Do rap ao pop e vice-versa: Conheça Yan Cloud

É engraçado pensar que quando começamos a falar sobre a música baiana, ou a música produzida, sobretudo em Salvador, lembramos do Axé Music. De fato, não é problema para mim ou para a maioria dos soteropolitanos se orgulhar em dizer que nasceu nesta terra. É claro que existem os “conservadores musicais” que tendem a acreditar que o gênero não é “música de verdade”, mas a pergunta é: O que é MÚSICA DE VERDADE?

Indo por essa linha de raciocínio chegamos a um ponto nevrálgico sobre os estilos regionais e indo mais além… a nível nacional. Em outro momento contei para vocês a musicalidade de Nêssa, que tem se mostrado uma artista bastante versátil e que na última sexta-feira (10) lançou a sua aposta para o Carnaval. Nesse mesmo single, como no de 2017 “Que Calor!”, temos um nome em comum: Yan Cloud. 

Yan Soares da Silva ou “Cabelo Quadrado Mais Foda da City”, como se intitula, segue os passos ancestrais da música baiana dentro da sua sonoridade. A capital das misturas evoca esse sentimento também no artista que dentro da sua discografia tende a misturar ritmos, para chegar em novos sons, mais rítmicos, sensuais e envolventes.

Yan, por sua vez, já tinha chegado aos meus ouvidos há bastante tempo. Lembro que curti bastante o som que eu escutei dele, uma parceria com outro sotero, Faustino Beats, a faixa se chama “Chato”. Ao chegar em Nêssa, automaticamente cheguei no Yan, e foi a partir disso que comecei a acompanhá-lo no Instagram e escutar os seus sons. Até que fiz um convite, ainda no ano passado, para uma entrevista para a Revista Pagu:

Revista Pagu: Em uma entrevista que você deu em 2016, ano do lançamento do seu primeiro ep Alívio, você diz que a sua principal referência é Emicida. O rapper paulista ainda é uma grande referência pra você nos últimos trabalhos lançados?

Yan Cloud: Emicida ele sempre vai ser! Mas atualmente Gloria Groove tem sido a minha maior referência. Porque ela tem essa pegada de ter começado no Rap e tá indo pro Pop, mesmo sem perder a essência do Rap. Então, eu acho, que atualmente ela é minha maior referência.

RP: ‘Muito Má’ é um dos seus trabalhos mais diferentes dentro da sua carreira. Por que você decidiu dar uma mudada no estilo de som que você tava acostumado a fazer?

YC: Eu sempre gostei de outras paradas e sempre quis misturar! Mas o meio que eu andava, o ciclo que eu andava, não favorecia isso porque eu só conhecia produtores de Trap, Rap. Então, quando eu comecei a conhecer gente, tipo Zambelli e Renkai que produzem uma pegada com funk e pagode e tal. Então, eu pude ter essa produção e eu comecei a me jogar mais assim. Tem muitas outras coisas que eu to fazendo que é fora da linha quadrada do Rap.

RP: Um tema bem recorrente em suas lovesongs como: “Malva”, “My Dream” e “Sete Bilhões” é o amor afrocentrado. Atualmente, como você enxerga o amor preto na sociedade?

YC: Obrigado por observar isso! Eu sempre gosto de falar isso, porque eu acho importante exaltar o relacionamento afrocentrado, assim como a autoestima preta! É como Rincon fala na música dele “Pretos e pretas estão se amando”. Acho que nessa geração tombamento, nessa geração mais militante que tá tendo agora tá muito mais evidente relacionamentos afrocentrados e muito mais comum. Então, eu acho que é isso! Tamo evoluindo e logo menos vai ter só relacionamento afrocentrado nessa bagaça e filhos pretos nascendo. Nada de palmitagem.

Isso fala muito também sobre o que eu tenho de relacionamentos. Eu me relaciono com mulheres pretas, já ocorreu de me relacionar com mulheres brancas e foi algo bem traumatizante. Mas é meio que vivência, tá ligado? De coisas que eu já vivi, coisas que eu quero viver, coisas que eu almejo viver no relacionamento afrocentrado.

Yan Cloud na Virada Salvador 2019. Foto: Jefferson Peixoto/Secom PMS

RP: Por ter uma grande influência do Rock e do Samba por parte dos seus pais, você pensa em misturar os gêneros ao Rap em próximos trabalhos? 

YC: Rapaz… então, “My Dream” é meio que um blues assim também, né? Tinha que ter um sample de blues. Eu tava ouvindo muito Janis Joplin na época, então isso já foi uma das misturas que eu tentei fazer com coisas que eu ouço por influência de meu pai. Ele sempre ouviu Janis Joplin também, Guns N’ Roses etc e tal.

“O rock tem raiz preta, o samba tem raiz preta, o rap tem raiz, o funk tem raiz preta. E todos os estilos vieram da periferia, a grande maioria. Então eles conversam entre si, acho que a gente não deve limitar o que é o que!”

Eu não consegui fazer um blues, óbvio. Mas eu tentei dar uma misturada. Tem alguns sons que eu planejo fazer, que eu já escrevi. To usando muita referência de Cazuza, tanto nos versos quanto na forma de cantar puxado pro rasgado do Rock. Então já tá rolando, eu não lancei ainda e nem sei se vou lançar, mas eu já estou experimentando. Do Samba, minha mãe canta samba, eu tenho um som antigo que até tirei do ar, na verdade, que é “Insanamente” que ela canta o refrão, mas sim eu tenho vontade de fazer um som com ela na minha vibe recente pra ver como é que sai, mas eu não descarto a possibilidade de fazer esse samba não!

RP: O cenário de Salvador tem mudado e novos ritmos como o pop e o rap têm se criado por aqui. Você acha que os incentivos públicos e privados na disseminação têm acontecido na capital?

YC: Eu acho que tá fazendo movimentar bastante. Agora a cena do rap e do pop ainda é um selo independente. Os eventos independentes são criados pela galera com vontade de fazer uma festa e colocar para tocar quem eles gostam. Tipo Rio Vermelho e Pelourinho. Acho que isso ainda assim é o que tá fazendo girar mais “engajamento” entre a galera. Porque o governo em si só bota pra tocar quem já está grandão, né? Algumas ressalvas como a Virada Sustentável que teve apoio da Prefeitura. São eventos que deram espaço para muitas pessoas. Aos poucos eles estão percebendo que os ritmos periféricos vão alcançar grandes coisas e sei lá, investindo a pequenos passos. Mas eu boto fé que ano que vem (2020) e para os próximos anos vai ser uma parada muito maior.