Em algumas coisas, parece que o tempo não passou. Já faz 50 anos desde o primeiro lançamento do filme “Bonitinha, mas Ordinária”, mas a crueza com a qual Nelson Rodrigues revela a podridão da conservadora classe média brasileira ainda choca. Evidentemente, alguns aspectos entre as gerações mudaram, especialmente no que se refere a uma aparente e atual liberalização. O argumento do roteiro ainda deixa os espectadores dessa nova geração de cabelo em pé, mesmo que novos elementos tenham sido inseridos na releitura do diretor natalense Moacyr Góes (“O Homem que desafiou o Diabo”, “Maria – Mãe do filho de Deus”). Mas, se os integrantes das novas gerações pudessem ter acesso ao texto original ou aos outros filmes produzidos nas décadas de 60 e 80, perceberiam que essas novas características tornaram a versão moderna de “Bonitinha, mas Ordinária” um tremendo fracasso.

Em linhas breves, “Bonitinha, mas Ordinária” apresenta a história de Edgard (João Miguel), um homem humilde que, depois de ser procurado por Peixoto (Leon Góes), genro do milionário Werneck (Gracindo Júnior), precisa tomar uma séria decisão: aceitar uma proposta milionária de um casamento de conveniência com Maria Letícia (Letícia Colin), a filha do seu patrão, ou se entregar à paixão pela esforçada Ritinha (Leandra Leal). O casamento é proposto para ocultar o fato de que Maria Letícia, filha de Werneck, fora estuprada por cinco negros, uma ferrenha crítica à classe média carioca no que se refere aos seus valores e ao preconceito racial.

Os valores de Edgar são postos à prova: casa-se por interesse com Maria Cecília ou tem o verdadeiro amor de Ritinha

Logo no primeiro minuto de filme já é possível notar as escolhas incorretas de Moacyr Góes: a principal cena é trazida para o ambiente do funk carioca. Até aí, tudo bem… O problema reside no modelo de edição adotado: no melhor estilo “melodrama de novela das 8”, o filme apresenta a sequência mais impactante com velocidade de câmera alternada (velocidade normal X câmera lenta). Os sons também são suprimidos em algumas partes. Certamente, Góes queria mostrar uma violação cruel, mas o tiro saiu pela culatra. Se tivesse dado maior realidade à cena, os espectadores ficariam muito mais impactados. Outra sequência de grande intensidade, a da orgia promovida pelo dr. Werneck, é outro deslize, pois também foi editada da mesma maneira.

Outro problema também é o desperdício do elenco. Embora haja grande intenção nisto, Leandra Leal e Letícia Colin estão exageradamente abobalhadas. Vale lembrar que Letícia está fazendo um papel que coube a Lucélia Santos, incessantemente reconhecida pela versão da década de 80. Mesmo assim, a atriz mais jovem não se sai mal nas cenas de nudez e de sexo. João Miguel, mesmo premiado pelo papel no 17 Cine PE, apenas convence; Gracindo Júnior até que desperta bem o Werneck asqueroso e sem escrúpulos do texto de Nelson Rodrigues. O único ator com excelente atuação é Leon Gomes, fazendo de Peixoto uma personagem completamente surpreendente, sendo o único capaz de enganar de forma convincente público.

Moacyr Góes também não brilha na condução da película, optando pelo excesso de closes e tornando essa nova versão um filme enfadonho durante as cenas menos impactantes. São poucos os elementos que ambientam a trama à cidade do Rio de Janeiro, mas a última cena – um amanhecer na Praia de Copacabana – é bonita de se ver. De acordo com crítica veiculada no site Pernambuco.com, a vista do cemitério do Caju é de “encher os olhos”. Eu discordo. O crítico que vos fala, carioca da gema e morador do decadente bairro de São Cristóvão por 15 anos, vizinho do referido cemitério, dificilmente reconheci de que se tratava do famoso local.

Maria Letícia: uma jovem de classe média alta estuprada por negros num baile funk se casa por conveniência

No fim de tudo, até o texto do nosso anjo pornográfico fica sem nexo. A frase de Otto Lara Rezende, “o mineiro só é solidário no câncer”, brilhantemente colocada na peça para demonstrar o egoísmo e a ausência de valores da classe média, martela, equivocadamente e a todo o instante, na boca das personagens Peixoto e Edgar, fazendo com que eu concorde com a crítica do site Adoro Cinema – que afirma que a famosa frase é transformada “numa espécie de mantra que percorre toda a narrativa”. Vale lembrar que a nova versão foi filmada e dirigida em 2008 e apenas em 2013 é que chegou ao circuito, ainda que restritivamente às principais capitais brasileiras. Alegou-se empecilhos legais e no decorrer da produção. Sendo assim, Goés teve um tempo bastante razoável para tornar seu filme uma adaptação mais interessante. Não aproveitou. Para os espectadores fãs da literatura rodrigueana, fica a impressão de que o nome é apenas uma mera coincidência, de tão díspar que essa adaptação ficou da obra original.

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