Há 127 anos, em 13 de Junho de 1888, nascia em Lisboa um dos maiores expoentes da literatura portuguesa – Fernando Pessoa. Ao longo de sua vida, Fernando criou diversos heterônimos, tendo criado o seu primeiro aos seis anos de idade e o último aos quarenta anos. E O CHAPLIN não poderia deixar de falar um pouco sobre esse vasto oceano que é Fernando Pessoa.

Heterônimos

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”
Fernando Pessoa

Um heterônimo é um autor fictício, com uma história de vida, estilo, personalidade e opiniões. São personagens reais que possuem autonomia para escreverem e até mesmo discordarem de seus criadores. Fernando Pessoa foi o escritor que mais criou heterônimos, dentre os principais, destacam-se Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Ricardo Reis nasceu às 16h05 do dia 16 de Setembro de 1887, em Porto. Ele valorizava mais a razão do que a emoção, tendo assim, um estilo de escrita bastante frio e racional. O poeta também era adepto do Fatalismo, ou seja, para ele, a vida era uma causa perdida, e a única coisa certa era a morte. Além disso, ele era fortemente influenciado pelo pensamento Carpe Diem, retirado do poema de Horácio, que significa “Aproveite o dia”.

Ricardo, além de ter se formado em medicina, foi um célebre poeta, claramente influenciado pelos grandes clássicos gregos. Tinha uma escrita erudita e culta, gostava de incitar reflexões filosóficas através de uma refinada didática poética. O escritor, que era a favor da monarquia, mudou-se para o Brasil após a proclamação da república de Portugal. José Saramago, em seu livro “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, datou a morte do poeta em 1936.

Ricardo Reis

“Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.”

Ricardo Reis

Álvaro de Campos nasceu às 13h30 do dia 13 de Outubro de 1890, em Tavira. Foi um engenheiro, que demonstrou muito talento na complexa engenharia da escrita. Trabalhou na famigerada revista Orpheu, ao lado de grandes escritores como Raul Leal, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

Diferente de Ricardo Reis, Álvaro foi um poema mais futurista, tendo sido influenciado pelo simbolismo, e tendo passado pelo modernismo e pelo negativismo. Álvaro de Campos escrevia em uma busca incontrolável para o autoconhecimento. Ele tentava entender ele mesmo, e dessa motivação, surgiram grandes poemas como “Poema em Linha Reta”, “Aniversário”, “Se te Queres” e “Tabacaria”. O escritor morreu em 1935, e deixou um grande legado para a literatura universal, sendo comparado ao célebre escritor Walt Whitman.

Álvaro de Campos

“Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmolas ás portas da Alegria.

[…]

Volto á Europa descontente, e em sortes.
De vir a ser um poeta sonambúlico.
Eu sou monárquico, mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.”

[…]

Álvaro de Campos

Alberto Caeiro nasceu às 13h45 do dia 16 de Abril de 1889, em Lisboa. Foi o mestre influente de Álvaro de Campos, Ricardo Reis e de Fernando Pessoa. Órfão de pai e de mãe, o jovem camponês não chegou a terminar o colegial. O poeta, que pregava a filosofia da “não filosofia” tinha uma linguagem e um pensamento simples, e dispensava as explicações metafísicas acerca da vida. Para Caeiro, a vida é algo comum, que se é sentida e vista.

Alberto foi um amante da natureza, escrevia quase em um panteísmo literário, nunca em prosa. Não costumava usar metáforas, pois para ele, aquilo que não poderia ser visto ou tocado, era inexistente; a harmonia e as explicações eram desnecessárias, pois o mistério das coisas também era inexistente.

Caeiro foi um importante nome para o movimento sensacionista, influenciou diversos poetas, e escreveu grandes poemas como “O Guardador de Rebanhos” – Um conjunto de 49 poemas que foram escritos na única noite de insônia de Alberto. O jovem poeta morreu aos 26 anos, em Junho de 1915, devido a uma tuberculose.

Alberto Caeiro

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, 
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

[…]

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.”

Alberto Caeiro.

E por trás desses grandes escritores? O que havia? Eu conto: Havia uma pessoa, ou melhor, um Pessoa. Era um sujeito magro, mais ou menos 1,73 m de altura, bastante tímido e introvertido, sem emprego fixo, sem mulher, sem filhos, tinha bigode e escondia embaixo de um chapéu, não somente sua calvície, mas também uma imaginação incendiária.

Fernando Pessoa sempre teve a vontade de criar um mundo diferente em torno de si próprio. Um mundo com pessoas diferentes que ele mesmo imaginava. Através de seus heterônimos, Pessoa pôde expandir as concepções literárias, não se limitando a uma característica ou escola literária. Ele conseguiu ser magnífico em diversos campos da literatura, escrevendo sob distintas perspectivas e estilos.

De tudo foi um pouco, e de pouco Fernando Pessoa não foi nada. Até hoje ele é lembrado e considerado um dos maiores, se não o maior, escritor da literatura portuguesa. Nunca ninguém publicou em nome de tantos heterônimos quanto Fernando Pessoa; e mesmo se tivessem publicado, não conseguiriam obter tanta originalidade e distinção entre os heterônimos. Pessoa foi um poeta singular, e ao mesmo tempo, foi um plural de poetas, unidos em um só.

Fernando Pessoa

“Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

 Viver é não conseguir.”

– Fernando Pessoa

One Response

Deixe um comentário

Your email address will not be published.