Gordofobia e a cambaleante tentativa de inclusão da Netflix

Já faz algo em torno de uma década que o filme Hairspray – Em Busca da Fama (2007) balançou alguns paradigmas internos de cinema que eu sedimentava por aqui. Hairspray é um musical, desses bem coloridos, coreografados, com elenco de peso, músicas que fixam na cabeça, finais românticos e figurinos lindinhos. A julgar apenas pela forma, é um desses filmes que crescemos assistindo, e cuja experiência é sempre seguida do pensamento “Só no cinema mesmo…”. O tipo de película produzida para provocar sonhos e iludir.

O que o tornou tão marcante (além da minha confessa paixão por musicais)? O fato da protagonista ser uma garota gordinha, autoconfiante, que adora dançar e sonhar alto, e cuja atriz era até então desconhecida. Nada de mulheres etéreas e inatingíveis. Era eu – bem ali na tela, chegando tão longe quanto eu queria chegar e internamente acreditando que não conseguiria.

Hairspray (2007)

Hairspray era um em mil e eu sabia que teria que buscar por muito tempo nas fileiras de DVD’s das finadas locadoras para encontrar outro filme em que o meu biotipo fosse contemplado. Acontece que recentemente a Netflix parece ter tomado para si a missão de democratizar o ser humano e tem saído uma embaixadora razoável na tarefa de colocar gordinhas à frente das câmeras, como protagonistas. Isso aconteceu, nos últimos meses, com as filmes com pegada adolescente Dumplin’ (2018), e Sierra Burgess is a Loser (2018) e a comédia romântica (um pouco mais de comédia que de romance) mais recente, Megarromântico (2019).

Esses filmes têm em comum o fato de terem protagonistas acima do peso, algumas inclusive obesas, que conseguem, contra todas as estatísticas, ser bem sucedidas profissionalmente, participar de concursos de beleza, chamar atenção do colega bonitinho, ter uma vida sexual ativa e, principalmente, terem amor próprio. Além disso, elas têm em comum o fato de que, em todos os filmes, esses lugares são atingidos com certa estranheza, como se a mensagem do filme fosse “a sociedade diz que vocês não conseguem, mas vocês também são merecedoras disso tudo”. E é exatamente aí que reside o problema.

Megarromântico (2019)

Apesar da boa intenção da rede de streaming, o tom de “caridade” continua ali. As protagonistas são sempre apresentadas como alguém estranha, submetidas a uma visão dura da sociedade e de si mesmas, unicamente por seu peso. E a saga do filme é justamente desmistificar essa posição. Daí, sempre me vem aquele incômodo. Ela não deve poder ser bem sucedida na vida, apesar de ser gordinha. Ela pode ser bem sucedida. Ponto. 

Nenhuma mulher magra é retratada como se, por alguma razão, não merecesse ou não fosse capaz de atingir o sucesso em algum aspecto por ser magra. Por que as gordas não podem ter um romance, uma vida profissional, e autoestima sem que o holofote recaia sobre o seu tamanho? Sem que o foco do roteiro seja esse? Ao que parece, o lugar que nos tem sido oferecido nas telas ainda é o da tolerância e não o da verdadeira inclusão – que levaria a um olhar carregado de normalidade e ausente de julgamentos.

Sierra Burgess is a Loser (2018)

Já é algo bom que possamos nos ver na tela. Mas continuo aguardando ansiosa pelo filme em que a gordinha possa ser a líder de torcida desejada; a garota interessante da escola; a digital influencer badalada; a mulher com vida sexual ativa; a executiva não caricata – sem apesares, mas porque não só é possível, como é normal.