O cinema, bem como a literatura e a música são artes que usam e abusam do tema amor em suas obras. Alguns filmes são exatamente o que nós, pobres mortais, tanto queremos sonhar e suspirar. Outros enredos já são menos fantasiosos e mostram entre corações partidos, mocinhos e casais que não deram certo, um pequeno retrato da realidade vivida por alguém e nós, espectadores, sofremos e sorrimos junto aos dramas vividos pelos personagens dos enredos e secretamente desejamos que nossos romances tenham sempre aquele final feliz.

E no fim, o feliz reencontro do casal com direito a neve em Paris. Cena: Alguém Tem Que Ceder (2003)

E no fim, o feliz reencontro do casal com direito a neve em Paris. Cena: Alguém Tem Que Ceder (2003)

A verdade é que tudo é muito poético, muito belo e também muito irreal. Certa altura da vida ouvi alguém dizer a seguinte frase: “o amor mais bonito é aquele que nunca se realizou de fato”, bem, platônicos que me desculpem, mas eu discordo completamente. O amor mais belo, real e sincero é o amor sentido, é o amor vivido, é o amor falível.

Quão lindo seria se todos os amores terminassem com um lindo beijo do belo casal de cinema e um “The End” que nos faz subentender que o final deles foi feliz, hã? Sei que você, leitor, já se pegou diversas vezes fantasiando com isso, e eu confesso que eu também, mas sempre passa!

A vida dá conta de nos ensinar que no mundo real as coisas não são tão lindas assim, às vezes o sentimento chamado amor é muito mais complicado do que se pinta nas telonas. Amar não é só dizer “Eu te amo” nos momentos de alegria, amar é sentir, é viver esse sentimento em ações, gestos de afeto, paciência, em cuidar do outro, em se preocupar, em muito mais do que só palavras.

A eterna expectativa que teimamos em sentir. Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt. 500 Dias com Ela (2009).

Nós somos falíveis, cheios de defeitos e cheios de manias. Quando apaixonados somos capazes de desejar, fantasiar e imaginar nosso parceiro tal qual a mocinha do cinema o faz com seu príncipe encantado, mas esquecemos de voltar a realidade após a sessão acabar e cremos piamente que o outro é exatamente aquilo que precisamos, que nos “completa”.

O momento de “deslumbramento” passa e para alguns aquilo que se vê na realidade, isto é, um ser humano de carne e osso, dotado de tantos defeitos e virtudes como só eu e você somos capazes, é suficiente e o sentimento permanece. Para outros, o fardo de descobrir que sua alma gêmea é mortal e humana não é suficiente e o suposto “amor” se esvai.

Às vezes a forma como amamos é que é toda pelo avesso, nos perdemos em labirintos de insegurança, angústia e frustração. Somos reféns dos sentimentos mais traiçoeiros, tentamos fuçar o celular, os e-mails, a caixa de mensagens do celular e detestamos as fotos com referências a ex-namorados. As brigas pelo “se” ou pelo “daquela vez que você fez” ou ainda “mas com fulana foi diferente” começam a ganhar espaço em meio a relação e você não ama mais, você apenas desconfia.

Stacy  (Brittany Murphy) movida pela curiosidade e insegurança em saber mais sobre o passado amoroso de seu namorado, encontra uma agenda em suas coisas. A Agenda Secreta do Meu Namorado (2004).

O dia a dia e a rotina atribulada também é vilã dos relacionamentos, certo? Talvez, em alguns relacionamentos sim. Mas eu teimo em acreditar que o cotidiano é uma das partes mais belas, importantes e vitais para a manutenção da relação. O dormir, acordar, conviver, estar presente e vivenciar o passar dos dias é um constante ato de saber o momento de ceder; de ser paciente; de escutar; de ponderar; de consentir; de dialogar e muito mais do que isso é um ato de compartilhar, compartilhar nossos conflitos, temores, alegrias, aflições e acima de tudo é um ato de perdão diário.

Em outros casos, a falta de maturidade não nos permite lidar com os problemas quando eles surgem, então, por medo do desconhecido, o casal briga. A insegurança, aquele sentimento capcioso, faz-se presente mais uma vez e não nos deixa ver uma solução e findamos a achar que a solução é o fim.

Uma amiga me disse certa vez que nós escolhemos os problemas que queremos lidar. Tenho de concordar. Escolher a pessoa que tenha os “defeitos certos” para você, aquela pessoa que você consegue pesar na balança e perceber que os prós vencem os contras e que, ao chegar ao fim do dia, você sabe que mesmo com todos problemas e o peso do dia nas suas costas, você irá olhar ou mesmo pensar naquele alguém e se sentirá bem consigo e com o outro.

E se o fim for inevitável, os contras vencerem os prós e não forem mais saída para o casal, leitor, não espere uma cena a la “Casablanca”, com a Ingrid Bergman e o Humphrey Bogart se despedindo com seus chapéus impecáveis, em uma iluminação meticulosamente calculada para enaltecer os olhares de tristeza dos protagonistas.

A icônica cena da despedida de Rick Blaine (Humprey Bogart) e Ilsa Lund (Ingrid Bergman) em Casablanca (1942).

Talvez o maior problema seja entender que aquilo que desejamos ardentemente encontrar no outro precisamos primeiro achar em nós mesmos. A verdade é que ninguém vai nos fazer “completos”, nós temos de nos sentir felizes por nossa conta e nos sentirmos completos por sermos exatamente quem somos, assumindo nossos limites e reconhecendo nossos pontos positivos. O outro, o par com que nos relacionamos também deve ser completo. Para que assim ambas as partes do casal possam estar juntas porque desejam compartilhar aquilo que sentem, pelo sentimento que nutrem um pelo outro e nada além disso.

Caro leitor, não me veja como uma amargurada solteirona que desistiu de sonhar, não é nada disso, o cinema é a arte, é um escape, é uma janela para que o sonho possa ser vivido e eu como boa cinéfila acredito e aprecio seus momentos, mas prefiro muito mais o “real deal”, com todas as suas dificuldades e complexidades.

Este é o relato de alguém que vê cinema, que pensa cinema, de quem sonha junto com os personagens, mas que não deixa de levar quem ama junto. É o relato de alguém que ama, acima de tudo, de quem é falível, de quem tem defeitos. É o ponto de vista de quem acredita no romantismo da complexa vida real, de quem tem o olhar treinado para distinguir os truques e sonhos das artes e ainda assim continuar apaixonada, amando e disposta a compartilhar a vida, em ceder, em respeitar, em estar presente em todos os momentos, e de alguém que acredita que no fim o amor é tudo que de melhor nós temos, por mais piegas que isso soe.

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