Há duas semanas tive a oportunidade de assistir ao espetáculo “Meninas”, inspirado livremente no texto “As Criadas” de (1947), de Jean Genet. O espetáculo, resultado do projeto sílabAs c. dança, tem direção e cenografia assinadas por Maurício Motta, que tem um currículo extenso e admirável em artes cênicas. A montagem conta apenas com duas personagens em cena, Claire e Solange, as criadas cujas personalidades são bastante exploradas na obra de Genet. A fim do espetáculo, foram convidadas as jovens atrizes Yasmin Cabral e Heloísa Sousa para os papéis das irmãs Solange e Claire, respectivamente.

Heloísa Sousa como Claire | Fotos: Rayanna Guesc
Heloísa Sousa como Claire | Fotos: Rayanna Guesc

Meninas, cuja última apresentação acontece hoje, na linda e poética Casa das Artes de Ponta Negra (Rua Afonso Magalhães, 430), a partir das 20h, é uma montagem de caráter contemporâneo e multiartístico, que tem no explorar do corpo o seu principal objeto. Há poucas falas, fugindo às regras do teatro clássico ao qual o público comum está acostumado, mas em contrapartida é necessário estar atento para não perder as expressões que são desenvolvidas com maestria e desenvoltura pelos corpos das duas atrizes.

Yasmin Cabral como Solange Fotos: Rayanna Guesc
Yasmin Cabral como Solange

Com suas Meninas, Maurício apropria-se do texto de Genet e extrai dele sua essência, colocando-o em cena com intensidade. Talvez algumas pessoas possam se sentir entediadas com o formato adotado. Outras (foi o meu caso) passarão o espetáculo com a testa enrugada, a coluna inclinada e a atenção focada, na ânsia por acompanhar os psicológicos de Solange e Claire, que se apresentam para nós através dos corpos de Yasmin e Heloísa.

As duas atrizes (as quais já tive a oportunidade de acompanhar anteriormente no espetáculo “Entre o choro e o controle”, da Sociedade T), inclusive, são o grande destaque de Meninas. Detentoras de uma concentração e desenvoltura cênica capazes de admirar a nomes com mais estrada, Yasmin e Heloísa colocam o texto no bolso e demonstram entrega, sintonia e confiança enquanto dupla.

Minha boa impressão das duas atrizes foi intensificada neste espetáculo, que mescla momentos de submissão nos quais as personalidades são contidas, com a ânsia pela autonomia (e um tanto de loucura) das duas personagens. Tanto Yasmin quanto Heloísa conseguem lidar bem com os diferentes momentos, e expressam isso com uma postura que é alterada em diferentes momentos, um olhar que ora parece objetivado ora perdido, a maneira de deslocarem-se em cena. Chega a ser encantador observá-las.

É certo que “Meninas” não é um espetáculo para todos os públicos (mas é necessário indagar se existe, de fato, alguma montagem que se encaixe nessa categoria), a experiência é melhor aproveitada e apreendida se existe o contato prévio com o texto de Jean Genet, ainda que não seja um pré-requisito. Meninas sustenta-se também por si só, com a experiência e a sensibilidade artística de Maurício e o brilho de Yasmin e Heloísa. Uma experiência valiosa e intrigante.

A última apresentação da temporada acontece neste sábado, às 20h, na Casa das Artes de Ponta Negra. Os ingressos são vendidos aos valores de R$ 30 (inteira) e R$ 15 (estudante).

Compartilhe

Andressa Carvalho
Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).
Picture of Andressa Carvalho

Andressa Carvalho

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).

Postagens Relacionadas

Rugido_2
Lista: 3 séries feministas para assistir na Apple TV+
Não é de hoje que sou entusiasta emocionada do streaming da Apple, o Apple TV+. Dentre os motivos, estão...
foto da revista capituras
Capituras: revista cultural potiguar com foco em produção de mulheres é lançada
O Rio Grande do Norte acaba de ganhar a primeira revista cultural com foco na produção artística realizada...

Deixe uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Pagu
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.