Nascido em Campina Grande, no estado da Paraíba, o desenhista Mike Deodato Jr. se destacou no cenário mundial  ao fazer trabalhos para a poderosa empresa de quadrinhos Marvel Comics, mas iniciou sua carreira ainda na Paraíba com alguns trabalhos publicados com bastante dificuldade. Nós realizamos uma entrevista com esse importante nome para os quadrinhos contemporâneos e o resultado você confere abaixo:

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O CHAPLIN – Inicio com uma pergunta que sempre me gerou grandes curiosidades. Acho que seu maior exemplo foi seu pai Deodato Borges, que diga-se de passagem, foi um dos grandes quadrinistas do Brasil e um dos pioneiros na Paraíba, lançando em 1963 “O Flama”. Pode-se dizer que seu expoente para iniciar sua carreira veio de seu pai? Em algum momento no início de sua carreira ele tentou lhe fazer mudar de ideia ou ele sempre esteve do seu lado em todas as fases de seu trabalho?

DEODATO – Meu pai foi minha maior inspiração, sim. Meus pais sempre me apoiaram em tudo que quisesse fazer e isso foi importante pra mim.

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O CHAPLIN – Quais são suas principais influências para a criação do seu traço e suas influências estéticas e narrativas?

DEODATO – Minhas maiores influências são Neal Adams, Dick Giordano, Berni Wrightson, Will Eisner, Frazetta e Jim Steranko. Ao longo do tempo também sofri influência de um grande número de outros artistas. Estou sempre estudando minha arte e aberto a novas influências. Minha arte cresce desta maneira, acredito.

O CHAPLIN – Recentemente adquiri  uma de suas obras, “Terra Em Fogo”, se eu não me engano lançado nos anos 80. Nele pude perceber um traço bastante realista, uma história que tinha como principal mote a seca que sempre foi um dos principais problemas do sertão paraibano. Também vemos ali impregnada a cultura sertaneja paraibana sem recorrer ao estereótipo. Como foi para você desenvolver o livro? Teve muitas dificuldades para lançar tendo em vista que o coronelismo ainda era algo bastante forte nos anos 80? Qual foi sua principal influência para o desenvolvimento de “Terra em Fogo”?

DEODATO – O texto é de meu pai, tudo que fiz foi traduzir pro papel o que ele escreveu. As dificuldades para publicação eram as mesmas de hoje em dia: as editoras interessadas eram poucas e pagavam muito mal. Meu objetivo foi um traço que passasse todo o sofrimento da seca, por isso optei por um estilo com bastante contraste.

O CHAPLIN – A Paraíba foi um estado que se destacou na produção de quadrinhos, tanto que revelou grandes talentos e ótimos quadrinhos, mas eu lembro que durante o período que abrange anos 60 até 80, o Brasil passava por um boom em sua produção, destacando, em 1960, Ziraldo, que já tinha passado por vários jornais, mas que de fato lançou seu primeiro quadrinho exatamente em 1960. Seu pai foi o pioneiro aqui na Paraíba, lançando “O Flama” em 1963. Ainda temos Laerte Coutinho, entre outros. Existia troca de experiências entre artistas do Sul/Sudeste com artistas locais naquela época?  Houve alguma espécie de intercambio?

DEODATO – Era difícil, sem internet e com o alto preço de ligações interurbanas, mas havia a troca de ideias e de fanzines via correio. Aqui na Paraíba era mais fácil e sempre nos encontrávamos.

O CHAPLIN – Outro dia adquiri um exemplar de “American Splendor” e em uma das páginas me deparei com uma espécie de dedicatória de Laerte Coutinho falando da importância dessa revista em para o surgimento do quadrinho “Piratas do Tiete”. Eu queria saber se você também teve alguma influência de Robert Crumb ou Harvey Pekar? E se era de fácil aquisição naquela época (início de sua carreira) conseguir materiais tanto do underground americano como também as graphic novels de Will Eisner?

DEODATO – Não tive influência, mas era um leitor ávido de quadrinhos underground. Fanzines e revistas alternativas como a Animal, entre outras, eram fáceis de achar.

O CHAPLIN – Hoje Campina Grande lança um quadrinho chamado “Sanitário” que traz desenho de vários artistas campinenses. A última revista foi lançado em parceria com a “Marca de Fantasia” (editora de João Pessoa). Você já leu essa revista e também mantem contato com algum artista local?

DEODATO – Conheci através do amigo Ricardo Jaime, um dos colaboradores. Mantenho contato com vários artistas locais e procuro fazer o possível pra incentivar a produção local.

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Deodato na FliQ (Feira de Livros e Quadrinhos de Natal) do ano passado

O CHAPLIN – Uma parte do seu sucesso inicial na Marvel se deve aos traços e à forma incomum para a época, um bom exemplo foi a forma como você retratou a Mulher Maravilha durante a época que você trabalhou para DC., dando a ela curvas e músculos salientes, o que deu certo e hoje é usado por vários desenhistas em várias personagens femininas. Porque você quis retratar mulheres dessa forma e qual foi sua inspiração para isso?

DEODATO – Não foi uma decisão consciente, planejada. Era simplesmente o jeito que eu via a personagem. Eu estava no começo da carreira, cheio de energia, jovem e isso se refletiu em minha arte.

O CHAPLIN – Existe algum personagem que você gosta de desenhar mais que os outros? Se sim, por quê?

DEODATO – Gosto de personagens mais orgânicos, selvagens. Acho que devido à minha admiração por Frazetta.

O CHAPLIN – Para finalizar queria saber se há projetos futuros tanto na Marvel quanto autorais?

DEODATO – Este ano estarei desenhando o evento de 2014 na Marvel, que é o “Original Sin”. Uma minissérie de oito números que sai a partir de Maio. Do lado autoral, comecei um novo blog chamado “Quadros”, onde estou publicando quinzenalmente histórias autorais inéditas.

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