13 de dezembro de 2013. A gritaria foi grande nas redes sociais, mas não se tratava de outro meme do tipo “rei do camarote”. Sem qualquer boato ou vazamentos, nessa data a cantora Beyoncé lançava seu quinto álbum de inéditas – estilizado como BEYONCÉ – pelo iTunes. A estratégia deu certo e a estrela de Houston vendeu 800 mil cópias pelo mundo em apenas três dias, surpreendendo a todos.

Todos, sim, porque a fascinação não ficou reservada aos fãs, que há dois anos aguardavam pelo CD, mas a subversão ao modo tradicional de apresentar um disco agradou também a críticos e aos demais interessados pela indústria do entretenimento. Além dessa peculiaridade no lançamento, Beyoncé causou ao incluir videoclipes ao material de seu álbum: algumas das 14 faixas foram divididas em duas, totalizando em 17 os vídeos divulgados pela cantora norte-americana. “Grown Woman” aparece como uma espécie de vídeo bônus.

Capa do quinto álbum de inéditas de Beyoncé

Capa do quinto álbum de inéditas de Beyoncé

Em linhas gerais, “BEYONCÉ” revisita vários temas abordados superficialmente em outros álbuns, como o empoderamento feminino (presente na letra de “Run the World”, do álbum 4, de 2011) e a sexualidade feminina (presente na letra de “Naughty Girl”, do seu primeiro CD solo, “Dangerously in Love”, lançado em 2003). O álbum autointitulado, contudo, fala de uma maneira mais franca sobre esses assuntos e distingue-se dos outros por convidar os ouvintes a conhecer o âmago da cantora sem a interferência de alter-egos ou codinomes (como é o caso de I am…Sasha Fierce, de 2008).

Beyoncé lançou prévias de 30 segundos para cada vídeo em sua página oficial no YouTube. Para matar a curiosidade de nossos leitores, entretanto, listamos abaixo o que há de melhor (e o pouco que há de pior) no quinto álbum de inéditas da diva norte-americana:

Pretty Hurts

O CD abre com uma música mais lentinha, na qual Beyoncé demonstra que consegue segurar algumas notas em tom agudo, assim como a cantora que a inspirou – Mariah Carey – faz. Como o próprio nome da faixa indica, a letra de “Pretty Hurts” (A beleza dói, em tradução livre) critica a obsessão para alcançar o padrão de beleza criado pela indústria cultural e as práticas que podem ser perigosas para a saúde, como o excesso de cirurgias plásticas e a bulimia. No clipe, a cantora norte-americana encarna uma figura impiedosamente cobrada para alcançar esse modelo: uma miss. A interpretação de Beyoncé – aliada a letra da canção – nos dá a entender que a miss está no meio de uma crise existencial, confirmada quando questionada, no meio do concurso, sobre qual é o seu objetivo de vida. Foi uma boa escolha para abrir um álbum tão pessoal, mas ainda não revela o que há de melhor nesse CD.

Beyoncé encarna uma miss com crise existencial em "Pretty Hurts".

Beyoncé encarna uma miss com crise existencial em “Pretty Hurts”.

Haunted/Ghost

Essa é a melhor música do álbum, na minha opinião. A faixa começa com batidas de techno industrial que logo se misturam à voz de Beyoncé – grosseiramente alterada para o grave – que não canta, mas solta frases como se fosse uma rapper. Dessa vez, a cantora desabafa sobre a indústria do entretenimento, criticando-a nesse tom: “All these record labels boring, I don’t trust these record labels I’m touring (Todas essas gravadoras são chatas, eu não confio nessas gravadoras, estou em turnê). No clipe, sem muitas estripulias, o destaque vai para a cantora se contorcendo em um pano branco, que a prende da cabeça aos pés e a impede de realizar grandes movimentos e até mesmo de enxergar.

No CD, “Haunted/Ghost” estão numa só faixa, mas a cantora decidiu dividi-la em dois clipes independentes. Em “Haunted”, o vídeo lembra trailers de filmes de terror, mas esse clima vai sendo rapidamente substituído por um contexto sensual, principalmente quando Beyoncé – de cabelo estilo “Joãozinho” – chega como uma diva ao hotel onde estão as pessoas grotescas. Quando a cantora começa a percorrer o corredor principal – fazendo a linha voyeur – a música se inicia, acompanhada por toques de piano. A batida acelera e os hóspedes esquisitos começam a simular cenas de sexo. Assim vai até o final do clipe. Nesse sentido, as imagens ajudam a perceber que a letra discorre sobre a tênue diferença entre o assombro e a atração sexual. E é lógico, em se tratando de sexo, que Beyoncé tenha se inspirado em Madonna. Entre as referências à carreira da Material Girl, citamos os clipes de “Hollywood”, “Express Yourself” e “Justify my Love”.

Clima de suspense e sensualidade compõe o clipe de "Haunted".

Clima de suspense e sensualidade compõe o clipe de “Haunted”.

Drunk in Love

Uma declaração de amor do jeito que o marido gosta: com uma batida de pegada black. Essa é a proposta de “Drunk in Love” (veja aqui o clipe completo), que conta com a participação de Jay-Z. A presença dele é indispensável na carreira de Beyoncé, participando – ao menos – de uma canção em todos os CDs da cantora. Aqui, as rimas de Jay deixam a música empolgante, mas não o suficiente para ser considerada um single. Mesmo assim, “Drunk in Love” está se saindo muito melhor no Hot 100 da BillBoard do que a primeira música enviada às rádios, “XO”. O videoclipe é bem simples, mostrando o casal – um dos mais bem sucedidos da história da música – comemorando mais um prêmio conquistado por Beyoncé numa praia deserta. De uma maneira bem sensual.

beyonce-jay-z-drunk-in-love

“Drunk in Love” é o single mais recente do álbum

Blow

Grandes nomes da música pop/eletrônica, como Daft Punk, Madonna e Kylie Minogue, têm investido em um retorno às décadas de 70 e 80. Beyoncé não poderia ficar de fora desse seleto grupo e faz isso na gostosa faixa “Blow”. O videoclipe confirma essa tendência, com muitos elementos desses anos: pista de patinação, neon, luz negra e muitas cores. Essa música tem todas as qualidades para se tornar o terceiro single do álbum.

Beyoncé resgata vários elementos da década de 70 no clipe de "Blow"

Beyoncé resgata vários elementos da década de 70 no clipe de “Blow”

No Angel

Na letra, o eu lírico se assume ciumento, mas o amado também não é “nenhum anjo” e, por mais incrível que possa parecer, as características problemáticas os unem. Quanto à voz, Beyoncé impressiona os ouvintes com um timbre superagudo. Nesse quesito, pode-se afirmar que ela não fica longe de Mariah Carey, diferenciando-se desta por ser negra e mais sensata. O clipe foi gravado na periferia de Houston, cidade onde cresceu. Nele, Beyoncé mostra os habitantes dessa parte da cidade e seus pertences, batendo na tecla da ostentação: muitos carrões e dentes e cordões de ouro. E claro que não podia faltar o dinheiro. Muito dinheiro também compõe o vídeo de “No Angel”.

Em "No Angel", Beyoncé volta para a cidade onde nasceu, Houston, no Texas

Em “No Angel”, Beyoncé volta para a cidade onde nasceu, Houston, no Texas

Partition/ Yoncé

Ao contrário de Anitta, Beyoncé não é meiga e abusada. Beyoncé é só abusada. Esta é a impressão que os ouvintes terão do rap “Yoncé”, composto por muitas gírias e frases que não desgrudam da cabeça de quem ouve, como: “Yoncé all on his mouth like licquor” (Yoncé toda na boca dele como licor, em tradução livre). No vídeo, um verdadeiro esquadrão da moda – formado por Joan Smalls, Jourdan Dunn, Chanel Iman, que são top models, e Beyoncé – espalha sensualidade pelo cenário urbano no qual o clipe foi gravado. Todas chupam pirulitos, desfilam e uma delas chega a lamber o seio de Beyoncé. A cantora se destaca das demais por fazer o twerk, movimento dos quadris popularizado por Miley Cyrus, com um maiô bem pequeno.

O clipe de “Partition” começa com uma inocente refeição em casal. Jay-Z está distraído, lendo o jornal, e Beyoncé o encara, cheia de pensamentos libidinosos. O começo deste clipe é muito parecido com o vídeo “Sobre a mesa”, do Porta dos Fundos, em que a esposa faz a fatídica pergunta: “O que eu quero, Mário Alberto?”. Assim como Odete, Beyoncé quer sexo e assim mergulhamos em seus pensamentos mais sensuais. Há momentos de sedução no carro, uma cena de strip-tease e uma dança sedutora no poledance. Além disso, a letra de “Partition” tem um recado – em francês – para os homens: Les hommes pensent que les féministes détestent le sexe, mais c’est une activité très stimulante et naturelle que les femmes adorent (os homens pensam que as feministas detestam sexo, mas é uma atividade muito excitante e natural que as mulheres adoram). Sem dúvida, é o melhor clipe do projeto “Visual Álbum” e uma das melhores músicas do CD.

"Partition" é uma música que convida o ouvinte ao sexo

“Partition” é uma música que convida o ouvinte ao sexo

Jealous

O clipe é a continuação de “Partition”. A ambientação é a mesma do vídeo anterior. Beyoncé se levanta da mesa e revela estar preocupada com o amado chegando em casa cada vez mais tarde e sem avisar. Como a letra indica, a cantora incorpora uma mulher ciumenta, com as estereotipadas cenas em que destrói tudo o que vê pela frente ou nas quais vai atrás do marido à noite. A letra, contudo, é a continuação de “If I were a boy”, pois são vários os versos em que Beyoncé assume que gostaria de estar no lugar do homem e vice-versa. A batida de “Jealous” já começa bem forte e se acelera até o final da canção. Além disso, foram mixados a ela alguns gritos tensos que lembram o último trabalho de Kanye West, “Yeezus”. Em resumo, esta música surpreende os ouvintes.

Possessa, Beyoncé vai atrás do marido em "Jealous"

Possessa, Beyoncé vai atrás do marido em “Jealous”

Rocket

Sem dúvida, o clipe mais sensual de toda a carreira de Beyoncé. O vídeo, todo gravado em preto e branco, percorre em planos detalhe várias partes do corpo da cantora: boca, barriga, seios e bunda. A própria Beyoncé também comanda esse clipe sensual, com as suas mãos passeando pelo corpo, puxando a calcinha e ajeitando a camiseta branca molhada. Sua voz também acompanha a letra, que é bastante direta: “Tell me what you’re going to do with all of this ass all up in your face” (Diga-me o que você vai fazer com toda essa bunda todinha na sua cara). A batida R&B mais lentinha, contudo, não evoca tanta sensualidade quanto “Partition” e “Haunted”.

"Rocket" é, sem dúvida, o clipe mais sexy da carreira de Beyoncé

“Rocket” é, sem dúvida, o clipe mais sexy da carreira de Beyoncé

Mine (feat. Drake)

Na letra, Beyoncé e Drake são um casal que não conseguem aparar suas diferenças e acham que tudo está sendo levado longe demais. A música começa com uma batida calma, durante a qual aparecem dançarinos balançando tecidos brancos e pretos em movimentos delicados, lembrando estátuas renascentistas. Também há uma alusão ao “Dedo de Deus”, outra referência do Renascimento. Após uma percussão, a batida vertiginosamente se acelera e os dançarinos executam passos de dança mais ligeiros. O cenário passa a ser um deserto, que – algumas vezes – dá lugar a Beyoncé e Drake aparecendo em flashes, ambos trajando roupas metálicas. São muitos os efeitos especiais nesse clipe surrealista. Uma faixa estranha, assim como o clipe dedicado a ela, mas que agrada aos olhos e ouvidos.

Referências clássicas estão presentes no clipe "Mine", que conta com a parceria de Drake.

Referências clássicas estão presentes no clipe “Mine”, que conta com a parceria de Drake.

XO

“XO” (veja aqui o clipe completo) é uma música que pode muito bem ser aproveitada em comerciais porque sua batida prende na cabeça das pessoas. No refrão, um coro acompanha a voz da cantora norte-americana e, por isso, pode ser considerada também um hino. A letra e a batida parece mergulhar nas nossas lembranças para resgatar aqueles momentos mais positivos da nossa vida, mesmo que Beyoncé tenha utilizado – no começo de “XO” – um trecho do áudio registrado pelo ônibus espacial Challenger, minutos antes da tragédia que matou os sete tripulantes, em 1986. É o primeiro single do álbum autointitulado e, aqui no Brasil, ainda não foi superado por “Drunk in Love”. Falando em Brasil, Bey selecionou uma cena do show no Rock in Rio para compor o clipe da música, que a mostra – alegre e simpática – utilizando várias atrações de um parque de diversões. Clipe e música mais contagiantes do CD.

"XO" é o clipe com clima mais divertido

“XO” é o clipe com clima mais divertido

***Flawless (Feat. Chimamanda Ngozi Adichie)

Um desabafo. Em “***Flawless”, Beyoncé responde aos críticos que a acusaram de machista, quando um trecho dessa música foi divulgado em março e mandava suas inimigas se curvarem frente às conquistas dela. A cantora virou o jogo e produziu uma música com um discurso militante fortíssimo. A carta na manga de Beyoncé foi incluir parte do discurso magistral da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em que convoca todos a lutarem pela igualdade entre os sexos. “Ensinamos as meninas que não podem ser seres sexuais da mesma forma que os meninos são. Feminista é a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”, declara a artista em meio às fortes batidas da canção. No clipe, mais um com fotografia em preto e branco, uma rápida coreografia coabita no mesmo espaço que uma roda punk, que nos faz lembrar a moda “grunge” do começo dos anos 90. Abrindo e fechando o vídeo, um arquivo que contém seu grupo infantil – Girls Tyme – em uma competição com uma banda masculina. Mandou muito bem, Beyoncé!

Grunge e militante: essas são as características de "***Flawless"

Grunge e militante: essas são as características de “***Flawless”

Superpower (feat. Frank Ocean)

O clipe é muito bem produzido, com um tema que bem ilustra o ano que passou no Brasil: manifestações “violentas”. Conta com participação de Frank Ocean, rapper famoso por ter se assumido homossexual, e de suas companheiras no Destiny’s Child, Kelly Rowland e Michele Williams. Nada disso, entretanto, consegue deixar “Superpower” no mesmo nível das outras faixas. Pelo contrário, ela nem deveria ter entrado no CD, pois letra e batida são completamente desarmônicos. Versos simbólicos – como “The laws of the world tell us what goes sky and what fall It’s a super power” (As leis do mundo nos dizem o que sobe e o que desce; É um super poder) – são misturados a uma base que lembra a infantil abertura da série Glee! Mandou muito mal, Beyoncé!

"Superpower": Beyoncé é uma manifestante black-block

“Superpower”: Beyoncé é uma manifestante black-block

Heaven

Acompanhada pelo som lento e dramático que sai de um piano, a letra de “Heaven” é a mais bonita do CD. O clipe produzido pode ajudar a interpretar a letra que, de acordo o diretor do vídeo, Todd Tourse, é uma homenagem a uma grande amiga de sua mãe, que morreu de modo fulminante.

Imagens de enterro e choro são as mais recorrentes no clipe de "Heaven"

Imagens de enterro e choro são as mais recorrentes no clipe de “Heaven”

Blue

Gente como a gente. A ótima balada “Blue” mostra o cotidiano de Beyoncé com sua filha, Blue Ivy Carter, nos momentos livres durante uma série de shows no Brasil, alternando essas imagens com belas cenas do nosso país e do nosso povo. E é claro, os momentos em que a cantora ensaia o passinho que entrou para a história do Rock in Rio ou quando ela bate uma bola com crianças também entraram para o vídeo. É um retrato que se espera de um “gringo” quando visita o Brasil: belezas naturais, favelas, samba/carnaval e a alegria dos brasileiros, independente das adversidades. Mas não é por isso, entretanto, que não se deve considerar o vídeo como um belo e sensível registro.  Além de Trancoso, na Bahia, as gravações foram realizadas na Lapa, em Copacabana e em São Conrado – bairros badalados do Rio de Janeiro.

Mãe: Beyoncé enche de carinho sua filha, Blue Ivy, durante as folgas da turnê no Brasil

Mãe: Beyoncé enche de carinho sua filha, Blue Ivy, durante as folgas da turnê no Brasil

Grown Woman

Basicamente constituída por imagens da cantora dançando na infância e adolescência com colegas irmãs e amigas, intercaladas com ela vestida de rainha nos dias atuais. É a faixa certa para substituir o fenômeno que foi “Single Ladies”, por causa do andamento acelerado, da percussão forte e do toque africano. A letra também é autoafirmativa e decreta que Beyoncé é uma mulher crescida e pode fazer o que quiser.

Beyonce-Grown-Woman-Music-Video-Preview1 "Grown Woman": faixa-bônus tem todos os elementos para repetir o fenômeno "Single Ladies".

“Grown Woman”: faixa-bônus tem todos os elementos para repetir o fenômeno “Single Ladies”

One Response

Deixe um comentário

Your email address will not be published.