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Assassinato no Expresso Cold Spring

Que tipo de pessoa é você?

Imagine que você tem 60 anos, acabou de perder o emprego e tem, em casa, uma esposa e um filho adolescente. Imagine ainda que está em um trem e uma mulher bonita, simpática e comunicativa aborda você com uma questão não tão hipotética: por U$$ 100.000 você precisa fazer uma “pequena” ação, algo completamente indolor, que supostamente não afetará em nada a sua vida, mas vai impactar a vida de uma outra pessoa, desconhecida. Você tem até a última parada do trem, Estação Cold Spring, para realizar o feito. Qual a sua escolha?

Esse é o plot não tão original, mas assumidamente intrigante, adotado pelo filme “O Passageiro” (2018), recentemente lançado nos cinemas. A trama é protagonizada por um Liam Neeson sexagenário com ares de canastrão que muito pouco lembra atuações marcantes como “A Lista de Schindler” (1993), “Os Miseráveis” (1998) e “Kinsey – Vamos Falar de Sexo” (2004). Não seria desonesto dizer que, de uns tempos para cá, após engatar a  repetitiva franquia “Busca Implacável” (2008-2014), e a frutífera, há quem diga, parceria com o diretor Jaume Collet-Serra (Sem Escalas, 2014 e Noite Sem Fim, 2015) o ator tem se tornado uma espécie de Tom Cruise envelhecido. 

Pois bem. A curta participação da sempre marcante Vera Farmiga, como a misteriosa mulher do trem, é responsável por plantar a deixa e montar o ambiente perfeito para a criação de um clima de suspense e ação que garantirá, no mínimo, o interesse pelos próximos 105 minutos. A partir daí o que temos é uma sucessão de cenas rápidas com o protagonista, Michael (Liam Neeson) por vezes eufórico e por vezes cambaleante, uma investigação de passageiros completamente dissonantes que mais parece uma versão contemporânea de Assassinato no Expresso Oriente, uns tantos sustos, algumas confusas cenas de luta, e uma infinidade de elementos que surgem como bengalas para sustentar um roteiro que não faz mesmo questão de ser o ponto alto da trama. E está tudo bem.

“O Passageiro” tem a proposta de ser um envolvente entretenimento estético. Encanta o público com câmeras ágeis, admiráveis falsos planos sequências (os vagões de um trem são tentadores para qualquer diretor de fotografia), trilha sonora clichê, mas eficiente no seu papel dramático, e uma primorosa e longa cena de descarrilhamento que é capaz de segurar a respiração do mais apático dos espectadores por alguns minutos.

Um dos pontos mais inconvenientes do filme é também um dos aspectos que mais cativa. A necessidade de um sincretismo de gêneros cinematográficos faz com que haja uma cota de humor mesmo na mais tensa das narrativas. Em “O Passageiro”, esse aspecto pouco cabível fica a cargo do personagem de Adam Nagaitis, um (ainda) desconhecido ator britânico detentor de carisma natural e timing perfeito para a comédia. No filme, ele interpreta um funcionário do trem que surge pontualmente com o mero objetivo de ser alívio cômico. E consegue com louvor.

No mais, assegure a pipoca e não se apegue aos detalhes. Esse é um filme para abstrair e se deixar levar pelos deslumbres que o genuíno cinema blockbuster consegue provocar. Para conferir sem expectativas e aproveitar a sessão sem grandes exigências.