As várias faces de Nina: a psicanálise no filme de Aronofsky

Quando Sigmund Freud apresentou a todos os seus estudos sobre a mente humana, o mesmo descreveu que, no decorrer da modernidade, os humanos foram feridos três vezes, atingindo de maneira abrupta o nosso narcisismo, reconfigurando a maneira como interpretamos o mundo a nossa volta. A primeira ferida foi causada pelos estudos de Copérnico, quando provou a todos que a Terra não estava no centro do universo; a segunda quando Darwin propôs o estudo da evolução das espécies retirando o pensamento de centralidade onde o homem era um ser especial criado por Deus para dominar a natureza; já a terceira ferida é colocada com o surgimento da psicanálise, onde se demonstra que a consciência é a menor parte e a mais fraca de um ser psíquico.

Valendo-se desses relatos propostos por Freud, o diretor de cinema Darren Aronofsky os tomou como mote principal para a criação de sua obra fílmica intitulada “Cisne Negro”, lançado em 2011, tanto na elaboração dos perfis psicológicos dos personagens como também na construção da atmosfera do filme, pois durante toda a obra o diretor nos induz a um estado de tensão a ponto de iniciar uma confusão no nosso consciente ao final do filme.

Inicialmente podemos perceber a fragilidade do consciente humano na personagem de Nina, interpretada por Natalie Portman. No decorrer do filme percebemos que ela não apresenta uma vida própria, pois os seus comportamentos antagônicos apresentados durante a narrativa nada mais são que o reflexo dos “ensinamentos” da mãe e os “ensinamentos” do diretor da companhia de balé, Thomas Leroy.

A partir dai ocorre na personagem uma cisão no ego começando agora a gerar um conflito de personalidade. Além disso, percebemos também uma tentativa por parte de Nina de censurar o seu superego, reprimindo o ódio que sente pela mãe, já que a mesma impõe a Nina não só maneiras comportamentais como também o seu sonho frustrado de ser bailarina. Isso gera na personagem principal uma degradação psicológica ao ponto de agravar o seu quadro de esquizofrenia, e inicia-se o processo “ilusão”, criando assim a figura “imaginária” de Lily (Mila Kunis).

Nas culturas tidas como pagãs, como nas mitologias suméria, mesopotâmica e grega, Lily representa a imagem do “demônio feminino”, responsável pela desinibição e sexualidade exatamente como no filme. Porém, Aronofsky aprofunda esse conceito onde Lily é uma representação figurativa da mãe de Nina, o desejo que a mesma tem que a mãe a ensinasse a ser sociável, alegre, etc. Esse desejo também nos remete ao que Freud chama “fase fálica”, onde o desejo e o prazer localizam-se primordialmente nos órgãos genitais e nas partes do corpo que excitam tais órgãos. Nessa fase, a mãe é o objeto do desejo e do prazer. Tais processos psicológicos que a personagem apresenta, chega ao cume na ultima cena do filme, pois é exatamente nesse momento que ocorre uma distinção de sua personalidade, a qual Aronofsky construiu durante todo o percurso do filme.