As aventuras de Pi: um filme sobre o paradigma realidade/fé

Confesso que me frustrei ao assistir ao trailer de As Aventuras de Pi. Ora, tenho um tanto de preconceito com cinema feito quase absolutamente em estúdio, onde até o céu é computadorizado. Adoro externas. Portanto, quando assisti a As Aventuras de Pi ontem, com a língua afiada tal como uma adaga, pronta para as mais severas críticas, fui calada pelo roteiro belíssimo e sensibilidade presente no filme.

Cena de As Aventuras de Pi: Pi e Richard Paker no barco

Eu deveria saber que Ang Lee não se meteria em uma enrascada, mesmo que o meu conhecimento prévio sobre o diretor se resuma a Razão e Sensibilidade (1995) e O Segredo de Brockback Mountain (2005), uma vez que nenhum dos dos títulos me deixou sentir falta de nenhum elemento que corroborasse para o sucesso das tramas. Com As Aventuras de Pi não é diferente: o roteiro por si só já é magnífico, mas é impossível não cogitar o mérito da direção do filme.

Piscine “Pi” Patel é o tipo do garoto que você quer ter como filho um dia. Sensível, justo, amável e muito inteligente, ele consegue ver beleza na fé em suas mais diversas vertentes. Acostumado ao ambiente familiar e à Índia, ainda criança Pi resolve seguir três religiões: hinduísmo, catolicismo e islamismo. A família possui um zoológico na Índia. Contudo, quando o pai se vê obrigado a mudar para o Canadá com toda a família, os animais precisam ir junto, a fim de serem vendidos na América do Norte. Todos embarcam em uma viagem pelo Oceano Pacífico.

Suraj Sharma e Ang Lee: “Pi” e o diretor do filme

O conflito da história se dá quando uma tempestade atinge o navio e os únicos que conseguem sobreviver a ela são Pi e três animais. Entre eles, o tigre chamado Richard Paker. Nesse momento começa a aventura de Pi, que se vê obrigado a sobreviver no mar, tendo como únicos aliados o barco em que estava, o tigre (nem sempre), a própria esperança e seu Deus.

O roteiro do filme é baseado no romance de Yann Martel e faz várias referências à religiões e fé, sem uma parcialidade no que diz respeito à doutrinas. O filme tem prudência e sensibilidade para falar de um tema que pode ser polêmico. As atuações são muito boas e seguem o ritmo do filme, sobretudo o jovem Suraj Sharma, responsável por interpretar Pi. A estética do filme é outro elemento que não pode ser deixado de lado. Embora muito da produção tenha se utilizado de croma, a técnica fui muito bem aplicada e os atores souberam como interagir com ela, de modo a não artificializar demais a produção.

A relação de Pi com o tigre Richard Paker também é um ponto alto da trama. O animal causa medo no garoto, ao mesmo tempo que o faz se sentir acompanhado e esperançoso. E creio que também funciona como uma espécie de alter-ego, só ainda não consegui entender se do próprio Pi ou do Deus em que ele tanto crê.

O filme tem um ritmo e em nenhum momento fica entendiante. O roteiro é bem amarrado e as cenas são belíssimas. A personalidade de Pi por si só já daria um filme, de tão bem construída. A maneira como ele enfrenta a adversidade nos faz refletir sobre fé e o conceito de Deus, seja que forma ele adote.

As aventuras de Pi tem, sem sombra de dúvidas, uma das cenas mais sensíveis que já vi no cinema – quando Pi conhece o cristianismo e agradece a um deus hindu por apresentá-lo a Jesus Cristo – e uma forma leve de abordar temáticas complexas. Só me intriga um fato: acabou o filme (e olhe que assisti até quase o fim dos créditos) e não tocou a música tema do trailer, Paradise, de Coldplay. E olhe que no elenco ainda tinha um cosplay de Chris Martin… vai entender.