Lançado em março de 1999 nos Estados Unidos e dirigido por Kimberly Peirce, Boys don’t cry conta a história de Teena Brandon (Hilary Swank), mulher travestida que se autonomeava Billy. Em apuros por causa de uma série de pequenos furtos cometidos, brigas em bares e garotas magoadas, Billy se vê obrigado a abandonar seu nome masculino, seu primo Lonny (Matt McGrath) e a cidade em que vive para fugir da polícia e encontrar um pouco de calmaria em meio à confusão que era sua vida. Agora se chama Brandon e decide sair de Lincoln para Falls city, mas ao conhecer Lana (Chloë Sevigny), sua vida nunca mais é a mesma.


Hilary Swank como Brandon Teena.

É um filme violento e confuso, com requintes de crueza repulsiva ao deixar claro que se baseia em fatos reais. Sua trilha sonora é intensa e melancólica, mas também muito intimista e com a mesma sensação de haver algo desnudo diante dos nossos olhos e ouvidos. Entre as várias canções presentes no filme, há uma que também se chama Boys don’t cry, da banda inglesa The Cure, e foi utilizada na cena em que Lana tira Brandon da prisão feminina, tornando-a muito marcante por causa da letra: […] I try to laugh about it/ Cover it all up with lies/ I try to laugh about it/ Hiding the tears in my eyes/  ‘Cause boys don’t cry/ Boys don’t cry […] (Eu tento rir disso/ Cobrindo tudo com mentiras/ Eu tento rir disso/ Escondendo as lágrimas em meus olhos/ Pois garotos não choram/ Garotos não choram).


Lana e Brandon logo após o último sofrer violência sexual.

Brilhante em Menina de Ouro (2005), todo o esforço de Hilary Swank para interpretar Brandon foi compensado com o seu primeiro Oscar de melhor atriz e também com um Globo de Ouro, mas penso que poderia ter sido mais intensa em relação ao personagem. Era uma mulher que se sentia no corpo errado, e não uma homossexual, como o roteiro deixa bem explícito, então acho sim que deveria haver um Brandon mais másculo que o apresentado, uma vez que a atriz possui traços muito femininos, mas igualmente apaixonado, humilhado, envergonhado, agredido e violentado. Diminuir sua inocência e aumentar sua raiva, pois ele tem razão. Chloë Sevigny, por sua vez, fez uma atuação impressionante em seu papel de coadjuvante, chegando a ser indicada pelo Oscar. A atriz mostrou a dualidade da personagem através do rosto de menina contrastando com longas unhas vermelhas e pontudas, seu quarto mobiliado infantilmente se opondo a uma moça que amadureceu muito rápido e o fato de ser o desejo de vários homens da cidade se choca com o amor que sente por Brandon, mesmo depois de descobrir que o corpo do namorado é feminino. Chloë sempre nos lembra que Lana é menina e mulher ao mesmo tempo, nos fazendo prestar atenção também nas transformações internas que a namorada de Brandon sofre ao longo da trama.

Boys don’t cry é acima de tudo, um filme que busca sensibilizar acerca das consequências que o preconceito pode trazer a um indivíduo. Brandon era uma mulher com crise de identidade sexual, e a sua busca por amor, por si mesmo e por um lugar para chamar de lar custou a sua morte graças a um grupo de pessoas que não conseguiam aceitá-lo como era. Quem assiste ao filme fará inúmeras perguntas sobre a orientação sexual do casal, mas não deixará de sentir raiva por tudo que sofreram, sairá com uma nova concepção do que é o travestismo e o transsexualismo em uma sociedade que não aceita esses gêneros, e se é necessária toda a onda de violência que acometeu Brandon e Lana.

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