Com uma carreira curta e eficiente, Christopher Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge) conquistou respeito em Hollywood e muitos fãs pelo mundo, dois elementos que o permitem ousar cada vez mais. O cineasta tem hoje autonomia para realizar projetos à sua maneira sob a confiança de seus investidores, o que lhe permitiu inverter características de sua narrativa em seu novo projeto.

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Em Interestelar (Interstellar), a humanidade sofre com escassez  de comida e tempestades de poeira, problemas causados por uma praga. Ao descobrir que a NASA busca, clandestinamente, um novo planeta para salvar os humanos, o ex-piloto Cooper (Matthew McConaughey de Clube de Compras Dallas) é convocado a liderar uma equipe de cientistas numa viagem por outra galáxia em busca de um novo lar. Porém, essa missão afetará sua família, principalmente sua filha Murph (Mackenzie Foy de Invocação do Mal), com quem tem uma forte relação.

Antes mesmo da estreia, o filme já chamava atenção. Para atender o gordo orçamento de U$165 milhões, a Warner Bros. cedeu à Legendary Pictures prioridade em produções do selo DC Comics em troca de financiamento de 25% do orçamento total e cedeu à Paramount, com quem dividiu os 75% restantes do orçamento, a distribuição da película nos E.U.A. e os direitos de co-produção da franquia Sexta-Feira 13 e de um longa da animação South Park.

O roteiro de Jonathan Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas) havia sido idealizado para a direção de Steven Spielberg (Lincoln). Quando o diretor desistiu do projeto, Christopher Nolan assumiu e reescreveu com Jonathan, seu irmão. A produção respeita ao máximo a Teoria da Relatividade e demais conceitos físicos abordados além de se basear nas teorias do físico Kip Thorne, que prestou consultoria ao filme.

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A pequena Mackenzie Foy e o experiente Matthew McConaughey são destaques no filme

Em mais um trabalho soberbo, o compositor Hans Zimmer (O Homem de Aço) utiliza notas melancólicas traduzindo a solidão da missão da equipe de Cooper além de se apoderar das cenas mais dramáticas. No espaço, a música combina com o silêncio proporcionado pela edição de som. Já as equipes de efeitos visuais e direção de arte fizeram ótimos trabalhos juntas.

Com o máximo de cenários que o orçamento permitiu construir, a ambientação é sempre crível. A teima de Christopher Nolan em usar efeitos práticos fez toda a diferença. Abrindo mão do rotineiro chroma key, o diretor recorreu à forma antiga de fazer cinema e utilizou técnicas de projeção. O resultado foi espetacular, já que, para os atores, ver o cenário surte mais efeito que idealizá-los.

O elenco é irrepreensível. Timothée Chalamet (Homeland) e Casey Affleck (O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) se mostram discretos como as respectivas versões jovem e adulta de Tom, filho de Cooper. Na ala veterana, John Lithgow (Planeta dos Macacos – A Origem) e Michael Caine (Truque de Mestre) são seguros e convincentes. Já Anne Hathaway (Os Miseráveis) se mostra deslocada mesmo com uma atuação muito boa. A atriz dona de um grande talento se apodera da Dra. Brand, mas lida com uma personagem aquém de suas qualificações.

Anne Hathaway como Dra. Brand

Anne Hathaway como Dra. Brand

Os destaques são Mackenzie Foy e Matthew McConaughey. A pequena demonstra muito talento e emociona com o amor de Murph por seu pai. Foy cria um elo tão forte que a experiente Jessica Chastain (A Hora Mais Escura) foi favorecida com o terreno bem preparado ao dar vida à versão adulta e ressentida de Murph. O oscarizado McConaughey acrescenta mais um grande trabalho em seu currículo. Com maturidade, o astro é dono da interpretação mais fascinante do filme, seduzindo a plateia em todas as suas cenas e brilhando nos momentos dramáticos. Gerando ótima química com todos com quem contracena, o texano cria vínculos até com as máquinas TARS (Bill Irwin de O Casamento de Rachel) e CASE (Josh Stewart de Transcendence – A Revolução) além de ser peça fundamental na narrativa escolhida por Nolan.

Mais uma vez, Christopher Nolan entrega um produto onde, mesmo com um elementos sublimes, nada se sobressai ao peso e a imponência da história. O talentoso diretor orquestra buscando sempre o realismo e sem deixar de recorrer aos temas comuns de suas obras: o limite, o amor e a relação entre pai e filho.

Jessica Chastain interpreta a versão crescida de Murph Cooper

Jessica Chastain interpreta a versão crescida de Murph Cooper

Foi assim em Amnésia (Memento), quando Leonard precisou lutar contra seus limites mentais para vingar a esposa assassinada, na trilogia do Cavaleiro das Trevas, quando Bruce Wayne enfrentou a animosidade do homem após sofrer a perda dos pais, e em A Origem (Inception), quando um pai sobrevive ao limbo psicológico para poder rever seus filhos. Se anteriormente a emoção era vista sob o olhar da racionalidade, o cineasta usou aqui a razão através da emotividade. A “emoção racional” deu lugar à “razão emotiva”, e McConaughey foi essencial ao fazer um pai adentrar o obscuro desconhecido do universo só por amor aos filhos.

Interestelar traz a magia do cinema em suas entranhas. Trabalhar o coração fez bem a Nolan, que cativa e emociona a plateia com três ou quatro cenas de fazer chorar. Vi o filme por duas vezes, saindo mais encantado da segunda vez, e cheguei à conclusão que filmes feitos com alma e coração não podem sofrer meros julgamentos técnicos, seria uma atitude suja e egoísta. Se o cinema se faz de um aglomerado de pessoas dividindo o mesmo espaço para sentirem uma mesma sensação, não há nada mais justo que considerar o filme e, acima de tudo, a experiência. O cinema é muito mais que acertos e tropeços. Se for ver o filme, faça-o de mente e coração abertos, pois blockbusters também sabem ser arte, Nolan que o diga!

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