor e roteirista, fez o filme que queria fazer. Embora não seja tão acessível quanto ao seu filme de estreia (Ex-Machina, uma obra prima da ficção científica contemporânea), ele certamente se encontra no mesmo nível intelectual e de provocação que seu filme anterior. Há muita promessa em Garland e o que ele pode vir a fazer depois. Mas as reações negativas das audiências de teste deste filme fizeram com que seu lançamento nos cinemas ocorresse apenas nos EUA, enquanto o resto do mundo teve acesso via Netflix. Uma grande pena.

Mas este é o grande dilema dos filmes verdadeiramente inteligentes – e que são acusados de serem pretensiosos, bom… era essa a ideia. Prefiro mil vezes um filme que fracassa em sua pretensão do que um filme que sucede em sua mediocridade. Mas longe de um fracasso, Aniquilação é um grande filme. Pena que não será bem aceito por todo mundo – mas qual filme o é, não é verdade?