Cinema e Intertextualidade: quando as artes dialogam entre si

Um espectador de cinema se torna um melhor leitor da sétima arte não só quando sua capacidade de entender um enredo é aguçada, mas na medida em que sua compreensão de mundo alarga-se e lhe permite compreender as referências que são feitas dentro da história.

Quando do surgimento do cinema, muitas referências eram feitas a outras artes, tais como pintura, literatura e teatro. Isso acontecia porque o cinema ainda estava formando o seu acervo próprio, e hoje já pode buscar referências dentro da sua própria história, embora não ignore por completo as outras oito artes.

Cinema e música possuem uma relação íntima, até mesmo amorosa. Imagem e som se completam na experiência cinematográfica e, geralmente, esse som está sempre atrelado a uma música, que pode ou não ser parte diretamente da narrativa. As trilhas sonoras, em geral, “combinam” com o momento do filme, mas muitas vezes se tornam secundárias na cena, visto que parecem estar sendo cantadas de um plano paralelo que não atinge realmente os personagens.

O contrário disso acontece, por exemplo, no filme “Laranja Mecânica” (1971), de Stanley Kubrick. Há uma cena em que o protagonista, Alex (Malcolm McDowell), invade uma casa e, após destruir o local, abusa sexualmente da esposa do dono da casa, que assiste a tudo imobilizado pelos colegas de Alex. Durante toda a cena, o personagem de Malcolm McDowell canta e dança a música “Singin’ in the rain”, tema do filme homônimo (Cantando na Chuva, Stanley Donen, 1952).

Cena do filme Laranja Mecânica, filmada por Kubrick

Para quem não conhece o filme, trata-se apenas de uma música qualquer. Para aqueles que já conhecem a obra protagonizada por Gene Kelly, entenderão o quando é cruel da parte de Kubrick remeter a um filme tão feliz e bonito em um momento tão denso de sua própria obra.

Cena do filme de Stanley Donen em que a música “Singin’ in the rain” originalmente aparece

Outro exemplo da relação de cinema e música é no filme francês “Amores Imaginários” (Xavier Dolan, 2010), em que, em um momento, os atores começam a cantar a música “Every Breath You Take”, da banda The Police, sem necessitar da ajuda de qualquer música de fundo. A cena é apenas a música sendo cantada de forma sutil e representativa, e assim é impossível não remeter à música sempre que lembrarmos da cena em questão.

Cena de “Amores Imaginários”

Já a relação com a literatura, por exemplo, é quase tão comum quanto. Frequentemente um personagem está lendo um livro, ou declara ter uma obra favorita pela qual, se o espectador prestar bem atenção, a personalidade ou ações da personagem se baseará durante a película. As citações de livros também estão sempre presentes. E, aqui, retomo que nada está em um filme por acaso ou por capricho. Tudo é cuidadosamente pensado para integrar a história e ser parte de um todo. Dessa forma, certamente, se o espectador tem um conhecimento prévio da obra literária mencionada, poderá compreender melhor o todo da obra fílmica.

Assistir a um filme é sempre uma experiência diferente. Isso porque nós somos pessoas e espectadores diferentes a cada dia, e o que nos diferencia é justamente a capacidade que só adquirimos com o tempo de entender as referências, sejam elas a outras artes ou não. Portanto, se você não entende uma história, há duas possibilidades: ou ela foi má contada ou você não possui – ainda – a bagagem suficiente para digeri-la. Então, o melhor a fazer é dar um tempo, ir viver, e experimentar assistir ao filme novamente em cinco ou dez anos – ou até mais, dependendo do filme.

Compartilhe

Andressa Carvalho
Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).
Picture of Andressa Carvalho

Andressa Carvalho

Jornalista, cinéfila incurável e escritora em formação. Típica escorpiana. Cearense natural e potiguar adotada. Apaixonada por cinema, literatura, música, arte e pessoas. Especialista em Cinema (UFRN) e Literatura, Artes e Filosofia (PUCRS).

Postagens Relacionadas

sala de cinema
Qual o futuro das redes de salas de cinema?
As salas de cinema vivenciam um limbo há praticamente um ano. À exceção de curtos espaços de tempo em...
89ab4dcc24d58e1c39f90f47df02d278b2407b12
A diferença entre crítica e teoria do cinema
Podemos dividir os estudos fílmicos em três práticas: histórica, teórica e crítica. Hoje irei me focar...

Deixe uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Revista Pagu
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.