Carolina Jabor estreia nas telonas com elenco de grife e roteiro pujante

Como fazer um drama sem cair no pecado do exagero? Como trabalhar um romance sem desaguar num dramalhão piegas? Esses foram os desafios enfrentados e superados com sucesso pela cineasta Carolina Jabor, que estreou “Boa Sorte”, seu primeiro longa metragem, há duas semanas, com roteiro competente dos pai e filho Jorge e Pedro Furtado, e os pedigrees de Cássia Kis Magro, Déborah Secco e Fernanda Montenegro no elenco.

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Déborah Secco é o grande destaque da obra

O enredo que se desenrola de forma competente durante uma hora e meia conta a história de João (João Pedro Zappa), um adolescente com uma série de problemas comportamentais: sentindo-se ignorado pelos pais, torna-se dependente químico e é diagnosticado com depressão, então seus familiares decidem interná-lo em uma clínica psiquiátrica. No local, ele conhece Judite (Deborah Secco), paciente HIV positivo e também dependente química, em fase terminal. Apesar do ambiente hostil, os dois se apaixonam e iniciam um romance. Judite, no fim de sua curta vida, é o primeiro amor da vida promissora de João, que precisa aprender a lidar com a intensidade do que sente. Já Judite, apesar de inconsequente em sua vida, é a mais madura da relação e luta contra os seus sentimentos para manter João distante do sofrimento que o relacionamento de ambos pode causar.

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“Boa Sorte” tem um enredo que poderia acarretar na mais piegas das narrativas, mas os roteiristas e a diretora surpreendem com um filme dinâmico, vivo, com a dosagem certa de humor e cenas criativas. O conjunto da obra é tão bem integrado, que se torna difícil apegar-se a um ou dois elementos que sobressaem. Apesar disso, cito aqui a fotografia inventiva e a trilha sonora heterogênea e certeira como um dos pontos mais fortes do filme.

Déborah Secco, que na TV faz papeis aquém de seu talento, no cinema cada vez mais se prova uma atriz competente, que se utiliza do seu corpo como apenas uma ferramenta que corrobora com a sua indiscutível capacidade de atuação e sensibilidade artística. Para compor sua personagem, Judite, a atriz emagreceu bastante e deu sua “reputação” ao tapa novamente em cenas em que ela aparece nua e ao novamente fazer no cinema uma personagem que passa longe do conceito de “boa moça”. Valeu a pena. Judite é apaixonante.

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Fernanda Montenegro e Déborah Secco

Já João Pedro Zappa, que teve com “Boa Sorte” o seu primeiro grande papel nas telonas, não foi a melhor escolha para o personagem. O ator tem carisma, mas faltou expressividade e não convenceu no papel em questão, parecia sempre sustentado por uma Déborah Secco monstruosa, com o melhor da semântica que podemos extrair dessa palavra. Fernanda Montenegro, por sua vez, que interpreta a vó de Judite, é muito mais grife que necessária. Sua personagem fica desenquadrada em seu largo currículo e a impressão que fica é que contratá-la para essa atuação não passou de um surto de ostentação.  Contudo, Fernanda Montenegro é sempre bem vinda e cumpre as tarefas com competência acima da média.

Utilizando de metáforas, de um humor de bom gosto, de diálogos inteligentes e de cenas divertidas, o filme trata temáticas polêmicas, como sexo, drogas, relacionamentos familiares, doenças mentais e DST’s, com a leveza que se faz necessária na abordagem desses temas, mas que nem sempre é alcançada. Outro aspecto a se chamar atenção é o cuidado com pequenos feitos estéticos que agradam o espectador. Um exemplo é a inserção de animação ao fim da obra quando temos acesso ao diário desenhado de Judite. Um belo trabalho!

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Quando entrei na sala para ver “Boa Sorte”, tinha certeza que sairia quarenta quilos mais pesada. Aquela sensação que você sente ao assistir a um filme denso, que você precisa de dias para digerir. Felizmente, apesar das lágrimas que não consegui segurar, estava enganada e saí da sessão com a grata sensação de leveza, algo bem próximo do clichê do “Carpe Diem” (“aproveite o dia”). Um bom exemplo da deleitosa safra de maravilhosos filmes da pós-retomada do cinema nacional.

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