Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral – O cinema pertence a todos

Cine Holliúdy 2, que estreia esta semana em Natal, é um filme que possui camadas (como uma cebola, ou ogros). Em seu nível mais superficial, temos uma comédia charmosa, baseada nos personagens típicos de muitas pequenas cidades não apenas do Ceará, mas também do Brasil – o sonhador, o valente, o bêbado, o louco, a devota, etc. Não se pode deixar de notar, contudo, que existe muito mais em análise no filme, algo que talvez passe despercebido para muitos, mas que dá uma profundidade e que transforma o filme de uma simples comédia em uma belíssima carta de amor ao cinema, feito já outrora realizado pelo diretor Halder Gomes no filme que antecede a franquia, cuja crítica deste veículo pode ser lida aqui. Não pelos olhos dos privilegiados que conseguem acessá-lo a todo instante, mas daqueles que valorizam e apreciam qualquer filme em que  conseguem encostar suas mãos. Eu não tenho dúvidas de que há por trás da idealização do filme muita pesquisa séria e real propósito que formam a base no qual a história é construída.

Em primeiro lugar, não se acanhe pelo fato do filme ser uma sequência: se perdeu o original, você ainda conseguirá apreciar o segundo. O início do filme nos apresenta a Francisgleydisson e sua família, donos de um cinema na cidade de Pacatuba no Ceará, obrigados a fechar as portas do estabelecimento. A popularização da televisão levou ao fim de vários cinemas populares em cidades pequenas e em Pacatuba não foi diferente – e, como em muitas cidades, o cinema ali também dá lugar a uma Igreja Evangélica. Forçado a viver com a sogra, sem pretensão de se mudar para cidade grande, e endividado com o valentão local, Francis tem uma ideia: fazer um filme de ficção científica, vender ingressos e assim conseguir pagar a dívida e voltar a sustentar a família. Ah, e tem também alienígenas. Há uma onda de bêbados e pessoas feias sendo sequestradas por alienígenas. Isso é importante. Mas não muito.

Aliens? Aliens. Que tipo de Aliens? Menos explodindo o bucho e mais explorando o buraco da goiaba, como diriam os personagens do filme.

Esta trama abre espaço para os encontros e desencontros esperados nesse tipo de comédia que segue a tendência atual do renascimento do cinema brasileiro: humor fácil e acessível e que tem atraído muitas pessoas ao cinema. Mas há algo a mais em Cine Holliúdy. Ocupam a tela não atrizes e modelos-de-Instagram, mas pessoas normais, tão reais e cotidianas quanto os expectadores do filme. Tanto que quando uma típica modelo/atriz global loira de olhos claros aparece no filme, ela é literalmente a representação de um alienígena. Nada mais apropriado. Os diálogos  se afastam da linguagem artificial televisiva, que domina também o cinema nacional, abraçando plenamente um vocabulário cotidiano – claro, buscando sempre abusar dos eufemismos e expressões cômicas que fazem parte da cultura nordestina. Parte da premissa do filme é justamente o dialeto “cearensês” falado, que em contraste com as legendas gera algumas das melhores risadas do filme.

E as risadas estão lá, para todos os gostos. Os mais atentos irão rir das referências sutis à investigações da lava-jato, crowdfunding, ou às cenas de luta em Scott Pilgrim contra o Mundo (90% de certeza dessa). Mas há também espaço de sobra para piadas mais óbvias explorando estereótipos homossexuais, cacoetes, políticos corruptos, religiosos mal intencionados, etc., etc., com algumas páginas extraídas diretamente dos manuais do antigo Zorra Total.



Mas verdade seja dita, este tipo de humor televisivo foi tradicionalmente informado por humoristas nordestinos (como Chico Anysio); talvez, então, isso esteja mais apropriadamente pensado como uma representação original. E é justamente isso que irá trazer o grande público representado no filme. Afinal, não é este o ponto?

Representatividade acaba sendo uma palavra de ordem no cinema atual, com expectadores cada vez mais conscientes e cobrando uma paleta de cores mais criativa na tela. Isso também abre espaço para muitos jovens diretores e escritores (os “mentirosos” homenageados no filme) trazerem suas histórias para o grande público. E, em sua essência, Cine Holliúdy é um filme sobre isso: pessoas convocadas a deixar um papel de consumidores para o de produtores de histórias, contando com ajuda não de grandes produtoras, mas de pessoas comuns.

É o século XXI, povo. Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça faz mais sentido do que nunca.

Se antes o processo de filmagem era bem mais caro e árduo (alugar câmeras, comprar filme…), a popularização de tecnologias faz com que cada pessoa tenha em seu bolso um equipamento inicial básico para começar a contar as suas próprias histórias. Qualquer celular de médio mercado irá proporcionar uma imagem em Full HD. Diz muito quanto diretores como Stevie Soderbergh começam a reconhecer e incentivar isso – o diretor filmou seu último filme para o Netflix inteiramente com iPhones.

Isso tem sido um horror para puristas fanáticos pelo celuloide (como Chris Nolan e Tarantino), mas revela uma tendência sem volta e que irá abrir espaço para que muita gente criativa possa trazer seu trabalho para o grande público. Nós não somos mais os americanos imaginários, como definiu Veríssimo, mas pessoas capazes de contar nossa versão do cotidiano. Eu só realmente espero que não desperdicemos isso fazendo vídeos de banheira de nutela.