Uma das coisas que mais admiro em animações é essa capacidade de (quase sempre) contar praticamente as mesmas histórias, mas ainda assim sempre conseguir emocionar e surpreender o espectador de uma forma única. Ora, convenhamos, salvas aquelas que tramitam por fora do circuito das grandes produtoras norte-americanas, as lições morais e os valores embutidos nos roteiros são sempre os mesmos: superação, aceitação, bondade, respeito e persistência. Absolutamente compreensível, dado o público para o qual esse formato é normalmente direcionado. Mesmo com isso, as animações têm essa magia de nos prender e encantar, embora já saibamos o que esperar de praticamente todo o filme, inclusive do final.

Esse parágrafo explicativo tem como utilidade embasar o meu argumento para falar de “Aviões” (2013), mais recente produção da Disney, dirigida por Klay Hall, que, infelizmente, não possui as características inovadoras necessárias para essa surpresa e sedução que sempre esperamos das animações, por mais batidos que seus enredos possam parecer. Esperançosa, fui à sala de cinema mais próxima ver “Aviões” em 3D, apesar dos indicativos de a história não passaria de versão aérea de “Carros” (2006), também da Disney. Superestimando o trailer que já me alertava para não esperar muitas novidades, dei uma chance ao filme.

O enredo conta a história de Dusty, um avião simples e sem muitos aparatos técnicos, que trabalha pulverizando plantações. Seu ambicioso sonho é participar de corridas internacionais, ao lado de alguns dos mais famosos competidores, mas seu medo de altura e a própria composição impedem que esta vontade se torne realidade. Sabendo do sonho de Dusty, um amigo (Chug) busca a ajuda de Skipper, um reservado e rígido avião que, devido a um acidente no passado, não consegue mais voar. Depois de muita insistência por parte de Dusty, que parece firme e decidido em seu objetivo, Skipper aceita ser o seu mentor e começam os treinos para a grande competição.

Na verdade, os indícios estavam corretos: “Aviões” não é muito diferente (nem mesmo em composição gráfica) de “Carros”. Acrescentando aspectos de “Turbo” (Dreamworks, 2013), não há mais nada de  novo no roteiro assinado por Jeffrey M. Howard. O personagem principal tem inclusive a mesma personalidade do caracol de jardim do filme da Dreamworks, e também existe o contexto da competição, quase impossível de ser ganha, e dos amigos que prestam suporte moral, apesar dos personagens opositores que surgem na história. Do universo de “Carros”, além dos personagens e da história de superação, podemos tirar também as piadinhas de cunho mecânico, sempre presentes no longa.

Amigos de Dusty que o acompanham na jornada em busca do seu sonho

Apesar disso, não se pode dizer que “Aviões” não seja um bom filme. Tecnicamente falando é excelente (afinal, estamos falando da Disney), apesar de não haver grandes momentos que justifiquem o uso do 3D. A história é agradável, mas repetitiva se o espectador tem o hábito de ver animações. Os personagens também passam longe da originalidade, mas cativam. Trata-se de um filme simpático, mas certamente se tornará entendiante para aqueles que já assistiram às demais produções citadas nesse texto, ou a outras que sigam a mesma linha de pensamento.

Há quem diga que o fato de “humanizar” as máquinas (não há pessoas no filme, convém dizer, todos os personagens são máquinas que trabalham, vivem, se comunicam e são responsáveis por suas próprias ações) é um aspecto negativo para as animações, considerando a valorização que já tem se dado naturalmente às tecnologias e maquinarias do dia-a-dia. Pessoalmente, gosto da perspectiva (irreal, óbvio) de que carros, aviões e coisas tenham sentimentos. Considerando o exacerbado grau de consumismo em que a sociedade se afunda ultimamente, talvez isso possa ajudar a estimular não o apego, mas um cuidado maior com o que consumimos. E, vamos admitir, quem nunca viu, quando criança, olhos nos faróis de um carro, ou brincou de determinar as expressões que cada automóvel teria, se fosse “vivo”? Não sei você, leitor, mas eu já fiz isso inúmeras vezes. Então, na minha cabeça, não é uma ideia tão estranha ou desastrosa a de carros e aviões terem vida num mundo fictício.

FICHA TÉCNICA

 

Aviões/Planes (2013)

Gênero: Animação

Direção: Klay Hall

Roteiro: Jeffrey M. Howard

Elenco: Anthony Edwards, Brad Garrett, Brent Musburger, Carlos Alazraqui, Cedric the Entertainer, Dane Cook, Gabriel Iglesias, John Cleese, Julia Louis-Dreyfus, Priyanka Chopra, Roger Craig Smith, Sinbad, Stacy Keach, Teri Hatcher, Val Kilmer

Produção: John Lasseter

Trilha Sonora: Mark Mancina

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