Cidade Baixa: exagero nas cenas de sexo torna roteiro escorregadio

No contexto da cinematografia nacional contemporânea, é bastante comum que filmes apresentem o lugar onde a trama se desenrola como um elemento diegético bem atuante. Como um determinismo geográfico, isso pode ser bem observado em obras como “Cidade de Deus” (2002) e “Febre do Rato” (2012), esta última já criticada no blog. A tendência é que esses filmes sejam bem recepcionados pela crítica. “Cidade Baixa” (2005), contudo, encaixa-se no clichê de que “toda regra tem sua exceção”. A produção baiana acompanha uma stripper (Karina – Alice Braga) e dois homens que fazem fretes marítimos, os amigos Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura) a partir do cotidiano dos moradores da Cidade Baixa, região de Salvador tomada pela insalubridade, prostituição e violência para onde as três personagens se dirigem. No caminho, Naldinho é esfaqueado ao apostar todo o dinheiro de um frete numa rinha de galos, obrigando-os a chegar em Salvador o mais rápido possível.

É nesse contexto que a atração sexual entre eles cresce, possibilitando a formação de um complicado triângulo amoroso.

Triângulo amoroso entre as personagem de Alice Braga,  Lázaro Ramos e Wagner Moura

Em geral, analisando os atributos técnicos, “Cidade Baixa” é um filme bem interessante. A fotografia foi bem utilizada para diferenciar os pequenos centros urbanos abordados no começo do filme da região do baixo meretrício na capital Salvador. Além disso, nos momentos de tensão, a câmera focaliza os rostos das bem interpretadas personagens e volta a um recurso amplamente utilizado no Cinema Novo: a câmera na mão, infligindo mais apreensão no espectador. Outros aspectos que colaboram para manter a atmosfera inquieta – ideal para um filme que quer destacar uma relação entre três pessoas com características bem fortes num ambiente excruciante – são a edição de som, a iluminação e a direção coerente de Sérgio Machado.

Quanto ao elenco, “Cidade Baixa” é primoroso. A famosa dupla Lázaro Ramos e Wagner Moura está, em mais uma atuação conjunta, afinadíssima. Dessa vez, os dois atores co-protagonizam com Alice Braga, interpretando de maneira convincente Karina, uma stripper da noite baiana, o que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio de 2005. Nesse papel, a jovem atriz prova que o mesmo sobrenome da tia Sônia Braga é um mero detalhe.

Filme exagera na quantidade de cenas de sexo

O problema mesmo é o roteiro: não se resume ao fato dele trabalhar várias mensagens paralelas, mas sim que não é dada uma devida atenção ao aprofundamento dessas mensagens, fazendo com que o espectador se perca. Isso é ainda mais impulsionado pela quantidade exagerada das cenas de sexo, mesmo que o locus do filme seja região conhecida pela libertinagem. Dentre as ideias que o filme expõe, pode-se perceber a importância da amizade entre as personagens, única mensagem bem modelada; a crítica à banalização da violência e da prostituição, o que já não está devidamente explícito, levando o espectador a inferir isso pelo apelo visual; e as atitudes maniqueistas de Naldinho (Wagner Moura, o mau e aproveitador) e Deco (Lázaro Ramos, o bom e conciliador). Diante do parco desenvolvimento dessas histórias, tem-se a impressão de que o filme resume-se à disputa de dois homens pela mesma mulher. Creio que a intenção do diretor Sérgio Machado tenha sido além dessa, mas não fica muito claro a quem está assistindo ao filme.

“Cidade Baixa” não é um filme ruim, mas peca ao não corresponder às expectativas-chave do espectador, que é acompanhar um filme com um roteiro mais aprofundado. Uma situação lamentável diante do contexto de bons filmes que vem sendo feitos no Brasil, especialmente no circuito mais underground.