“Arrecife”, de Juan Villoro: a violência como atrativo turístico

 

O terceiro mundo existe para salvar os europeus do tédio“, diz o personagem Mario Müller, a certa altura do romance mais recente do mexicano Juan Villoro; Arrecife (Companhia das Letras, 2014). “O que para nós é horrível para eles é um luxo“, continua. Boa parte da reflexão sobre Arrecife passa por essas sentenças citadas.

Num livro que levanta boas discussões sobre rock e trata da banalização da violência, Villoro se justifica como o – considerado – melhor escritor mexicano vivo. Arrecife já prende o leitor pela promessa do enredo. A violência como atrativo turístico.

Juan-Villoro
O autor mexicano Juan Villoro

Tony Góngora, roqueiro aposentado da banda Los Extraditables, aceita a proposta do amigo Müller e vai trabalhar num resort de luxo no caribe mexicano onde os turistas vão em busca de contato com o que há de mais bruto no terceiro mundo. O entretenimento que o resort oferece inclui sequestros-relâmpago e encontros com guerrilheiros. A ideia é oferecer ao turista rico uma situação extrema, porém sob controle, para aquela liberação de adrenalina que não em seus lugares de origem, e em seguida, a volta para o conforto do hotel-resort no paraíso natural caribenho.

arrecifeAlguém mais se lembra de hordas de europeus entediados que vêm ao Brasil conferir como é uma favela carioca ao vivo?

Se no turismo sempre se oferece o que há de diferencial, Villoro nos mostra que talvez a América Latina esteja exagerando em transformar a miséria e a mortandade num showbiz.

A trama sofre uma reviravolta quando um mergulhador do hotel aparece morto com um arpão atravessado nas costas. A prosa do escritor é do tipo ágil, e a ironia está sempre presente. Um romance prazeroso mas nem por isso menos impactante.

Drogas, violência, rock e aquele surrealismo macabro tipicamente mexicano quando se fala da morte. Tudo por trás de um cenário paradisíaco, algumas coisas quase que como escondidas. Um zunido, uma pergunta que persiste durante a leitura; até que ponto estamos acostumados com assassinatos que, de certa forma, não nos afetam? Até que ponto pode-se esconder tudo debaixo de uma paisagem? Seja nas belas praias do caribe mexicano, seja nas belas praias de um nordeste brasileiro.