Carrie – A Estranha: remake desnecessário não inova e nem cativa

Em entrevista, a atriz Chloë Moretz disse, após sofrer bullying virtual por encarnar a nova Carrie, que não tinha qualquer intenção de ser Sissy Spacek (a Carrie do filme original de 1976), que a diretora do filme, Kimberly Peirce, não tinha pretensão de imitar Brian De Palma e que Julianne Moore (que interpreta no remake a fanática mãe de Carrie) também não almejava ser Piper Laurie (a Mrs. White original). Em resumo, a jovem atriz afirmou que a equipe desejava fazer algo novo. Bem, é uma pena constatar que o desejo dos envolvidos com o remake baseado em uma das obras do mestre do suspense literário Stephen King foi em muito pouco alcançado. A grande inovação de um filme para o outro resume-se em dois aspectos: a temporalidade, já que a história, agora, se passa nos dias atuais, e os efeitos que, obviamente, foram melhor produzidos, 37 anos depois.

Chloe Moretz;Chloe Moretz Merchandising

Para os desinformados, Carrie conta a história de uma adolescente que descobre ter poderes telecinéticos. Apenas esse fato daria uma ótima história de uma super heroína mirim, não fosse o fato de que Carrie é criada por uma mãe extremista e radicalmente religiosa, e ainda é motivo de chacota na escola devido aos seus hábitos tímidos e pouco sociáveis. Carrie deseja enturmar-se, mas o processo de torna difícil quando se há anos de bullying acumulados. Trocando em miúdos, “Carrie” é uma história de vingança e das graves consequências que tratar mal o seu coleguinha podem acarretar. Os piores filmes com temática sobre bullying e tiração de onda dos últimos vinte anos não alcançam os pés do rancor acumulado de Carrie White, que provoca uma verdadeira chacina na festa de formatura da escola após ser banhada com sangue de porcos.

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Chloë Moretz e Julianne Moore são destaques no elenco da produção

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Comentários infames à parte (é quase impossível não fazê-los com esse roteiro), vamos ao que interessa. Em um mesmo dia assisti aos dois filmes. Decidida a conferir a nova versão com a talentosa Chloë Moretz, jovem atriz que acompanho e muito admiro, não queria ir aos cinemas com uma visão virgem desse clássico do suspense colegial. Imediatamente consegui na internet o filme de 1976 e assisti antes de ir à sessão. Achei o filme interessante, um tanto curioso, principalmente as interpretações de Sissy Spacek e a atriz que interpreta Margaret White, Piper Laurie. Contudo, a nível de produção e roteiro, achei o filme mediano, para não dizer fraco, em respeito aos fãs de plantão. Uma hora e meia depois, estava eu na sala de cinema ansiosa por assistir a nova Carrie. E, acreditem, a minha percepção de um filme para um outro não mudou em absolutamente nada.

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Um remake deve se fazer relevante para justificar a sua produção. Geralmente esse diferencial vem da visão apurada do diretor que assume o desafio, de uma inovação técnica realmente importante, ou talvez de mudanças no próprio roteiro. Nenhuma dessas características foram reproduzidas no filme assinado por Kimberly Pierce, competente diretora que encabeçou a produção que deu o primeiro Oscar a Hilary Swank, o intrigante Meninos Não Choram (1999).

É bem verdade que o remake, em alguns momentos, tenta aprofundar mais a história. Um grande exemplo disso é a cena inicial, quando mostra Mrs. White (Julianne Moore) tendo um bebê, a pequena Carrie, momento que não existe no primeiro filme. Contudo, as más impressões do filme já começam daí, visto que a produção da cena em questão é fraca, chegando a ser cômica para os espectadores com olhar crítico mais apurado e maior senso de humor. Os poderes de Carrie também são melhor abordados, bem como a relação com a colega Sue Snell, interpretada pela fraca Gabriella Wilde. Também seria injusto não elogiar as interpretações de Julianne Moore e Chloë Moretz que, mesmo jovem, já tem a graça e competência de uma veterana. Moretz não tem a mesma estranheza que Sissy Spacek, característica fundamental para alguém que se propõe a ser Carrie, mas compensa com seu talento, na minha opinião, superior ao da primeira Carrie. As outras atuações se distribuem entre simpáticas e ruins. E os elogios já podem parar por aqui.

A produção de “Carrie” deixa a desejar em vários momentos, embora consiga superar a do original (com o adendo de que estamos em 2013, então isso é mais do que esperado). Alguns celulares, tecnológicos e gírias nos situam em uma versão moderna da história, e o sangue do “banho” é realmente muito mais convincente. Mas se a intenção é que essa nova contextualização justificasse o remake, penso que o objetivo não foi atingido. O filme é praticamente em sua totalidade uma cópia perfeita, com direito a sussurrar falas totalmente reproduzidas da primeira versão para a colega do lado.

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A impressão que fica é que “Carrie” é mais um produto da atual falta de criatividade dos roteiristas hollywoodianos e que o orçamento investido no remake poderia ser tranquilamente aproveitado em outra produção mais inovadora, ou menos desnecessária.

Chloë Moretz, Julianne Moore e a diretora
Chloë Moretz, Julianne Moore e a diretora Kimberly Pierce