Desde o seu nascimento, a Sétima Arte sofre de uma relativa carência de originalidade, salvos os termos da expressão. Explico. Sendo o cinema o exibido filho prodígio da fotografia, em muito “saiu” à sua mãe. Técnicas, formatos, ângulos e enquadramentos foram herdados, mas nem só de imagem sobrevive a arte da narrativa em vídeo.

Muitos filmes “primários” beberam da fonte da literatura, por exemplo, para seus enredos e, daí, começaram as relações de parentesco entre o cinema e as outras artes. Como exemplo, podemos citar o filme “A Viagem À Lua” (1902), de George Méliès, baseado no clássico literário de Julio Verne, “Viagem ao redor da lua”. Relações semelhantes o cinema travou com a pintura, a história e o teatro, como as várias adaptações de textos dramáticos de Shakespeare e ainda os enredos baseados na história da francesa Joana D’Arc, que rendeu ao cinema as mais diferentes e peculiares recontagens (vide versão de Besson, 1999, de Dreyer, 1928, e Duguay, 1999).

Cena de “A Paixão de Joana D’Arc” (Dreyer, 1928)

Com o tempo, o cinema atingiu maturidade suficiente para buscar referências em suas próprias produções e os filmes começavam a construir uma longa linhagem de parentescos. Como em toda família, nessa relação existe desde o primo inconveniente e a tia chata até o patriarca sábio e o filho talentoso.  Obviamente, refiro-me a tipos diversos de referências às quais o cinema faz, que podem classificar-se desde o plágio descarado, até uma sincera homenagem em uma cena da narrativa, passando é claro, pelas famosas releituras dos remakes.

Na maioria dos casos, os plágios desonestos partem da oportunidade de pegar uma história pouco divulgada ou conhecida, geralmente de um livro, e apresentá-la nas telonas, com elementos estéticos um pouco diferentes para tirar o foco da narrativa. Contudo, James Cameron, diretor do estimado Avatar (2009), se encontrou em situação difícil quando foi acusado de ter feito uma pequena fortuna com um enredo que pertencia originalmente a uma animação (que, supostamente, foi um fiasco), Delgo (2008).

Imagens: http://listadoscinco.blogspot.com.br

Já o filme “As aventuras de Hugo Cabret” tem referências diversas, mas a mais explícita é, de fato, ao filme “Viagem à Lua”, uma bonita homenagem ao cineasta Méliès. O mesmo aconteceu no filme “Laranja Mecânica” (1971), em que, à determinada altura, o protagonista, Alex, começa a cantar a música “Singin’in in the rain”, tema do clássico musical homônimo (1952). Basta isso para que entendamos o respeito do diretor Stanley Kubrick pela obra referenciada.

Por fim, há referências mais escrachadas, e nem por isso, menos dignas: os famosos remakes. Ao contrário dos plágios e referências sutis (que exigem um conhecimento prévio do espectador da obra “mãe”), esses deixam claro para quem assiste de onde partiu a sua ideia-chave, embora muitas vezes acabe tendo uma composição bem diferente do original. É o caso, por exemplo, das versões de A Fantástica Fábrica de Chocolates (Mel Stuart, 1964, e Tim Burton, 2005). Embora a narrativa mude em quase nada, é perceptível o esforço da versão de Tim Burton para diferenciar-se, sobretudo pela “plasticidade” e tecnologia presentes na obra.

Acima, versão de Tim Burton, e abaixo, versão de Mel Stuart

Assim, nos deparamos praticamente a cada produção com uma intertextualidade que perpassa não apenas o cinema, mas todas as outras oito artes e é no repertório prévio do espectador que reside a sua capacidade de compreender os elementos de um filme. A realidade é que, em cinema, “não existe nada que já não tenha sido dito” e cada filme, produto de uma bagagem de seu autor, referencia e reverencia a outros, ainda que de forma não-consciente.

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