Livros e HQ’s: Um papo com o especialista em quadrinhos Marcelo Bolshaw

Eu creio que muitas pessoas se inciaram pelo mundo da leitura com os quadrinhos, aqui, no Brasil, A Turma da Mônica deve ter sido esse pontapé inicial. Mas, com o passar do tempo, as pessoas vão se distanciando dos quadrinhos, “é coisa de criança”, provavelmente alguém já disse isso.

Para falar sobre o assunto, batemos um papo com o professor da UFRN, Marcelo Boshaw, que é coordenador do Núcleo de Estudos sobre Animação e Histórias em Quadrinhos (NEAHQ) e tem mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1998), especialista em Marketing político e persuasão eleitoral (2003, PUC/RS) e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2006). Ele que diz que autores como Alan Moore, Frank Miller, Neil Gaiman colocam os quadrinhos no patamar da literatura. Bolshaw complementa fazendo indicações desses autores para aqueles, que querem adentrar no mundo dos quadrinhos “Alan Moore (V de Vingança, Watchmen, From Hell), Neil Gaiman (Sandman) e Frank Miller (300) – são os melhores e mais conhecidos”.

Mas quais são as características dessa linguagem dos quadrinhos? E como ela se diferencia do cinema e da literatura? “A narrativa ser visual e gráfica. O audiovisual não é gráfico e, no texto escrito não é visual. Pelo fato de ser gráfico, as HQ tem mais possibilidades de passar informação objetiva que o cinema; e pelo fato de ser narrativa visual, ela tem mais capacidade de passar informação subjetiva (olhares, gestos, postura) que a literatura”, diz Bolshaw.

A HQ Maus é uma das mais aclamadas da história, foi o primeiro quadrinho a ganhar o prêmio Pulitzer. O autor, Art Spiegelman, conta a história de seu pai, que sobreviveu ao Holocausto. Na obra, os judeus são representados como ratos e os alemães como gatos.

“É coisa de criança” como eu disse antes, mas será que são? “Claro que não. Os quadrinhos surgiram na forma humor crítico da política e da vida cotidiana. Depois surgiram os quadrinhos eróticos. O público infantil é bem posterior, embora eles tenham se tornado predominantes. Hoje existem as ‘graphic novels’ com temas adultos com qualidade literária e tem um público de elite intelectual” responde Marcelo.

Graphic Novel foi um termo criado por Will Eisner, para diferenciar histórias com temáticas adultas. Eisner é um dos maiores na área, o nome do prêmio máximo dos quadrinhos é em sua homenagem, prêmio Eisner.

Os quadrinhos ainda são uma arte menosprezada e discriminada? Por quê? “Segundo pensadores como Sartori e Flusser, porque eles diminuem a capacidade de abstração, gerando pessoas menos capazes. Isto em parte é verdade. Mas, são as configurações sociais que determinam o uso que se faz das linguagens. O audiovisual e as HQs poderiam ser usadas para aumentar a capacidade cognitiva e não para diminuí-la”.

Em relação ao mangá, estilo de quadrinhos orientais, Bolshaw ficou bastante empolgado. “Essa pergunta renderia outra entrevista. O mangá (e o animê) estão influenciando as narrativas ocidentais (inclusive o cinema), provocando uma convergência de gêneros narrativos. Suas caraterísticas podem ser vistas nas expressões faciais das crianças brincando de Pokemon ou de BayBlade. Hoje, 60% do mercado editorial do japão é em quadrinhos: manuais técnicos, livros escolares… praticamente tudo é convertido em quadrinhos para ampliar o campo de leitura. Nos países de grande tradição oral, como o Brasil, o mesmo fenômeno pode acontecer. Basta que haja vontade política para apostar nessa direção”.

Ainda no quesito da educação, perguntamos se as HQ’s podem ser usadas como ferramenta educacional? E de alienação? “Qualquer coisa pode servir para educar ou alienar, depende da intenção do leitor. A televisão sofre do mesmo drama. Eu me alfabetizei antes de entrar na escola por causa de histórias em quadrinhos. Depois, como não havia mais conexão entre a escola e os quadrinhos, eles passaram a me atrapalhar. A sociedade é que formata a educação e alienação” .

Durante muito tempo, os quadrinhos americanos foram usados como um meio de difusão ideológica. Isso ainda existe nos dias atuais? “Claro. Toda arte é veículo subliminar de difusão ideológica. Hoje existem inclusive quadrinhos que desmascaram criticamente o caráter ideológico de outros quadrinhos. A defesa de interesses claramente territoriais, no entanto, vai na contramão da globalização das culturas e a propaganda ideológica aberta está se tornando cada vez mais sutil”.

Finalizamos a entrevista perguntado que obras ele indicaria para aquelas pessoas que insistem dizer que quadrinhos não é arte. A resposta é ótima : “Não é meu costume insistir com quem não quer me ouvir”.