Jogador Nº 1 é pipocão divertido que marca o retorno do Spielberg maroto

Entre 1998 e 2017, o aclamado Steven Spielberg levou às telonas 14 filmes. Nesse período, flertou com seu estilo lúdico em quatro ocasiões, talvez com Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) e As Aventuras de Tintim (2011) sendo estes os mais próximos de sua marca registrada. Eis que no início de 2018, o diretor de 71 anos de idade decidiu acordar a criança sonolenta dentro dele…

Jogador Nº 1 (Ready Player One, 2018) se passa num futuro onde a pobreza e falta de recursos é amenizada com a interação no OASIS, jogo em realidade virtual que permite às pessoas serem e experimentarem o que quiserem. Após a morte de James Halliday (Mark Rylance), um dos criadores do jogo, é lançado um desafio: o primeiro que encontrar três chaves cuidadosamente escondidas se tornará o dono do OASIS e herdará uma fortuna.

Adaptando a obra literária homônima de Ernest Cline, o filme é um festival de referências à cultura pop, principalmente o material dos anos 1980. Assim, temos músicas, videogames e cinema por todos os lados. Um dos mais homenageados, De Volta Para o Futuro (1985), comparece com o inesquecível DeLorean, acordes da trilha composta por Alan Silvestri – que também compõe a de Jogador Nº 1 – e com citação direta ao diretor Robert Zemeckis.

Mas é importante dizer que todas as menções feitas não são meras iscas financeiras para atrair o maior público possível, já que o roteiro escrito por Zak Penn e pelo próprio Cline se passa dentro de um universo alternativo onde essa característica é perfeitamente plausível.

Ready Player One (2018)
Tye Sheridan as Wade Owen Watts/Parzival

A trama é simples, centrada nos objetivos das personagens. Isso porque a produção não só referencia os anos 1980 em citações, mas emula a fórmula de fazer cinema daquela década. Temos uma autêntica aventura leve que deseja, acima de tudo, entreter seu espectador. Por isso, problemas corriqueiros como personagens unidimensionais não afetam tanto o resultado final. O grupo liderado por Wade Watts/Parzival (Tye Sheridan) – composto por uma espécie de Clube dos Cinco (1985) – serve à história e apenas a ela.

Com a grande relevância que os games apresentam hoje em dia, bem como o avanço tecnológico que trazem, o filme tem uma temática que permite discussões pertinentes como a obsessão dos players em permanecer mais tempo num jogo, tentando o maior número de conquistas, a imersão que os faz ignorar a vida real e a imaturidade para lidar com as derrotas com perdas significativas das conquistas alcançadas, que, por vezes, provocam reações nada saudáveis nos jogadores.

Embora tudo isso esteja sutilmente representado aqui, é primordial relembrar que se trata de uma obra de puro entretenimento. Portanto, aos que vão assistir, é bom ter em mente que não encontrarão profundidade ou subtextos filosóficos, apenas um exemplar onde se desliga o cérebro e se diverte.

Spielberg apresenta um fôlego impressionante e vigoroso, trazendo um ritmo alucinante através de ação e movimentos de câmera. Ao lado do diretor de fotografia Janusz Kaminski, entrega enquadramentos que valorizam o conceito visual e nos coloca dentro do caos, como na sequência de corrida do primeiro ato.

Os efeitos de computação gráfica são surpreendentes tanto na ação quanto na ambientação, trazendo cenários bonitos e insanos. É preciso enaltecer a direção de arte por conseguir ser eficiente ao traduzir a divergência social – quando comparamos à modernidade da Innovative Online Industries (IOI) com a poluição visual que é a Pilha, espécie de comunidade que cresce verticalmente devido ao empilhamento de trailers – e, principalmente, ao recriar cenários icônicos de um determinado filme, mas que não comentarei para não estragar a experiência.

Liderado por Sheridan, o elenco funciona bem, mesmo sem grandes representações. O protagonista tem um certo carisma e conduz bem a história; Olivia Cooke segue igual na pele de Samantha/Art3mis, sendo a personagem com algo que mais se aproxima de um arco dramático bem definido; e Ben Mendelsohn faz de seu Nolan Sorrento um típico vilão oitentista, um empresário caricato que aspira ser o homem mais poderoso do OASIS.

Jogador Nº 1 é leve, divertido, bem realizado e brilhantemente conduzido por um diretor experiente que vem reaparecendo cada vez menos no estilo que o consagrou. Vale a pena ver, principalmente numa sala escura com uma tela gigante, até o 3D funciona. Diversão certa!