As vésperas da estreia de Os Vingadores Era de Ultron (nesta quinta-feira, 23) tirei o fim de semana para assistir duas recentes séries produzidas pela Marvel, na intenção principal de conter a ansiedade para esse que provavelmente é o filme mais aguardado do ano. Nesse texto falo das minhas impressões sobre Demolidor e Agent Carter. Já adianto que ambas as séries são excelentes e apresentam tantos pontos para discussão que foi uma experiência quase sofrível escrever essa crítica (que aliás pode conter spoilers).

DEMOLIDOR/DAREDEVIL

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Produzida pela Netflix, Demolidor foi toda lançada pelo serviço de streamig no último dia 10, eu não perdi tempo e devorei os 13 episódios. Sim, a ansiedade era enorme. Vejo o Demolidor como um dos mais peculiares e fascinantes personagem dos quadrinhos e estava ansiosa para desfazer a péssima impressão deixada pela ultima adaptação (o medonho filme de 2003). Felizmente, fui muito bem-sucedida nesse sentido, a série é incrível.

A começar pela impecável abertura, (desde Game Of Thrones não ficava tão fascinada com uma), a edição os efeitos com o sangue ficaram incríveis. A direção de arte da série, aliás, está de parabéns desde a ambientação dos cenários, construindo uma sombria Hell’s Kitchen, aos figurinos.

Agora falando do enredo em si, ele apresenta Matt Murdock, um advogado cego em início de carreira, que durante o dia combate o crime nos tribunais e à noite caça os mafiosos, como o vigilante mascarado com sentidos apurados. É interessante o crescimento do personagem com o passar do tempo, tanto como o homem, quanto – e principalmente – como herói. Destaque para a evolução do seu traje que começa com uma roupa simples totalmente preta e uma venda até o uniforme que conhecemos, já no último capítulo.

Vincent D'Onofrio encarna o icônico vilão Rei do Crime

Vincent D’Onofrio encarna o icônico vilão Rei do Crime

A série (que se passa meses após o último filme dos Vingadores), assim como todas as produções atuais da Marvel, orbita (em maior ou menor grau) em torno da narrativa da prestigiada equipe de heróis, logo as referências são inevitáveis. As menções à Batalha de Nova York estão lá, sem contar que Hell’s Kitchen, assim como toda a Nova York, ficou destruída e está em reconstrução. Como consequência, o preço dos imóveis despencou dando brecha para a ascensão de mafiosos de olho em um dos metros quadrados mais badalados dos quadrinhos, dentre eles o icônico Rei do Crime. E aqui chego à outro grande acerto da produção: a cuidadosa construção dos personagens. O britânico  Charlie Cox fez um grande trabalho expondo de maneira tão evidente os dilemas morais de Murdock. Religioso, ele não gosta nem um pouco de sujar suas mãos de sangue (não que haja muitos heróis animados com isso). De todos ele é o que mais se mostra resistente, vivendo um eterno conflito consigo mesmo, uma das características que o tornam tão singular. Outros que se destacam são Foggy Nelson (Elden Henson), amigo e sócio de Murdock e Karen Page (Deborah Ann Woll), que se nos quadrinhos é um dos grandes amores do personagem, aqui ela é uma amiga e potencial envolvimento amoroso. É interessante aliás a relação do trio, eles de fato, têm muita química e constroem uma relação de amizade cativante. No entanto, ninguém se destaca mais, além do próprio Murdock, do que Wilson Fisk, o Rei do Crime, vivido de maneira brilhante por Vincent D’Onofrio. Assim como o protagonista, o personagem é muito singular e revela várias facetas de sua personalidade, desde o mafioso frio e calculista, à um homem em certa medida inseguro marcado por uma infância difícil.

Demolidor marca a estreia de uma pareceria entre Marvel e Netflix que promete ser duradoura, outras três produções virão em breve: AKA Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. A intenção é no futuro reunir todos eles em uma única série. Além disso, Demolidor inaugura uma nova tecnologia, o áudio para cegos, com descrições de tudo que acontece na trama, a tendência é que, aos poucos, todas as produções da Netflix venham com esse recurso.

AGENT CARTER

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Apesar de, inicialmente, Agent Carter não ter despertado meu interesse (isso deve-se muito ao núcleo que lhe deu origem, o do desinteressante Capitão América), razão pela qual demorei meses para vê-la, admito que, após terminar os oito episódios, estou ansiosa para uma possível segunda temporada.

Produzida pela ABC em parceria com a Marvel, a série estreou em janeiro, período em que  Agents of SHIELD, uma das principais produções do canal, estava em hiato. O enredo se passa pouco tempo após os eventos de Capitão América – O Primeiro Vingador, mostrando a vida da Agente Peggy Carter, que trabalha para a Reserva Científica Estratégica ou simplesmente SSR e que, em meio a dor pela perda de Steve Rogers, tenta ajudar Howard Stark, agora um fugitivo da polícia por supostamente vender armas ilegalmente, a ser inocentado.

A série prende o interesse aos poucos e vai crescendo em qualidade até que lá pelo quarto ou quinto episódio você tem medo até de piscar e perder algo importante. Agente Carter encontra sua força em três pontos. Primeiramente sua protagonista, vivida pela britânica Hayley Atwell, que cresce de maneira incrível durante a trama; em segundo, sua importância, ela funciona como  prévia de todo o universo Marvel já recentemente abordado: a SSR no futuro dará origem à SHIELD fundada por Carter e Howard Stark, pai do Homem de Ferro. Também conhecemos um pouco do Programa Viúva Negra e vemos a primeira delas em ação. Não se pode esquecer, é claro, o plot que fecha a season finale, revivendo o Doutor Armin Zola (Toby Jones) e a HYDRA.

James D'Arcy e Hayley Atwell

James D’Arcy e Hayley Atwell

Nenhum dos pontos porém é mais válido do que a principal crítica da série, apesar de Carter ter um vilão bem definido, (a organização russa Leviatã), fica claro para quem assiste que o grande inimigo é outro: o profundo machismo da época. Estamos nos anos 40, Carter não é vista por seus colegas como uma igual, sempre sendo designada a trazer cafezinhos, providenciar almoços ou cuidar da papelada. No quarto episódio isso fica ainda mais evidente após duro discurso do antipático Agente Thompson (Chad Murray): “Você é uma mulher, nenhum homem vai considera-la como uma igual”. Essa discussão de gênero abordada não poderia ter chegado em momento melhor. Não faz muito tempo que Joss Whedon, diretor de Os Vingadores, reacendeu o assunto ao criticar a falta de aproveitamento das personagens femininas dos quadrinhos nos cinemas (ou nesse caso em adaptações no geral) em sua maioria as que estão sobre os direitos da FOX.

Rixas entre o diretor e o estúdio à parte, a crítica de Whedon é pertinente, se nos quadrinhos elas demoraram a ter uma representação mais digna, em outras mídias as grandes heroínas até o momento estavam fadadas a pairar nas sombras de seus famosos pares românticos ou condenadas a adaptações fracassadas, (caso de Mulher Gato e Elektra). Porém mesmo Whedon, famoso por ter criado a icônica Buffy que desconstrói todos os padrões de adolescente frágil e boba dos 90 e que ganhou respeito na TV, recebeu críticas por não ter dado mais espaço para a Viúva Negra no último Os Vingadores. Mas ao que tudo indica, os tempos podem estar mudando, Agente Carter é a prova disso, fora os anúncios de adaptações envolvendo Capitã Marvel e Mulher Maravilha, lembrando ainda que Scarlet Johansson recentemente revelou que há conversas sobre um filme solo da Viúva Negra. Toda essa discussão pode ganhar ainda mais força com Os Vingadores – Era de Ultron, já que muito se fala sobre um maior destaque para a Viúva Negra e Feiticeira Escarlate.

 Sendo assim, com Demolidor e Agent Carter, a MARVEL prova que de fato vive um grande momento em todas as mídias que se propõe a trabalhar, tendo hoje seu carro chefe no cinema. É bem verdade que após o decepcionante (para as altas expectativas) início de Marvel Agents of SHIELD houve dúvidas sobre um sucesso na TV, isso no entanto parece ser águas passadas após o grande desempenho das séries citadas, bem como do bom momento que parece viver a própria Agents of SHIELD em sua segunda temporada. E com tantas novidades ainda pela frente eu não poderia estar mais animada. Avante!

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